GONÇALO ANNES BANDARRA natural da Villa de Trancoso em a Provincia da Beyra do Bispado de Viseu onde exercitando o Officio de Sapateiro se fez plauzivel no conceito do Povo pelas Trovas, que em Redondilhas, ou de pé quebrado compunha a sua rustica Musa com termos taõ emfaticos, que eraõ respeitadas como profecias, e como naõ soubesse ler nem escrever se valia de maõ alhea para as divulgar. O aplauzo, que lhe conciliaraõ estes vaticinios, o fez crer, e afirmar, que o seu entendimento superiormente se illustrava com o dom de profecia por cuja causa, e naõ por culpa de Iudaismo, como alguns erradamente se persuadiraõ, sendo prezo pelo Santo Officio sahio no Auto publico da Fé celebrado em Lisboa na Praça da Ribeira a 23 de Outubro de 1541. sendo Inquizidor Geral o Serenissimo Cardial Infante D. Henrique. Passado quasi hum seculo renaceo a sua memoria no faustissimo anno de 1640. acreditada com os vaticinios, que fizera da gloriosa Aclamaçaõ delRey D. Ioaõ IV. pelos quais mereceo os Elogios de Nicolao Monteiro. Vox Turtur. Art. 3. cap. 5. Ant. de Souza de Macedo Lust. Liberat. p. 735. Vasconcellos Restaur. de Portug. Part. 1. cap. 22. mostrando com o exemplo das Sybillas Balaõ, e Cayfas poder unirse o dom da profecia com vida menos justificada. Falleceo na sua patria depois do anno de 1556. e naõ em 1550. Como escrevem os referidos Macedo, e Vasconcellos pois dedicando elle as suas Trovas ao Illustrissimo Bispo da Guarda D. Ioaõ de Portugal com estas palavras.

Illustrissimo Senhor

De Virtudes muy perfeito.

Vos divieis ser eleito

De todas as Leys dador.

Deos vos deu tanto primor

Que se naõ acha em vossa marca

Mays subido Patriarca

De nobre gente Pastor.

E sendo este Prelado confirmado na dignidade Episcopal a 23 de Março de 1556. pela Santidade de Paulo IV. claramete se colhe, que naõ morreo em 1550. mas depois de 1556. Iaz sepultado no Alpendre da Parochial Igreja de S. Pedro da Villa de Trancoso sua Patria onde D. Alvaro de Abranches Governador das Armas da Provincia da Beyra lhe mandou levantar huma sepultura honorifica com o seguinte Epitafio.

Aqui jaz Gonçalo Anes Bandarra, que em seu tempo profetizou a Restauraçaõ deste Reyno, e D. Alvaro de Abranches lha mandou fazer sendo General da Beyra anno de mil seiscentos, e quarenta e hum.

No tempo, que era Embaxador extraordinario desta Coroa na Corte de Pariz o Excellentissimo Marquez de Niza D. Vasco Luiz da Gama mandou imprimir.

Trovas do Bandarra apuradas, e impressas por hum grande Senhor de Portugal offerecidas aos verdadeiros Portuguezes devotos do Encuberto. Nantes por Guilherme de Monier. 1644. 8. Acabaõ com os seguintes Versos.

De tudo o que se aqui diz

Nota bem as profecias,

E pondera de raiz

Daniel, e Jeremias;

E acharás que nesses dias

Viraõ grandes novidades

Novas leys, variadades

Mil contendas, e profias.

Foraõ prohibidas no Cathalogo dos livros prohibidos por mandado do Inquizidor Geral D. Jorge de Almeyda Arcebispo de Lisboa no anno de 1581. a pag. 23. e ultimamente por hum Edital da Inquisiçaõ de Lisboa em 3. de Novembro de 1665. D. Ioaõ de Castro filho natural de D. Alvaro de Castro Senhor de Penedono, e neto do inclyto Heroe D. Joaõ de Castro IV. Vicerey da India por correrem muito viciadas, e insertas varias cousas, que naõ eraõ do author, as reduzio a hum volume, e illustrou com diversas reflexoens para milhor intelligencia de alguns   lugares obscuros, e o publicou com este titulo.

Paraphrase, e concordancia de algumas Prophecias de Bandarra Sapateiro de Trancoso. 1603. 8. Naõ tem lugar da Impressaõ, mas do caracter da letra se conhece ser em Pariz. O Juizo que destas Trovas faz Ioaõ Soares de Brito Theatr. Lusit. Liter. lit. G. n. 15. foy o seguinte Ego versus hominis istius vidi rudes, seu rusticos potius, et tantum abest, ut in eis fatidicum aliquid inesse existimem, ut risu, cachinnisque prorsùs excepiendos arbitrer, nec ad vulgus etiam stolidum decipiendum idoneos, quippe quos praedictus sutor Bandarra ad subulae, laborisque ceramentum, prout in buccam viniebant, cantitabat. Delle fazem mençaõ com diferente censura D. Iuan. de Horosco Tratad. de la Verdad. y fals. Profec. cap. 24. e o eruditissimo Fr. Bento Ieronimo Feijoo Theatr. Crit. Univ. Tom. 2. disc. 4. §. 5. n. 34.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]