Francisco Rebelo de Azevedo

FRANCISCO REBELLO DE AZEVEDO natural da nobre Villa de Guimaraens filho de Gonçalo Rebello, e D. Maria de Andrade, e Azevedo, e Sobrinho do Licenciado Manoel Barbosa que escreveo os doutos Cõmentarios sobre a Ordenaçaõ do Reyno. Depois que se instruio na patria com as letras humanas se applicou em a Universidade de Coimbra ao estudo dos Sagrados Canones nos quaes recebendo o grào de Doutor, foy Lente de huma Cathedrilha em 28. de Fevereiro de 1578. donde subio à Cadeira de Sexto em 16. de Novembro de 1581. e a Conego Doutoral da Sè de Lisboa em 1582. de cuja Diocese foy Governador. Destes lugares Ecclesiasticos passou a exercitar os Seculares de Dezembargador da Casa da Suplicaçaõ, e ultimamente de Dezembargador do Paço a cuja memoria dedica hum grande Elogio seu Primo o Doutor Agostinho Barbosa De Potest. Episcop. Part. 1. Tit. 3. cap. 8. que finaliza com estas palavras Ut quot nostrae Lusitaniae sunt partes, totidem faceret monumenta virtutis suae, cujus immatura mors maximum nobis reliquit sui desiderium. Escreveo douta, e nervosamente

Allegaçaõ a favor da Senhora D. Catherina Duqueza de Bragança sobre a successaõ do Reyno de Portugal. M. S.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

Francisco da Apresentação Sales

FRANCISCO DA PRESENTAÇAM SALES natural de Santarem, e filho do Doutor Miguel Barbosa Carneiro Juiz de fóra desta Villa, e D. Leonor da Fonseca, e irmaõ de Fr. Miguel Barbosa Carneiro, Juiz Geral das Ordens, Dezembargador da Casa da Suplicaçaõ, Ouvidor da Capella Real, Deputado da Inquisiçaõ de Lisboa, e do Tribunal da Mesa da Conciencia, e Ordens. Na idade da adolescencia recebeo a Murça de Conego Secular da Congregaçaõ do Evangelista onde floreceo, e frutificou o seu engenho assim nas Cadeiras como em os Pulpitos. A sua prudencia o habilitou para exercitar os lugares de Reytor de Evora, Procurador da sua Congregaçaõ na Corte de Lisboa, Visitador do Convento de S. Bento de Xabregas, e Provedor do Hospital Real das Caldas pelo espaço de doze annos. A sua sciencia o fez digno de ser Lente de Theologia Moral em o Convento de S. Bento, Cabeça da sua Canonica Congregaçaõ, Qualificador do Santo Officio, e Examinador das Tres Ordens Militares. Ao tempo que para remedio de huma parlezia uzava dos banhos das Caldas da Rainha, deixou a vida caduca pela eterna a 24. de Julho de 1733. Publicou

Sermaõ de Nossa Senhora do Valle. Lisboa por Antonio Pedrozo Galraõ. 1698. 4.

Sermaõ da Dominga da Sexagessima prègado na Capella Real. Lisboa por Manoel Lopes Ferreira. 1701. 4.

Oraçaõ em acçaõ de graças , que na Capella Real de Nossa Senhora do Populo do Hospital das Caldas celebrou o Excellentissimo Duque do Cadaval pela especial noticia que ElRey D. Joaõ o V. lhe cõmunicou de se terem ajustados os felices despozorios da Princeza D. Maria, e do nosso Principe D. Jozè recitada a 11. de Outubro de 1725. Lisboa por Antonio Pedrozo Galraõ. 1725. 4.

Theologiae Moralis Compendium. fol. M. S.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

 

Frei Francisco da Apresentação

Fr. FRANCISCO DA PRESENTAÇAM natural de Toaõ na India Oriental onde professou o sagrado Instituto dos Erimitas de Santo Agostinho no anno de 1584. O seu talento acompanhado de litteratura o fez digno de que o Estado o elegesse Embaxador a ElRey de Bombaraça, e depois ser Prior do Convento de Cochim, e Governador deste Bispado. Impellido do afecto com que amava a sua Religiaõ escreveo no anno de 1622.

Defensorio da Ordem contra o Chronista Serafico Fr. Antonio Daza. Esta Obra se conserva M. S. no Collegio do Populo da Cidade de Goa.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

Francisco da Apresentação

FRANCISCO DA PRESENTAÇAM natural da Villa de Almada do Patriarchado de Lisboa descendente de Familia Nobre, Conego Secular da Congregaçaõ do Evangelista amado onde aprendeo as Sciencias Escholasticas em que sahio profundamente versado. Foy Reytor do Collegio de Evora, e no Convento de Lisboa, passou a melhor vida em 10. de Mayo de 1595. Compoz

Tractatus Theologici. M. S.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

D. Francisco de Portugal

D. FRANCISCO DE PORTUGAL Outavo Conde do Vimioso, e segundo Marquez de Valença Senhor da Casa de Basto, Donatario da Capitania de Machico na Ilha da Madeira, Cõmendador das Cõmendas de S. Miguel de Chorense, S. Tiago de Androes, S. Martinho de Sande, S. Miguel de Souto, S. Nicolào de Saleas da Ordem de Christo, e de Almodouvar, e Garvaõ no Campo de Ourique da Ordem de S. Tiago. Naceo em a Cidade de Lisboa a 25. de Janeiro de 1679. sendo filho de D. Miguel de Portugal setimo Conde do Vimioso, Senhor da Villa de Aguiar, Governador de Evora, e Estribeiro mòr da Rainha D. Maria Francisca Izabel de Saboya, e neto de D. Affonso de Portugal quinto Conde do Vimioso, primeiro Marquez de Aguiar, Capitaõ General do Reyno, e Conselheiro de Estado. Por morte de seu Excellentissimo Pay foy educado com virtuosas maximas atè a idade de onze annos por sua Tia a Condessa D. Maria Margarida de Castro, e Albuquerque huma das mais celebres Matronas, que respeitou a nossa Corte a quem deixou igualmente herdeiro dos dotes do seu espirito, como da opulencia da sua Casa. Logo que começou a receber as primeiras instruçoens da lingua Latina, e letras humanas foraõ tantos os progressos do seu agudo engenho, e penetrante comprehensaõ, que claramente mostrou nacera mais para ensinar, do que para aprender. Tendo alcançado a perfeita inteligencia das linguas mais polidas da Europa estudou com particular atençaõ a materna a qual escreve com pureza, falla com elegancia sendo taõ escrupuloso cultor das suas palavras, que nunca para se explicar admitio o menor termo dos idiomas estrangeiros. De todas as artes liberaes unicamente frequentou como mais propria de Cavalhero o manejo dos Cavallos em cujo exercicio foy taõ desembaraçado, como ayroso. Ao continuo estudo de seis horas cada dia observado pelo largo espaço de vinte e cinco annos deveo o vastissimo conhecimento da Filologia deleitando-se o seu genio em a liçaõ dos Poetas, e Historiadores do Seculo de Augusto, e de outros Escritores, que felizmente uniraõ a elegancia da fraze com a verdade da narraçaõ. As suas litterarias produçoens sempre foraõ respeitadas por incomparaveis, assim pela novidade da idea, como pela subtileza do discurso, e pureza do estilo. Nas Cartas Familiares naõ sómente imitou, mas excedeo na fineza dos pensamentos a Seneca escrevendo a Lucillo, e a Plinio a Trajano. Toda a facundia de Cicero, energia de Pericles, e eloquencia de Demosthenes se admiraõ mais vigorosamente animadas nos Discursos, e Oraçoens, que recitou fóra, e dentro da Academia Real da Historia Portugueza onde foy Academico, e Censor, naõ havendo assumpto Festivo, ou Funebre, Moral, ou Politico, Civil, ou Militar, que naõ fosse profundamente descrito pela sua penna sempre fecunda de conceitos finos, razoens concludentes, e agudas sentenças. Correspondeo à profundidade do juizo a magnificencia do coraçaõ igualmente pio, que generoso sendo eternos padroens desta heroica profuçaõ, desaseis mil cruzados, que dispendeo quando por ordem delRey D. Pedro II. alistou Soldados no Termo de Torres Vedras, e Alanquer, desasete mil cruzados sendo Provedor da Meza da Misericordia, tres mil cruzados para remedio dos prezos, e outras fomes de grande importancia no religioso culto de Deos, e de sua Mãy Santissima. Com animo imperturbavel vio arder o seu magnifico Palacio a 25. de Novembro de 1726. recebendo neste fatal succeso particulares honras de Sua Magestade, e do Senhor Infante D. Francisco offerecendo-lhe ElRey com incomparavel grandeza o Palacio da Casa de Bragança, e o Senhor Infante o da Bem-Posta para sua habitaçaõ. Teve sempre a nobre paxaõ de tratar os homens mais insignes em qualquer arte dos quaes publica o merecimento para o premio, defende o credito contra a censura. Venerador observantissimo dos costumes patrios aborrece os estranhos como opostos à veneravel antiguidade. Sendo dotado de genio brando, e suave he rigidamente severo nas materias pertencentes à Religiaõ, e ao pundonor. Ainda que naturalmente benevolo, nunca lizongeou aos que estaõ collocados na mayor esfera da fortuna practicando ser Cortes para o povo, Civil para a Nobreza, reverente, e izento para os Principes. Cazou com D. Francisca Rosa de Menezes filha do primeiro Marquez de Alegrete Manoel Telles da Sylva, e da Marqueza D. Luiza Amaro Coutinho de cujo consorcio teve a D. Jozè Miguel Joaõ de Portugal nono Conde do Vimioso perfeita copia de taõ grande original: D. Miguel Lucio de Portugal, Conego da Santa Basilica Patriarchal, que laureado Mestre em Artes pela Universidade de Evora promete na verdura da idade sazonados frutos em as sciencias mayores, e D. Thereza Maria Jozefa ornada de tantas virtudes, que excedem o numero dos seus annos. Das muitas, e diversas Obras, que tem composto o seu fecundo talento se fizeraõ publicas por beneficio da Impressaõ as seguintes

Practica com que congratulou a Academia quando foy admitido por Academico. Lisboa por Pascoal da Sylva 1723. fol. Sahio no 3. Tomo da Collec. dos Document. da Academia Real.

Oraçaõ com que congratulou a Academia Real da Historia Portugueza pelo feliz nacimento do Senhor Infante D. Alexandre recitada no Paço a 27. De Setembro de 1723. No Tom. 3. da Collec. dos Documentos da Academia. fol.

Oraçaõ Panegyrica no felicissimo Cazamento do Serenissimo Senhor D. Jozè Principe do Brasil, e da Serenissima Senhora D. Mariana Victoria Infanta de Castella recitada na prezença de Suas Magestades, e Altezas em 13. de Janeiro de 1728. Lisboa por Jozè Antonio da Sylva 1728. fol. No Tom. 3. da Collec. dos Documentos da Academia Real. & ibi pelo dito Impressor 1728. 4.

Oraçaõ recitada na Academia Real da Historia Portugueza na ocaziaõ da morte do Serenissimo Senhor Infante D. Alexandre. Lisboa por Jozè Antonio da Sylva. 1728. fol. No Tom. 8. da Collec. dos Docum. da Academia.

Elogio do P. Jeronymo de Castilho da Companhia de JESUS recitado na Academia a 25. de Mayo de 1730. Lisboa por Jozè Antonio da Sylva 1730. fol. No Tom. 10. da Collec. dos Documentos da Academia.

Discurso como deve ser hum Historiador recitado na Academia a 4. De Janeiro de 1731. Lisboa pelo dito Impressor 1731. fol. No Tom. 11. da Collec. dos Docum. da Academia.

Discurso em que se prova quem logra a sabedoria possue todas as virtudes recitado na Academia em 21. de Junho de 1731. Lisboa pelo dito Impressor. fol. No Tom. 11. da Collec.

Elogio do P. Pedro de Almeida da Companhia de JESUS recitado na Academia a 3. de Janeiro de 1732. Lisboa pelo dito Impressor. fol. No Tom. 11. Da Collec. dos Documentos da Academia Real.

Discurso recitado na Academia Real em 13. de Março de 1732. em que persuade a uniaõ entre os Sabios. Lisboa pelo dito Impressor. fol. No Tom. 11. Da Colleçaõ.

Discurso recitado no Paço em 7. de Setembro de 1732. em que prova que a virtude louvada naõ crece antes se diminue. Lisboa pelo dito Impressor fol. No Tom. 11. da Colleçaõ.

Discurso em que defende que este titulo de Heroe se pode dar a hum Varaõ insigne nas letras, e santidade como nas armas oppondo-se a quem afirmava, que só competia aos professores das armas recitado na Academia Real a 23. de Abril de 1733. Lisboa pelo dito Impressor. 1733. fol. No Tom. 12. da Collec. dos Documentos da Academia Real.

Elogio do P. D. Manoel Caetano de Souza. Lisboa por Jozè Antonio da Sylva 1734. fol. No Tom. 13. dos Documentos da Academia Real.

Oraçaõ recitada no Paço em 7. de Setembro de 1735. dia em que se celebravaõ os annos da Rainha N. Senhora. Lisboa pelo dito Impressor. 1735. 4.

Oraçaõ recitada no Paço a 25 . de Outubro de 1735. celebrando-se os annos delRey N. Senhor. Lisboa pelo mesmo Impressor. 1735. 4.

Elogio Funebre do Excellentissimo Senhor Manoel Telles da Sylva Marquez de Alegrete Secretario da Academia Real. Lisboa pelo mesmo Impressor 1736. 4.

Elogio Funebre do Serenissimo Senhor Infante D. Carlos recitado no Paço em 30. de Abril de 1736. Lisboa pelo dito Impressor 1736. 4.

Elogio Funebre de Diogo de Mendoça Corte-Real Secretario de Estado recitado no Paço em 17. de Mayo de 1736. Lisboa pelo dito Impressor 1736. 4.

Oraçaõ recitada no Paço na ocaziaõ da morte da Serenissima Senhora Infanta D. Francisca. Lisboa por Antonio Isidoro da Fonseca 1736. 4.

Oraçaõ recitada no Paço a 7. de Setembro de 1736. em os annos da Rainha N. Senhora. Lisboa pelo mesmo Impressor. 1736. 4.

Oraçaõ recitada no Paço a 29. de Outubro de 1736. celebrando-se os annos delRey N. Senhor. Lisboa pelo dito Impressor. 1736. 4.

Oraçaõ Panegyrica recitada no Paço a 6. de Junho de 1737. nos felicissimos annos do Serenissimo Senhor D. Jozè Principe do Brasil. Lisboa por Miguel Rodrigues Impressor do Senhor Patriarcha. 1737. 4.

Voto recitado na Academia pelo qual se mostra se devem admitir a ella os Estrangeiros. Lisboa pelo dito Impressor 1738. 4.

Oraçaõ recitada no Paço pela qual se mostra, que nem os Reys devem filosofar, nem as Filosofos reynar. Lisboa pelo dito Impressor 1738. 4.

Elogio Funebre de Belchior do Rego de Andrade. ibi pelo mesmo Impressor 1738. 4.

Elogio Funebre do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Tarouca Joaõ Gomes da Sylva. ibi pelo mesmo Impressor 1739. 4.

Segundo Elogio Funebre do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Tarouca Joaõ Gomes da Sylva. ibi pelo mesmo Impressor, e anno. 4.

Discurso Apologetico em defensa do Theatro Hespanhol. ibi pelo mesmo Impressor 1739. 4.

Reflexoens à Sacratissima Paixaõ de JESUS Christo Nosso Senhor. Lisboa pelo dito Impressor 1730. 12.

Emmanueli Tellesio Sylvio Marchioni Alegretensi S. P. D. Sahio esta Carta Latina ao principio dos Epigrammas do mesmo Marquez de Alegrete. Ulyssipone apud Paschalem da Sylva Typ. Reg. 1722. 8. & Hagae Comitum apud Hadrianum Moetiens. 1723. 4.

Carta escrita ao Duque Estribeiro mòr em que o applaude pelas Acçoens ultimas, que escreveo de seu Pay o Duque do Cadaval D. Nuno Alvres Pereira de Mello. Sahio ao principio desta Obra. Lisboa na Officina da Musica. 1730. fol.

Panegyrico de Plinio ao Emperador Trajano traduzido na lingua Portugueza. fol. M. S.

Instrucçaõ que deu a seu filho o Excellentissimo Conde do Vimioso quando foy à Campanha do Alentejo no anno de 1735. 4. M. S.

Cartas a diversos assumptos de que se pòdem formar hum volume de justa grandeza. M. S. 4.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

D. Francisco de Portugal

D. FRANCISCO DE PORTUGAL Sahio à luz do mundo em a grande Cidade de Lisboa para cõmunicar novo esplendor aos seus descendentes se o naõ herdara taõ esclarecido dos seus Mayores, sendo filho de D. Lucas de Portugal Cõmendador da Fronteira na Ordem de Aviz, Senhor do Prazo da Marinha, e D. Antonia da Sylva filha de D. Antaõ de Almada Capitaõ mòr de Lisboa, e Neto de D. Francisco de Portugal Estribeiro mòr delRey D. Sebastiaõ, Vedor da sua Fazenda, do seu Conselho de Estado. Nos primeiros annos se aplicou ás Artes dignas do seu nacimento como eraõ jogar as armas, manejar os Cavallos, tocar varios instrumentos regulados pelos preceitos da Musica, e cultivar as flores da Poesia para a qual o dotou taõ prodigamente a natureza, que excedeo aos mayores Corifeos do Parnaso Castelhano assim na afluencia das vozes, como na subtileza dos conceitos, retratando taõ fielmente nos versos o seu espirito, que aquelles que se publicavaõ sem o seu nome eraõ logo conhecidos por partos da sua Musa. Passando a Madrid frequentou o Palacio de Filippe III. onde foy applaudido, e estimado pelo mais discreto Cortezaõ daquella idade causando respeito aos inferiores, enveja aos iguais, e admiraçaõ aos mayores. Entre todos se distinguia na pompa, e boa eleiçaõ dos vestidos, que trajava, posto que a fazenda que possuia naõ era correspondente à sua qualidade. Ninguem podia competir com elle assim na urbanidade do trato, como na promptidaõ das repostass e agudeza de ditos, que sendo muitos jocosos nunca degeneraraõ em pueris. Naõ foy menos illustre na Corte, que na Campanha, como o manifestaõ as varias occasioens em que embarcando nas Armadas do Reyno tres vezes ocupou o lugar de Capitaõ; a primeira na Armada de que era General D. Affonso de Noronha, e as duas exercitando este posto D. Antonio de Attaide. Naõ satisfeito o seu heroico coraçaõ com estas expediçoens militares se embarcou na Armada da Restauraçaõ da Bahia no anno de 1624. movido da gloria, e zelo da Patria onde valendo-se os Olandezes do nosso descuido fizeraõ huma sahida à qual se oppoz taõ intrepidamente, que rompendo ao inimigo por entre hum diluvio de balas o obrigou a que largasse ignominiosamente o campo semeado de cadaveres, e instrumentos militares de cujos despojos offerecendo-lhe huns mosquetes primorosamente fabricados os naõ aceitou dizendo, que naõ eraõ dignas de hum Capitaõ as Armas, que deixara a cobardia, e naõ o valor. Voltando da Bahia para Portugal se embarcou na Almirante a qual pela furia das tempestades destituida de mastros, e quasi aberta chegou à Ilha do Fayal, e resolvendo o Almirante representar ao Governador o imminente perigo em que se achava foy eleito para esta cõmissaõ D. Francisco o qual advertindo que o Ceo condensado prometia a ultima derrota à Nào para que hia pedir socorro, e nella acabariaõ lastimosamente os seus companheiros, e elle salvar-se, recusou com animo heroico o apartar-se da sua amavel companhia em cujo obsequio queria sacrificar a vida. Foy mandado à India por tres vezes com o posto de Capitaõ mòr, e em todas se escusou deste lugar igualmente honorifico que rendoso por motivos dignos da sua Pessoa. Desenganado de receber premio capaz dos seus merecimentos, deixou o serviço do Principe da terra para totalmente se dedicar ao culto do Supremo Monarcha, que remunera com eternas felicidades, e posto que desde a primeira idade cultivasse as virtudes, em a ultima as exercitou mais religiosamente. Era extremosamente charitativo para os pobres, severamente cruel para o seu corpo, e summamente urbano para todo o genero de pessoas. Poucos dias antes da sua morte estando em o Convento de S. Francisco da Cidade cujo penitente habito da Terceira Ordem professara, e como Ministro della estava exercitando com summa humildade este lugar, foy acõmetido de hum grande desmayo causado da debilidade a que o reduziaõ as penitencias, e sendo promptamente socorrido pelos circunstantes a o dezapertarlhe os vestidos o viraõ cingido com hum aspero cilicio que costumava trazer havia muitos annos. Com taõ religiosas virtudes se preparou o seu espirito para a eternidade o qual depois de recebidos os Sacramentos com grande piedade passou a gozar da patria celeste a 5. de Julho de 1632. com 47. annos de idade. Foy depositado o seu Cadaver (como tinha disposto no Testamento) na Capella dos Terceiros de S. Francisco de Lisboa donde passados alguns annos se tresladou para o Convento de Santo Antonio da Villa da Fronteira da Provincia da Piedade de que era Padroeiro. Teve a estatura mediana, e bem porporcionada, cabello negro, barba povoada, rosto alvo, e gentil, olhos vivos, e taõ ayroso a pè como a cavallo. Cazou com D. Cecilia de Portugal filha de Antonio Pereira de Barredos, Comendador de S. Joaõ da Castanheira, e de S. Gens de Arganil na Ordem de Christo, Governador, e Capitaõ General da Ilha da Madeira, e da Praça de Tangere, e General perpetuo da Armada de Portugal, e de D. Mariana de Portugal. Deste matrimonio teve numerosa descendencia como foy D. Lucas de Portugal digno filho de taõ grande Pay, Comendador da Fronteira, e Mestre Sala do Palacio de quem em seu lugar faremos mençaõ: D. Antonio de Portugal Religioso da Ordem dos Prègadores: D. Diogo de Portugal, que morreo no infeliz naufragio de Tristaõ de Mendoça: D. Lourenço de Portugal Cavalleiro da Ordem de Malta: D. Carlos de Portugal Religioso da Ordem Militar de JESUS Christo: D. Maria de Portugal, que se desposou com D. Paulo da Gama, Primo com Irmaõ de seu Pay, e D. Mariana, e D. Magdalena que naõ cazaraõ. A sua vida escreveo na lingua materna Francisco Luiz de Vasconcellos reduzida a hum breve, e elegante epitome em que representou sómente a figura de taõ grande Heroe, e sahio impressa por ordem de D. Lucas de Portugal com as obras posthumas de seu Pay eternizando por este modo a sua memoria mais perduravel pelo privilegio da escritura, do que se a gravasse na dureza dos marmores, e dos bronzes, e sahiraõ com este titulo

Divinos, e humanos Versos. Consta de Sonetos, Cançoens, Motes, Redondilhas, Sextinas, Outavas, e Romances em Portuguez, e Castelhano. No fim tem outra obra intitulada

Prizoens, e solturas de huma Alma. Consta de Prosa, e Verso. Huma, e outra sahiraõ em hum Tomo. Lisboa na Officina Craesbeeckiana. 1652. 4.

Arte de galantaria. Lisboa por Joaõ da Costa 1670. 4. & ibi por Antonio Crasbeeck. de Mello. 1683. 8. Consta de Verso, e Proza Castelhana, e Portugueza.

Na Bibliotheca do Cardeal de Souza, que hoje possue o Illustrissimo, e Excellentissimo Duque de Lafoens se conservaõ muitas obras Poeticas de D. Francisco de Portugal ornadas de termos galantes, e pensamentos discretos sendo entre ellas a mais estimavel

Discurso a Ave chamada Solitario.

Começa

Cidadaõ de ty mesmo, que suave

Nas lizonjas dessa gloria te aplicas

Acaba

Entre alegres louvores te derrama

E acclamaçoens de Celia tudo chama.

Naõ he inferior a esta obra a Fabula burlesca de Iphis, e Anaxarte, que principia

Senhora Celia pois que meus gemidos

Naõ ferem vosso peito

Nem minha dor vos passa dos ouvidos.

Varios foraõ os Elogios com que diversos Escritores applaudiraõ o seu talento sendo entre elles o mais celebre D. Francisco Manoel de Mello na Carta dos Authores Portuguezes escrita ao Doutor Themudo. Juntou á discriçaõ as boas partes, e fez raramente caber juntas as gentilezas de Cortezaõ com as consideraçoens de devoto, e mais largamente no Tomo das suas Cartas Familiares Centur. 2. cart. 91. escrita a seu filho D. Lucas de Portugal. A locuçaõ sobre ser bem fielmente Castelhana he florida, e mysteriosa. Ajunta com raridade a decencia com que goza da graça, e da doutrina, e de tal maneira que se naõ desvia daquelles dous fins para que a Poesia foy inventada. Assi persuade, assi deleita, assi ensina. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 1. pag. 252. Col. 1. disertus Poeta. Macedo Eva, e Ave Part. 1. cap. 13. n. 13. Illustre Cortezaõ. Joan. Soar. de Brit. Theatr. Lusit. Litter. lit. F. n. 63. Urbanitate aulica celebratissimus. D. Antonio Caetano de Souza Hist. Gen. da Cas. Real Portug. Tom. 10. liv. 10. cap. 4. pag. 610. Foy muy entendido grande Cortezaõ, e Poeta. Jacinto Cordeiro Elog. dos Poet. Lusit. Estanc. 10.  Discreto a D. Francisco sigo, en tanto

Portugal sin igual, cuyo sentido

Para la elevacion moviendo espanto

El ingenio mas alto y presumido.

Imitar presumi tu heroico canto

Que impossible me fue? Quedo vencido;

Icaro quise ser de tal sugeto

Que nò puede imitarse en lo discreto.

O P. Antonio dos Reys Enthus. Poet. n. 54.

Nec Francisce tui resonantis carmina plectri

Tinnula praeteream surdus: Te sacra prophanis

Sed procul á culpa mis centem exornat Apollo

Fronde sibi propria.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]