Frei João de Ceita

Fr. IOAÕ DE CEYTA natural de Lisboa, e hum dos famosos alumnos da Serafica Provincia dos Algarves onde floreceo igual na Poezia Latina, como profundidade Theologica, e Oratoria Ecclesiastica pela qual mereceo universaes aplausos, ou fosse pela multiplicidade de textos com que exornava os seus discursos, ou pela vehemente energia com que os reprezentava, e proferia. Havendo sido Guardiaõ do Collegio de Coimbra o elegeo por seu Confessor o exemplarissimo Prelado D. Jozé de Mello Arcebispo de Evora devendo à madureza dos seus Conselhos grande parte do acerto das suas acçoens pastoraes. Falleceo em o Convento de Setubal em o anno de 1633. quando cõtava 55 annos de idade. Varios authores lhe celebraõ o nome como saõ D. Francisco Manoel Cart. dos AA. Portug. em Cathedra pulpito, e letras famoso Ioan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. lit. I. n. 31. Insignis Ecclesiastes. Pizarro Var. Illust. da Ind. cap. 5. Observac. 4. religioso grave; e na vid. de Ant. de Ojed. Observanc. 2. Grande predicador. Wadingo de Script. Ord. Min. 229. col. 2. vir eruditus. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 1. p. 613. col. 2. ingenii doctrinaeque fama clarus, totoque oris, & corporis gestu veluti ad eloquentiae faciem consormatus… tam scholasticae, quàm expositivae Theologiae apprime gnarus. Marrac. Bib. Marian. Part. 1. pag. 809. Vir plane doctus, atque in divini Verbi praedicatione non ignobilis. Fr. Ioaõ do Sacram. Chron. dos Carm. Descals. da Prov. de Portug. Tom. 2. liv. 5. cap. 22. §. 525. Sogeito bem conhecido por seus escritos. Fr. Ioan. a D. Ant. Bib. Francisc. Tom. 2. pag. 233. col. 2. insignis Ecclesiastes. Iacinto Cordeiro Elog. dos Poet. Lusit. Estanc. 52.

Fray Iuan de Ceita deste coro grave

Aguila superior, que altiva lucha

Con los rayos del sol buela suave,

Y de Escoto agudezas solo escucha:

El solo con la pluma asi se alabe

Venerarle podrè con razon mucha,

Peró alabarle nò; que es desvario

Quando nó es tan capaz el genio mio

Compoz

Quadragena de Sermoens em louvor da Virgem Maria, e de Christo Senhor Nosso seu filho conforme os Evangelhos, que a Igreja canta em suas Festas pelo discurso do anno. Lisboa por Pedro Crasbeeck. 1619. fol.

Quadragena segunda, em que se contem os dous Santos Tempos do anno convem a saber Advento, e Quaresma com seus introitos com outo Sermoens do Santissimo Sacramento do Altar. Evora por Lourenço Crasbeeck 1625. fol. Este tomo foy traduzido na lingua Castelhana por Fr. Ioaõ de Navaes Monge Cisterciense, e sahio Valhadolid. 1626. e depois na mesma lingua por Fr. Fernando Camargo Erimita Augustiniano. Madrid por Juan Gonzales. 1629. 4.

Sermoens das Festas da Virgem Santissima, e de Christo Senhor Nosso com outo do Sacramento, e de alguns Santos, e outo de defuntos. Lisboa por Lourenço Crasbeeck. 1634. 4. Traduzido em Castelhano pelo Padre Camargo Augustiniano. Saragoça. 1635.

Sermoens para algumas Festas de Santos da nossa Ordem, Apostolos, Martyres, Santas, e dez do Sacramento. Lisboa por Lourenço Crasbeeck. 1635. 4.

Sermaõ da Fé pregado em o Acto que o Santo Tribunal de Evora fez em a mesma Cidade no anno de 1624. a 14. de Julho. Evora por Lourenço Crasbeeck. 1624. 4.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

D. João de Castro

D. IOAÕ DE CASTRO filho natural de D. Alvaro de Castro Senhor de Penedono Embaxador a França Roma, Castella, e Saboya, Vedor da Fazenda delRey D. Sebastiaõ, e Neto do inclito Heroe D. Ioaõ de Castro de quem se fez a precedente memoria. A perspicaz intelligencia, de que o dotou a natureza para a cultura das sciencias o impellio a frequentar a Universidade de Evora em o anno de 1568. onde assistindolhe o Cardial D. Henrique com tudo, que era necessario para o decoro da sua pessoa, e vendo o aplauzo, com que recebera o grao de Mestre em Artes o proveo em hum Canonicato da Collegiada de Valença do Minho, que naõ aceitou, e em hum beneficio simplez em S. Giaõ da Sylva termo da dita Villa. Ao tempo que continuava o estudo da Theologia o interrompeo com a fatal jornada de Africa em o anno de 1578. em que depois de mostrar os alentados espiritos com que se animava o seu Coraçaõ ficou cativo com setenta, e nove Fidalgos companheiros da sua infelicidade. Restituido à liberdade como sempre fosse fiel para os Princepes naturaes ouvindo que na Villa de Santarem se aclamara a 24 de Iulho de 1580. Soberano desta Monarchia ao Senhor D. Antonio filho do Serenissimo Infante D. Luiz passou a Lisboa com alguns soldados sequazes da sua heroica resoluçaõ, e na batalha de Alcantara suburbio daquella Cidade sendo derrotado o exercito Portuguez pello Duque de Alva se salvou com o Senhor D. Antonio acompanhando-o com summa fidelidade, e igual desinteresse, já alistando com o posto de Coronel gente em a Villa de Barcellos, e na Ilha Terceira para a meditada conquista da Madeira; já dispondo com a madureza do seu juizo as emprezas conducentes para conseguir a Coroa de seus Avòs usurpada pela violencia Castelhana. Naõ se extinguio em o seu peito com a morte do Senhor D. Antonio sucedida em Pariz a 26. de Agosto de 1595. o ardente zelo para com a sua Patria pois chegando à sua noticia em o anno de 1598. que ElRey D. Sebastiaõ, ou quem afectava a sua Pessoa, estava prezo em Veneza passou de Pariz em 14. de Iulho de 1600. àquella Cidade onde reprezentou ao Senado com expressoens revestidas da mais zelosa fidelidade a injusta açaõ de ter recluso em o carcere quem fora adorado no trono. Movido o Senado com as instancias que se lhe faziaõ de diversas partes para a liberdade do prezo concedeo que sahindo do carcere se naõ demorasse em Veneza mais que o espaço de tres dias. Foy inexplicavel o jubilo, que concebeo o seu Coraçaõ quando vio restituido à liberdade aquelle Principe, que com profunda veneraçaõ reconheceo por seu Soberano como largamente descreve na Vida que compoz deste Monarcha cap. 19. Foy muito intelligente, e practico nas linguas Latina, Franceza, e Italiana, e naõ menos versado na Historia Sagrada, e profana. Discorreo pelas principaes Cidades de Italia, e por duas vezes assistio em Olanda, e Inglaterra até que fez a sua fixa habitaçaõ em a Corte de Pariz onde vivia em o anno de 1623. tolerando a infausta fortuna que sempre o acompanhou, certamente indigna do seu illustre nacimento e perspicaz juizo. Delle fazem mençaõ Caramuel Philip. Prud. lib. 5. in Proaem. Spener. Opus Herald. Part. 1. lib. 1. cap. 22. pag. 287. Compoz.

Discurso da Vida do sempre bem vindo, e apparecido Rey D. Sebastiaõ nosso Senhor o Encuberto desde seu nacimento tè o prezente derigida aos tres Estados do Reyno. Pariz por Martim Verac. 1602. 8.

Ajunta do Discurso precedente aos mesmos Estados em a qual se adverte de como ElRey de Espanha se ouve com ElRey D. Sebastiaõ depois, que o teve em seu poder. 1602. 8.

Reposta, que os tres Estados do Reyno de Portugal a sua Nobreza, Clerezia, e Povo mandaraõ a D. Ioaõ de Castro sobre hum Discurso, que lhes derigio sobre a vinda, e apparecimento delRey D. Sebastiaõ. 1603. 8.

Paraphrase, e concordancia de algumas Prophecias do Bandarra Sapateiro de Trancoso. 1603. 8.

Estas tres obras suposto que naõ tem lugar da impressaõ, certamente se conhece pelo caracter da letra que foraõ impressas em Pariz onde seu Author assistia.

Obras. M. S.

Discurso derigido a ElRey D. Sebastiaõ. Escrito a 25. de Iulho de 1588. Começa. Que maravilha he em anno taõ profetizado. &c.

De quinta, & ultima Monarchia futura, rebusque admirandis nostri temporis. 4. Composta em o anno de 1597.

Remonstrança feita de novo aos Illustrissimos Senhores do Conselho de Estado, e privado delRey Christianissimo, e suscitaçaõ da Causa, e dos acontecimentos admiraveis do Serenissimo Rey de Portugal D. Sebastiaõ primeiro do Nome. 4. Escrita em 1603.

Discurso a ElRey D. Sebastiaõ. Escrito em Pariz a 18 de Agosto de 1604.

Aurora. Consta esta obra de diversas Profecias interpretadas em obzequio delRey D. Sebastiaõ, e comprehende 67 cadernos de dez folhas cada hum. Foy composta em Pariz, e acabada em 28 de Abril de 1605. com estas palavras. Aqui demos fim a esta obra na qual poderamos trazer muita outra requissima pedraria de Prophecias, se naõ ouveramos medo, que alguns dos Leytores se enfadassem a qual naõ farà falta pera o conhecimento, e clareza intellectual dessas admiraveis maravilhas, que estaõ por vir, cujo começo esperamos por horas: pois as que allegamos nesta Aurora saõ taõ grandes taõ claras, e tantas, que somente o dia do cumprimento dellas pode ser mais claro, e mais fermoso. Eu puz as Prophecias na mayor pureza, que pude, mas naõ todas em seu natural, e naquella innocencia, e virtude sua, como foraõ profetizadas por cauza da corruçaõ dos exemplares, e do defeito da impressaõ antiga. Se ao diante sairem os seus Originaes authenticos em sua inteireza someto a elles a correiçaõ dos erros que aqui forem: naõ se botando por isso a ninguem o gosto do que achar puramente referido.

Tratado sobre o Profeta Daniel. Composto em 3 de Iulho de 1613.

Selva sobre a Paraphrase do Bandarra. Composta em Pariz a 30 de Agosto de 1614. Consta de 19. Capitulos começa. Ainda, que tarde me acordei. &c. 4.

O Antichristo, ou Profecias, e Revelaçoens sobre elle ordenadas. Consta de 62 cadernos de sinco folhas, a qual obra principiou em Pariz a 20 de Iulho de 1615, e foy acabada a 17 de Novembro de 1616. Começa. Depois que me comecei a dar ás Profecias, e revelaçoens annunciadoras das maravilhas dos nossos tempos. &c.

Ornamento, honra, e gloria de quatro Ordens de que profetizou o Ven. Abbade Ioachim em testemunho, e trofeos dos illustres merecimentos dellas, e delle. Composto em Pariz a 7 de Abril de 1617. Começa. Entre as muitas Ordens. &c.

Avisos divinos, e humanos para os memorandos Conquistadores da Terra da Promissaõ dos nossos tempos que he de todo o Universo. Consta de 4 livros que comprehendem 13 cadernos composto em Pariz a 23 de Setembro de 1617. Começa. Naõ ha cousa nesta Vida taõ natural, e cummua a todos os homens &c.

Novas flores sobre a Parafrase do Bandarra com algumas retractaçoens. Escrito em Pariz a 19 de Novembro de 1617.

Payneis divinos onde se reprezentaõ algumas das grandes merces que Deos tem prometidas ao seu Povo Ocidental da Igreja Romana com algumas particularidades jà feitas por elle aos Reys de Portugal, e aos Portuguezes. Consta de 5 livros que comprehendem 58 Capitulos. Composto em Pariz a 11 de Outubro de 1621. Começa. Temos já apregoadas tantas, e tamanhas Misericordias. &c.

Do Ternario, Senario, e Novenario dos Portuguezes, que em Veneza solicitaraõ a liberdade delRey D. Sebastiaõ Nosso Senhor com mais huma breve mençaõ do Senhor D. Antonio Repartido em 5 livros que comprehendem 29 Cadernos. Composto em Pariz a 3 de Mayo de 1623.

Genealogia dos Reys de Portugal desde D. Affonso Henriquez até D. Sebastiaõ Escrita em Francez, e consta de muitos cadernos que fazem dous tomos de 4. de justa grandeza.

O segundo apparecimento delRey D. Sebastiaõ Nosso Senhor desaseisto Rey de Portugal com a repetiçaõ summaria do primeiro, e de toda a sua vida. Dirigido aos Tres Estados do Reyno a saber ao da Cleresia, ao da Nobreza, e ao do Povo. 4. Consta de 20 Capitulos largos. Começa. Dous ditos há muy celebres. &c.

Tratado Apologetico contra hum libello diffamatorio que imprimiraõ em França certos Portuguezes com o titulo seguinte. Resposta, que os Tres Estados do Reyno de Portugal a saber Nobreza, Clerezia, e Povo mandaraõ a D. Ioaõ de Castro sobre hum livro, que lhes dirigio sobre a vinda, e apparecimento delRey D. Sebastiaõ. 4. Começa. Achando-me na Corte de Hespanha em companhia, e conversaçaõ dalguns Senhores Portuguezes afeiçoados à Patria &c.

Tratado sobre alguns Passos do Apocalypse. 4.

Das Fundaçoens da B. Tareja de Jezus. 4.

Advertencias ao Discurso da vida de D. Sebastiaõ, e da Ajunta do Discurso aos Tres Estados do Reyno. 4.

Notaçoens da Historia Geral de Espanha composta em Castelhano por Ioaõ de Mariana da Companhia de JESUS. 4.

Juramento delRey D. Affonso Henriques traduzido na lingua Franceza. 4.

Todas estas obras escritas pela propria maõ do Author, e firmadas com o seu sinal se conservaõ na selectissima Livraria de meu Irmaõ D. Iozè Barboza Clerigo Regular Chronista da Serenissima Caza de Bragança, e Censor da Academia Real onde as examinamos com summa aplicaçaõ, e certamente muitas dellas saõ merecedoras da luz publica.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

D. João de Castro

D. IOAÕ DE CASTRO decimo quarto Governador, e quarto Vicerey do Estado da India nobilitou com o seu nacimento a famosa Cidade de Lisboa onde vio a primeira luz a 27 de Fevereiro de 1500. Foy filho 2. de D. Alvaro de Castro Governador da Caza do Civil, e de D. Leonor de Noronha filha de D. Ioaõ de Almeyda segundo Conde de Abrantes. Aprendeo as disciplinas Mathematicas com Pedro Nunes Oraculo desta profissaõ naquella idade de cuja escola em que teve por companheiro o Serenissimo Infante D. Luiz, sahio profundamente instruido; porem como o seu genio fosse mais inclinado às armas, que às letras elegeo para preludio das suas açoens militares a Praça de Tangere distinguindo-se neste bellicoso theatro com tal excesso dos mayores soldados, que mereceo ser armado Cavalleiro por D. Estevaõ de Menezes Governador da mesma Praça. Restituido à Corte, e remunerado por ElRey D. Ioaõ III. com a Comenda de Salvaterra se embarcou na formidavel armada, que Carlos V. expedio para a Conquista do Reyno de Tunes violentamente usurpa do pela cavilloza industria do Pirata Barbaroxa em cuja expediçaõ naõ aceitando a honra de ser armado Cavalleiro pelo Cesar Austriaco, e muito menos o donativo de dous mil cruzados mostrou, que servia ambicioso da fama, e naõ do premio. Havendo adquirido immortal gloria nas Campanhas de Africa anhelando o seu espirito a mais dilatada esfera navegou para a Asia em o anno de 1538. com o Governador do Estado D. Garcia de Noronha seu cunhado levando por companheiro a seu filho D. Alvaro de Castro o qual educado para Heroe lhe dava por divertimento da idade de treze annos que contava, os perigos de taõ prolongada viagem. Tanto, que chegou a Goa partio com summo alvorosso ao socorro de Dio, que heroicamente defendia o famoso Antonio da Sylveyra como vaticinando os celebres triumfos, que havia de alcançar naquella Praça Oriente da sua gloria, e fatal Ocazo da potencia de Cambaya. Na Armada em que empenhou a authoridade da pessoa, e o poder do Estado o Governador D. Estevaõ da Gama para queimar as Gales do Turco fabricadas no Porto de Suez, foy com o posto de Capitaõ de hum Navio observando no estreito do mar roxo como Filosofo natural, e perito Astrologo, a altura do Sol, os impulsos, e movimentos naturaes das crecentes do Nilo, nas monçoens do Estio, cujas observaçoens deixou eternizadas pela sua penna emula da sua espada. Voltando a Portugal naõ permitio ElRey, que despisse as armas nomeando-o General das Armadas da Costa, e sahindo no anno de 1543. a comboyar as Náos, que se esperavaõ da India avistou hum pirata Francez, que com 7 Navios infestava os nossos mares, e depois de hum porfiado combate o rendeo lançando duas Náos ao fundo, e salvando-se as outras por beneficio da noute. Pouco foy o tempo que descansou à sombra deste triumfo porque para mayor empreza o convidou a fortuna. Certificado D. Joaõ o III. de que o inimigo comum aprestava huma formidavel armada para conquistar a Praça de Ceuta expedio huma armada da qual o nomeou General, e unida com a do Emperador Carlos V. surgio á vista de Gibraltar, e posto que D. Alvaro Baçan General da armada Imperial recuzou peleijar com os inimigos, D. Joaõ de Castro regulando as suas açoens pelos impulsos do seu heroico coraçaõ, se deteve pelo espaço de tres dias esperando o conflicto do qual fugio Barbaroxa receozo de ser despojo das nossas armas. Recolhido ao porto de Lisboa onde a fama tinha divulgado o valor intrepido do seu peito se retirou à Villa de Cintra para evitar os aplauzos merecidos á grandeza do seu coraçaõ. Habilitado com o exercicio de tantas emprezas militares lhe entregou o governo do Estado da India a Magestade de D. Ioaõ o III. esperando da prudencia do seu juizo, e da Valentia do seu braço o conservaria impenetravel a todos os Potentados da Asia. Partio para Goa embarcado em a Náo S. Thome a 17 de Março de 1545. acompanhado de seus filhos D. Fernando, e D. Alvaro, q na escola de taõ grande Pay aprenderaõ a arte de immortalizar os seus nomes na posteridade. Depois de edificar nova Fortaleza em Moçambique ferrou Goa a 10 de Setembro onde foy magnificamente recebido por seu antecessor Martim Affonso de Souza, e aplaudido pela sincera voz do povo, que fatidicamente augurava as felicidades dispensadas pelas prudentes maximas do seu governo. O prologo das vitorias com que estabeleceo a conservaçaõ do Estado, e humilhou o orgulho de seus inimigos foy a derrota de dez mil barbaros capitaneados por Acedecaõ valeroso Turco General do Hidalcaõ, que experimentando o furor das nossas armas igualmente na ruina dos seus exercitos, como em o incendio das principaes Cidades do seu dominio, pedio humilde pazes, que lhe foraõ benevolamente concedidas. Mais glorioso triumfo lhe offereceo a fortuna em a celebre Fortaleza de Dio, que governava D. Ioaõ Mascarenhas grande pelo nacimento na Europa, mayor pelo valor na Asia, cujos muros sendo segunda vez invadidos pela obstinada resoluçaõ delRey de Cambaya Soltaõ Mamude havendo rebatido os Portuguezes formidaveis  assaltos derigidos pela militar disciplina de Coge sofar, e seu filho Rumecaõ, sahio a campo, e depois de huma bem disputada batalha em que tres vezes se formou o inimigo para novo conflicto se coroou triumfante com a morte de sinco mi1 barbaros, seiscentos cativos, quarenta peças de artilharia cujos despojos serviraõ para lhe authorizar o triunfo com que foy recebido em Goa por ter abatido o mais arrogante antegonista da Magestade do Estado agora felismente renacido pelos impulsos da sua fulminante espada. Desta memoravel vitoria foraõ prosperas consequencias a derrota dos Achens no rio Parlès vaticinada pelo apostolico espirito de S. Francisco Xavier; os incendios das Cidades de Baroche, Pate, e Patane, e a assolaçaõ da Costa de Surrate em cujas prayas prezentou batalha a ElRey de Cambaya, que timido naõ quiz aceitar. O disvelo continuo com que atendia pela conservaçaõ do Estado unido aos incommodos experimentados em tantas campanhas lhe foraõ diminuindo com tal excesso a saude, que cahio gravemente enfermo, e conhecendo pelos symptomas ser mortal a doença entregou o governo em paz firmada sobre tantas vitorias. Convocou as pessoas principaes de ambas as Jerarchias, e na sua prezença jurou, que até a hora em que estava naõ era devedor à Fazenda Real de hum só cruzado, e que desta declaraçaõ se fizesse hum termo legal para que se fosse achado perjuro o castigasse ElRey como reo de taõ feyo delicto. Para director da sua conciencia elegeo o insigne Operario Evangelico S. Francisco Xavier o qual lhe assistio em toda a enfermidade com cuidado de enfermeiro, e piedade de Santo. Havendo recebido com grande ternura o Sagrado Viatico, e a Extrema-Unçaõ conferida pelo Bispo D. Ioaõ de Albuquerque expirou placidamente a 6 de Iunho de 1548. quando contava 47 annos tres mezes, e dez dias, e quasi tres de governo o qual lhe prorogava D. Ioaõ o III. por outros tres com o titulo de Vicerey se a morte envejosa da sua fama o naõ privara da vida digna de mais larga duraçaõ. Foy depositado o seu Cadaver no Convento de S. Francisco de Goa donde foy tresladado para a sumptuoza Capella, que seu Neto o Illustrissimo Bispo da Guarda D. Francisco de Castro edificou no Claustro de S. Domingos de Bemfica distante huma legoa de Lisboa na qual em hum Mausoleo formado de varias pedras, que descansaõ sobre Elefantes de pedra negra estaõ recolhidas as Cinzas deste insigne Heroe com o seguinte Epitafio.

  1. Joannes de Castro XX. pro Religione in utraque Mauritania stipendiis factis, navata strenue opera Thunetano bello; Mari rubro felicibus armis penetrato; debellatis inter Euphratrem, & Indum Nationibus: Gedrosico Rege, Persis, Turcis uno praelio fusis; servato Dio, imò Reipublicae reddito dormit in magnum diem, non sibi, sed Deo Triumphator; publicis lacrymis compositus, publico sumptu prae paupertate funeratus. Obiit Octava Id. Junii anno 1548. Aetatis. 48. Foy cazado com sua prima segunda D. Leonor Coutinho filha de D. Leonel Coutinho, e D. Mecia de Azevedo de quem teve D. Miguel de Castro, que falleceo Capitaõ de Malaca; D. Fernando, que morreo abrazado na mina do Baluarte de Dio, e D. Alvaro glorioso emulo das vitorias de taõ grande Pay o qual pelos seus insignes merecimentos foy Embaxador a Castella, França, Roma, e Saboya Conselheiro de Estado, e Vedor da Fazenda delRey D. Sebastiaõ. A sua vida escreveo com elegante, e discreto estilo o incomparavel Jacinto Freyre de Andrade fazendo com a sua penna taõ illustre a memoria de D. Ioaõ de Castro depois de morto, como elle a fizera vivo pela sua espada cujo caracter dibuxou com estas eloquentes cores no Liv. 4. §. 110. Com igual semblante o viraõ as incomodidades da patria, e as prosperidades do Oriente parecendo sempre o mesmo homem em diversas fortunas. Fez brio de merecer tudo, e de naõ pedir nada. Fazia razaõ, e justiça a todos igualmente sendo nos castigos inteiro, mas taõ justificado, que mais se podiaõ queixar da ley, que do ministro. Era com os soldados liberal, e com os filhos parco mostrando mais humanidade no Officio, que na natureza. Tratava com grande respeito as açoens de seus antecessores honrando até aquellas de que se apartava. Sem estragar a cortezia conservou o respeito, sempre zelou a cauza de Deos primeiro, que a do Estado; nenhuma virtude deixou sem premio; alguns vicios deixava sem castigo melhorando assi muitos, huns com o beneficio, outros com a clemencia. Os Donativos que recebia dos Principes da Asia mandava carregar na Fazenda Real, virtude que louvaraõ todos, imitaraõ poucos. Os Soldados enfermos achavaõ nelle lastima, e remedio; a todos obrigava, e parecia devedor de todos. Nenhuma façaõ emprendeo que naõ conseguisse sendo nas execuçoens promptissimo, maduro nos Conselhos. Entre ocupaçoens de Soldado conservou virtudes de Religioso; era frequente em vizitar os Templos, grande honrador dos Ministros da Igreja, compassivo, e liberal com os pobres; devotissimo da Cruz, cujo sinal adorava com inclinaçaõ profunda sem diferença do lugar, ou tempo. Na Villa de Cintra possuia huma Quinta chamade Penha Verde plantada toda de arvores sylvestres para onde algumas vezes se retirava a passar o tempo em ocio proveitoso; nella dedicou huma Ermida à Virgem Santissima, e na portada se lè gravada em huma pedra a seguinte inscripçaõ. Ioannes Castrensis cum viginti annos in durissimis bellis in utraque Mauritania pro Christi Religione consumpisset, & in illa clarissima Tunetis expugnatione interfuisset, atque tandem sinus Arabici litora, &omnes Indiae oras non modo lustrasset, sed literarum monumentis mandavisset Christi numine salvus domum rediens Virgini Matri Fanum ex voto dicavit anno 1542. Na mesma Quinta edificou D. Francisco de Castro Inquizidor Geral, e Neto deste Heroe sobre hum elevado monte chamado o das Alvissaras que pedio D. Ioaõ de Castro pela celebre Victoria de Dio, huma Capella dedicada a insigne Martyr, e Sabia Doutora Santa Catherina em cujo retabolo, como vimos está hum grande quadro de jaspe, e nelle primorosamente aberto, e reprezentado o certame que a mesma Santa teve com os Filosofos em Alexandria. Defronte desta Capella está huma Cruz grande de marmore arvorada sobre o monte, e na parte inferior se lé gravada esta elegantissima inscripçaõ. D. Ioannes de Castro India, Prorex, Augustus, Felix, Pius, Triumphator collem hun á Rege tantùm pro Asia de victa postulatum victrici Crucis Labaro consecrandum reliquit. Episcopus D. Franciscus á Castro nepos votum soluit onno Christi 1641. As virtudes moraes, e proezas militares com que eternizou o seu nome este famoso Heroe foraõ assumpto das penas dos mais insignes Escritores dos quais para immortal padraõ da sua memoria se relataraõ os Elogios. O primeiro, e o mayor de todos seja o que lhe fez o Taumaturgo do Oriente S. Francisco Xavier em huma carta escrita ao P. Ignacio Martins da Companhia de Iesus mandada de Goa a 28 de Outubro de 1548. cujo original, que vimos, se conserva na Serenissima Caza de Bragança, e sahio por minha deligencia impressa na Vida deste Heroe composta por Iacinto Freyre de Andrade da impressaõ de 4. Lisboa por Antonio Isidoro da Fonceca 1736 La impensada muerte del Virey D. Iuan de Castro dexó deshauciado a todos estos pueblos, y sierto perdió S. A. en el el mejor bassallo, que podia desearse, y aun si nó siente su muerte que pensé fue sueño, la Compania mas que todo, que si en su vida fue espejo de la virtud, y del valor, en su muerte fuè verguença alos Ecclesiastes, y assombro a los Seglares; a los Ecclesiastes porque su muerte no parecia si nó de angel se dizir se puede, y a los seglares porque echó la baliza de la cudicia mas de raya dexando en el desprecio de los bienes profanos una memoria de que puede llebantarse estatua estimando en tanto la pobreza que aun para la comida de su dolencia pidio prestado, y con tan limpias manos de la hazienda real que al punto de morirse dio testiimonio jurado que por la cuenta, que tenta que dar a su Creador nada ni valor de un Xarafim era deudor; dio el espirito al Señor con tantas muestras de justo, que en mi estimacion boló al cielo, y si nó no sé que seré yo. Maffeus. Hist. Ind. lib. 13. Vir omnium consensu aeque belli, ac pacis artibus clarus. Couto Decad. da Ind. 6. liv. 6. cap. 9. Foy bem instruido nas artes liberaes, e taõ bom latino que podia julgar de estilo… Foy muito inclinado, e afeiçoado á Mathematica… servio com muito zelo, amor, inteireza, e pouca cubiça. Mariz Dialog. de Var. Hist. Dial. 5. cap. 1. sendo grandissimo Mathematico, e em outras scientificas excellencias illustrissimo: era tambem de sua pessoa taõ esforçado, como em letras insigne. Fr. Ant. de S. Roman Hist. de la Ind. liv. 4. cap. 6. illustre Capitan, y famoso Vicerey. Souza de Maced. Flor. de Espan. cap. 12. excel. 1. Excellente Governador. e cap. 18. excel. 2. insigne. Solorzan. de Iur. Ind. Tom. 1. lib. 1. cap. 3. n. 48. insignis Indiarum Prorex. Telles Chron. do Comp. da Prov. Part. 2. liv. 6. cap. 59. n. 9 e na Hist. da Etiop. Alt. liv. 1. cap. 9. famoso. Barros Decad. 4. da Ind. liv. 10. cap. 19. Lucena Vid. do Santo Xavier. liv. 6. cap. 2. como fez a muitos ventagem no esforço militar, assi lhe fizeraõ poucos na cortezia, estima da virtude, zelo da piedade e Religiaõ Christãa. Faria Asia Portug. Tom. 2. Part. 2. cap. 1. Varon excellente por sangre, por estudios, y por talento, e no Coment. às Rim. de Cam. Tom. 1. pag. 300. meretissimo por quantas partes y virtudes se pueden juntar a comportar un Heroe. Pereira Hist. de D. Luiz de Attayde liv. 2. cap. 7. cuja gloriosa memoria, e desacustumados merecimentos naõ sofrem ser em historia da India nomeado singelamente. Pois juntas a tanta grandeza de animo, e a hum taõ raro valor das  armas se viraõ resurgir neste Capitaõ as mais esquecidas virtudes da continencia, e desenteressada pureza da antiguidade Romana com espirito temperado mais manso, que Severo, em que se achou sempre hum puro, e verdadeiro concerto de vida virtuosa. Clede Hist. de Portug. Tom. 2. pag. mihi 2. Castro joignoit aux vertus civiles les vertus guerrieres, e l’on peut le compter au rang de ces hommes rares que la nature ne produit que de loin en loin. Fonceca Evor. Glorios. pag. 149.  espirou com sentimento universal de toda a Asia Christãa, que devia á sua piedade a conservaçaõ, e propagaçaõ da Fé, e ao seu valor a segurança, e liberdade. Lafitau Conq. de Portug. Tom. 2. liv. 12. pag. mihi 418. Tous ces traits que peuvent le metter en parallele avec les Heros de l’ancienne Grece, e avec les grands hommes des premiers áges de la simplicitè Romaine font mieux son eloge que je pourrois ajoùter pour tracer son caractere, e embellir son portrait. Fr. Ioan. De Luc. Contin. Annal. Minor Luc. Wadingi Tom. 18. ad an. Christi 1546 p. 195. n. 131. Vir omnium consensu aeque belli, ac pacis artibus clarus. Sousa Orient Conquist. Part. 1. Conq. 1. Divis. 1. §. 37. Navegou seguro no porto da eternidade como pode presumir a mais acertada prudencia das virtude de sua vida, e das circunstancias da sua morte Leytaõ Mem. Chronol. da Universidade de Coimb pag. 505. n. 1086. preclarissimo espelho de Heroes. Souza Hist. Gen. da Caz. Real Portug. Tom. 3. p. 483. insigne varaõ ornado de tantas virtudes como valor. A os Historiadores correspondem com armonica suavidade os Poetas dedicando metricos aplauzos à

memoria de taõ grande Heroe. O divino Camoens Lusiad. Cant. 1. Estanc. 14.

Albuquerque terrivel, Castro forte,

E outros em quem poder naõ teve a morte.

E no Cant. 10 Estanc. 72.

Este depois em campo se aprezenta

Vencedor forte, e intrepido ao possante

Rey de Cambaya, e á vista lhe amedrenta

Da fera multidaõ quadrupedante.

Naõ menos suas terras mal sustenta

O Hidalcaõ do braço triunfante,

Que castigando vay Dabul na Costa

Nem lhe escapou Pondà no Sertaõ posta.

Diogo Bernardes Cart. que he a 23 a D. Fernando Alvres de Castro Neto deste Heroe.

Nunca à sombra do frexo, nem da faya

Creou Torquatos, Fabios, Scipioens;

Nem quem por sima delles poz a raya

Aquelle q entre os mais claros varoens

A palma se lhe deve afirmar posso

Isto sem consultar opinioens

Aquelle graõ guerreiro aquelle nosso

Invencivel Avó graõ Visorey

De Castro D. Ioaõ espelho nosso.

Ah Senhor D. Fernando, que direi!

De quem por todo o mundo dizem tanto

Se com tal intençaõ naõ comecei!

Somente por retrato raro, e Santo

Das armas, do saber, da Cortezia

Quiz illustrar com elle este meu canto

Que para o celebrar mister havia

Hum estilo mais alto, e levantado

Do que Satyra pede, ou Elegia

Deixou-vos o caminho abalizado

Por onde foy soberbo ao claro templo

Á sempiterna fama dedicado.

Manoel de Faria, e Souza Fuent. de Aganip. Part. 1. Cent. 3. Sonet. 34.

Moriste ò Juan con nuebas circunstancias

De valor, pues al tuyo raro toca

Hazer, que com perceptos dessa boca

Hagan obras d’essa alma consonancias.

De esplendor haciendo exorbitancias

Si el curso del vivir se te revoca

Livre tu alma de su estrecha roca

De tierra a Cielo mide las distancias.

Estrecha bien, que al fin nó fue desnuda

De su cuerpo alma tal por edad fria

Ni por golpe violento, ó fiebre aguda:

Mudar fuè, no morir, que apetecia

Buscar un Cielo en que caber sin duda,

Que sin duda en un cuerpo nó cabia

Gabriel Pereira de Castro Ulyssea Cant. 7 Estanc. 113. e 114.

Embraçado o escudo rutilante

Vem o famoso Castro com presteza

A socorrer os seus, elle diante

Pouco estimando a perigosa empreza.

Armado sahe de hum animo constante Desprezador da vida, e só se preza

Da alta virtude, que a seu braço unida

A India toda o teme, e faz timida.

Tal preço de sua barba, e tal valia

Teraõ só dous cabelos, que o thesouro

Mayor do sol (com seus rayos cria

Nas grandes veyas cujo sangue he ouro)

Menos estima tem, que a quanto a fria

Noite esconde, e descobre Apollo louro,

Tocando o mais remoto paralelo

Excede desta barba hum só cabelo.

Barbosa Archiath. Lusit. pag. 83 .

Ecce maris domitor generosus Castrius urbem

Indica quá prudens, & justus regna gubernat

Deserit obsessis laturus classe salutem

  1. Thomaz de Bem Castreidos lib. V. pag. 110.

Gloria Lusiadum, ductor clarissime, Castre

Sat ferro, belloque datum, sat Marte cruento

Quid valeat tua dextra, rubens jam sanguine Maurus

Fractaque turbatae testantur cornua Lunae

Othomanae quando praeclarum optare triumphum

Non aliud, quam ferre fuit, quàm vincere, velle.

Vicisti; asseruit se se, rupitque catenas

Urbs tandem, &fastus decoravit grata triumpho.

Cedat Alexander spoliis Orientis onustus

Nunc tibi, concedat Scipio Carthagine victá:

Pompeius, Caesar, Marius, vel fortis Achilles,

Heroes sileant veteres; quos fama volucris

Altitonante tuba mirum super extulit astra &c.

Compoz.

Roteiro da viagem, que fez deste Reyno para a India com o Vicerey Garcia de Noronha no anno de 1538. e do que fez de Goa até Dio. Dedicado ao Infante D. Luiz. Estas duas obras, que alguns Authores intitularaõ Commentarios Geograficos os tinha promptos para a impressaõ Fr. Fernando de Castro religioso Dominico neto do author de quem se fez memoria em seu lugar, e se conservaõ M. S. na Livraria do Collegio dos Padres Jesuitas de Evora como escrevem Maffeo Hist. Ind. lib 13. no fim, e Fr. Ant. de Roman Hist. Orient. liv. 4. cap. 6. Fallando desta obra o eloquentissimo Jacinto Freyre de Andrade Vid. de D. Ioaõ de Cast. liv. 4. §. 110. Nas horas, que lhe perdoavaõ os cuidados da guerra descreveo em copioso tratado toda a Costa, que jaz entre Goa, e Dio sinalando os baixos, e recifes; a altura da elevaçaõ do Polo em que estaõ as Cidades, restingas, angras, e enseadas, que formaõ os portos, as monçoens dos ventos, e condiçoens dos mares, a força das correntes, e impeto dos rios, arrumando as linhas em taboas diferentes, tudo com taõ miuda, e acertada Geografia, que o podera esta só obra fazer conhecido, se já o naõ fora tanto pelo valor militar.

Roteiro da viagem da India atê o Estreito de Sués. A esta obra fazem grandes Elogios diversos authores como saõ Andrade Vid. de D. Ioaõ de Castro liv. 1. n. 19. Em todas estas angras, e enseadas da boca do Estreito até Suez foy D. Ioaõ de Castro tomando o sol, e fazendo roteiro formando juizo já de Filosofo natural, e já de marinheiro mostrando como caminha cega a experiencia rude dos Pilotos sem os preceitos da arte e liv. 4. §. 110. Obra util, e grata aos navegantes. Faria Asia Portug. Tom. 2. Part. 1. cap. 3. n. 5. tomando en esta ocasion ora la espada, ora la pluma fue describiendo con mucha justificacion en estilo, y lengua Ciceroniana aquelles mares, aquella costa. e no Coment. das Luziad. de Cam. Cant. 5. Estanc. 19. Fr. Ant. Roman. Hist. Orient. liv. 4. cap. 6.

Livro das merces que fez na India M. S.

Cartas que escreveo. e das respostas que teve de D. Ioaõ o III. 5. Tom. M. S.

Outo livros do governo que fez na India ordenados por elle. M. S.

Carta a Aleixo de Souza Chichorro Vedor da Fazenda da India. He reposta a huma que elle lhe escreveo na qual o increpa de ambicioso. He larga, e judiciosa. Começa. Guardei hum pouco em responder á vossa carta.

Carta escrita de Dio ao Senado de Goa em 23. de Novembro de 1546. Sahio impressa na Vid. deste Heroe escrita por Iacinto Freyre de Andrade liv. 3. §. 29.

Relaçaõ do que passou no sitio de Dio. M. S. Desta obra faz memoria o moderno addicionador da Bib. Orient. de Antonio de Leaõ Tom. 1. Tit. 3. col. 65.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

D. João de Castelo Branco

D. IOAÕ DE CASTELLOBRANCO natural de Lisboa onde foraõ seus illustres progenitores D. Duarte de Castellobranco primeiro Conde do Sabugal, e D. Catherina de Menezes filha de D. Bernardo Coutinho. Foy excellente Latino, e muito perito nos preceitos do idioma Romano. Ornado de summa prudencia, e naõ menor vigilancia exercitou o lugar de Prezidente do Senado de Lisboa em que o elegeo o Serenissimo Rey D. Ioaõ o IV. no anno de 1644. A sua caza era o refugio dos pobres, aos quais curava com ardente charidade ministrandolhe os medicamentos manipulados por suas proprias maõs. Falleceo em Lisboa com geral sentimento dos necessitados. Foy cazado com D. Cecilia de Menezes filha de D. Ioaõ Coutinho quinto Conde de Redondo de quem deixou sucessaõ. Compoz.

Arte de Gramatica Latina. Lisboa 1636. 4.

Breve methodo curativo tocante á C,urgia que o uzo, e experiencia certa descobrio por D. Ioaõ de Castellobranco: ensina como se deve curar com o balsamo, ou oleo de ouro, e de suas grandes virtudes com outras advertencias no modo de C,urgia para com facilidade se curarem os enfermos. Lisboa na Officina Crasbeeckiana. 1655. 8.

Breve recopilaçaõ das muitas, e singulares virtudes dos pòs brancos solutivos da quinta essencia do ouro de Alexandre Quintilio. Lisboa por Pedro Crasbeeck. 1656. 8. e ibi pelo dito Impressor. 1658. 8.

Fazem delle honorifica memoria D. Francisco Manoel Carta dos Author. Portug. Ioan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Liter. lit. 1. n. 29 e Fr. Manoel de Azevedo Correc. de Abuzos. Trat. 1. n. 51. a quem tanto devem os pobres deste povo de Lisboa pois só para curalos gastou tantos cruzados mandou obrar, e obrando por sua maõ diversos unguentos, e quintas essencias sendo entre elles os quazi miraculosos pòs de Quintilio com os quais purgou a tantos milhares de homens, mulh eres, e meninos sem já mais haver nenhum sucesso ruim com as ditas purgas sendo muitas vezes dadas sem preparaçaõ alguma, e sem os requisitos, e resguardos, que os Medicos observaõ.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

D. João de Castelo Branco

D. IOAÕ DE CASTELLO-BRANCO Commendador de Aljezur da Ordem militar de S. Tiago, Conselheiro de Estado delRey D. Sebastiaõ, e Governador do Algarve. Foy filho 3 de D. Martinho de Castellobranco primeiro Conde de Villanova de Portimaõ, e de sua mulher D. Maria de Noronha filha de Ioaõ Gonsalves da Camara. Cazou com D. Catherina Barreto filha de Pedro Mascarenhas Governador da India de quem teve sucessaõ. Passou a segundas vodas com D. Branca de Vilhena filha de Nuno Rodrigues Barreto Alcayde mòr de Faro. Foy hum dos mais instruidos Cavalheros, que floreceraõ no reynado delRey D. Sebastiaõ assim nos preceitos da Historia deixando compostas diversas obras das quais naõ merecem poeuena estimaçaõ as seguintes.

Practica a ElRey D. Sebastiaõ em que lhe persuadio ser inconveniente dar hum rebate falso de noute em Lisboa M. S.

Relaçaõ do fingido Rey intitulado D. Sebastiaõ que apareceo em Veneza. M. S. Desta obra se infere certamente que seu author ainda vivia no anno de 1598. Em o qual sucedeo o fingimento, ou a Verdade da pessoa que afirmava ser ElRey D. Sebastiaõ.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

João Cascão

IOAÕ CASCAÕ cuja patria, e Pays se ignoraõ. Foy muito inclinado ao estudo da Historia escrevendo com difusaõ como diz o Licenciado Iorge Cardoso nas Mem. M. S. para a Bib. Lusit.

Relaçaõ da jornada delRey D. Manoel á Cidade de Evora. M. S.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]