D. GASPAR DE LEAM Naceo na Cidade de Lagos em o Reyno do Algarve, e naõ em Evora como escreve o Padre Francisco da Fonceca Evor. Glor. p. 320. §. 574. Nos primeiros annos mostrou igual indole para a especulaçaõ das sciencias, como para o exercicio das virtudes sendo taõ eminente em humas como outras de que resultou, que ordenado de Presbitero obtivesse hum Canonicato na Cathedral de Evora de que tomou posse a 12 de Junho de 1551. donde foy provido pelo Cardial Infante D. Henrique Arcebispo da dita Cathedral em Arcediago do Bago, que vagara por morte de Joaõ de Sande Esmoler, e Fidalgo da Caza do mesmo Infante D. Henrique, de cuja dignidade tomou posse a 27. de Julho de 1557. e o elegeu seu Esmoler mór a quem acompanhava em todas as vizitas da sua Diocese. Erecta em Primacial do Oriente a Cathedral de Goa pela Santidade de Paulo IV. no anno de 1557. foy eleito em 1559. seu primeiro Arcebispo por ElRey D. Sebastiaõ, e repugnando humildemente a aceitar lugar taõ honorifico como superior ao seu talento, escreveo o mesmo Principe ao seu Embaxador na Curia Lourenço Pires de Tavora para que o Pontifice o obrigasse a aceitar o Arcebispado pois era certamente digno de o reger. Em attençaõ à suplica delRey expedio o Pontifice hum Breve em o qual lhe mandava, que sem demora fosse administrar aquelle rebanho, que a divina Providencia destinara para a sua vigilancia. Obedeceo promptamente ao preceito Pontificio, e Sagrado em Lisboa partio a 15. de Abril de 1560. e chegando prosperamente a Goa começou a exercitar o Officio pastoral com summo disvelo sendo o seu total empenho a reforma dos custumes, e a extinçaõ dos abuzos, que se tinhaõ insensivelmente introduzido. O mais claro testemunho do seu Apostolico zelo foy persuadir ao insigne Heroe D. Constantino de Bragança, que com immortal credito do seu nome moderava as redeas do Imperio Asiatico, mandasse reduzir a cinzas hum abominavel dente, que se colhera entre os despojos da Conquista de Iafanapataõ, o qual era adorado com profundas veneraçoens por todos os Principes Orientaes; e para que se extinguisse a memoria de taõ execranda reliquia, com as proprias mãos o pizou em hum almofariz na presença do Vicerey, e grande parte da Nobreza, e Gentilidade, e reduzido a pò o lançou sobre o fogo cujas cinzas foraõ sepultadas em o mar. Admirados os Gentios deste espectaculo conheceraõ, que no peito dos Portuguezes prevalecia o odio da idolatria ao amor do dinheiro, que prodigamente pelo resgate do dente se offerecera. Naõ foraõ menores argumentos da sua ardente piedade regenerar com as aguas do Bautismo em Goa no anno de 1562. a trezentos, e vinte nove Cathecumenos, e no de 1564. destinar com huma seta na aldea de Margaõ Cabeça da Ilha de Salcete, o sitio, que ocupava hum Pagode para sobre as suas cinzas se erigir hum Templo à verdadeira Divindade. No principio do anno de 1567. celebrou Synodo, que foy o primeiro, que se fez no Oriente onde assistiraõ D. Fr. Jorge Themudo Bispo de Cochim, Manoel Coutinho Administrador de Mozambique, e Rios de Cuama, Francisco Viegas Procurador do Bispo de Malaca, os Provinciaes das Religioens de S. Domingos, S. Francisco, e Companhia de Jesus com outros Theologos, e Canonistas. Aspirando à tranquillidade da vida religiosa renunciou a dignidade Episcopal, que administrara pelo espaço de sete annos, e para que o seu espirito lograsse da paz, que ardentemente dezejava, e da pobreza a que naturalmente era inclinado, edificou hum Convento à Ordem Serafica situado no passo de Daugim distante de Goa menos de huma legoa, que depois foy a cabeça da Provincia da Madre de Deos onde começando a ser habitado a 31. de Novembro de 1569. assistia continuamente com os religiosos faltando-lhe somente a solemnidade dos votos para se numerar entre os professores de taõ austero instituto. Por morte de seu sucessor D. Fr. Jorge Themudo foy constrangido pela Santidade de Gregorio XIII. para que segunda vez tomasse sobre os hombros o insoportavel pezo da dignidade Pastoral a cuja ordem obedeceo aplicando-se com mayor disvelo ao pasto das suas ovelhas, e considerando atentamente, que se naõ tinha concluido o Concilio, que elle principiara, e continuara seu sucessor, o promulgou novamente a 12. de Julho de 1575. para o qual convocou a Mar Abrahaõ Arcebispo de Angamale no Malabar, e posto, que naõ veyo, assistiraõ D. Henrique de Tavora Bispo de Cochim, Fr. Gaspar de Mello Vigario Geral dos Dominicos como Procurador de D. Fr. Jorge de Santa Luzia Bispo de Malaca, Bartholameu da Fonceca, Inquisidor Apostolico, Andre Fernandes Chantre, e Procurador Geral do Cabido da Cathedral de Goa, e seu Vigario Geral; o Doutor Gonçalo Lourenço Chanceller da India, e Embaxador por parte do Governador do Estado, e os Prelados, e Mestres das Religioens. Neste Concilio Provincial se estabeleceraõ varias leys, e estatutos conducentes para a reforma, e conservaçaõ do Estado Ecclesiastico. Cumulado de obras meritorias, e atenuado de diversos achaques passou da vida caduca para a eterna a 15 de Agosto de 1576. Foy sepultado no Presbiterio da parte do Evangelho da Capella mór da Igreja da Madre de Deos, que edificara, a cujas exequias solemnes asistiraõ o Arcebispo seu sucessor com o Vicerey, e toda a Nobreza, que o veneravaõ como Santo, e sobre a sepultura se gravou o seguinte Epitafio.

Aqui jaz Dom Gaspar o primeiro Arcebispo de Goa, e o primeiro dos pecadores, rogay a Deos por elle. Falleceo nesta Caza da Madre de Deos aos 15 de Agosto de 1576. annos.

Aberta a sepultura no anno de 1665. em que se cumpriaõ 87. do seu transito se achou desfeito o Cadaver, até que em 15. de Agosto de 1725. sendo Ministro Provincial Fr. Simaõ de Jesu Maria assistindo o Illustrissimo e Excellentissimo Arcebispo de Goa D. Ignacio de S. Thereza hoje dignissimo Bispo do Algarve, que era juntamente Governador do Estado com todo o seu Cabido, foraõ tresladados os ossos do Ven. Arcebispo para hum mausoleo ornado de excellentes marmores em o Presbiterio da parte do Evangelho. Deste illustre Prelado fazem larga memoria Fr. Jacinto de Deos Verg. de Plant. e Flor. cap. 1. Art. 2. pag. 27. e seguintes. Fonceca Evor. Glor. pag. 320. §. 574. Faria Asia Portug. Tom. 2. Part. 2. cap. 15. n. 11 . e cap. 16. n. 4. Couto Decad. 8. liv. 1. cap. 29. Souza Orient. Conq. Conq. 1. Disc. 1. Fr. Andre de Christo Hist. da Ord. de Saõ Tiago liv. 2. cap. 41. Jorge Cardoso A giolog. Lusit. Tom. 2. pag. 107. letr. F. Honra do Sacerdocio, e singular exemplo de Prelados, e nas Advert. do 1. Tom. pag. 34. Prelado dignissimo do Cargo por suas letras, e virtude. Alegambe Mort. Illustr. p. 151. virum doctrina, & virtute clarum. Fr. Agost. de S. Mar. Sanct. Mar. Tom. 8. Tit. 37. Mem. Polit. e Milit. delRey D. Sebast. Part. 1. liv. 2. cap. 2. §. 15. Souza Agiol. Lusit. Tom. 4. p. 539. e no Coment. de 15. de Agosto letr. B. Publicou.

Tratado espiritual para o Sacerdote quando diz Missa e pera os Ouvintes, que a ouvem com hum suave exercicio do nome de Jesu, e outro da Oraçaõ, e Meditaçaõ para os que tem pouco tempo. Lisboa por Ioaõ Blavio Coloniense 1558. 12. Sahio sem o seu nome.

Compendio espiritual da vida Christãa tirada pelo primeiro Arcebispo de Goa, e por elle pregado no primeiro anno a seus freguezes. Dividido em dous estados do pecado, e da graça, e em 4. partes. 1. da doutrina Christãa. 2. Dos pecados. 3. dos remedios contra elles. 4. da Oraçaõ, e perfeiçaõ espiritual com devotos exercicios. Goa por Ioaõ Quinquenio de Campania. 1561. 12. Coimbra por Manoel de Araujo. 1600. 8.

Carta do primeiro Arcebispo de Goa ao Povo de Israel seguidor ainda da ley de Moyses, e do Talmud por engano, e malicia dos seus Rabbis. Em que treslada em Portuguez hum Tratado, que fez Mestre Jeronimo de Santa Fé Medico do Papa Benedicto XIII. em que prova o Messias da Ley ser vindo. Goa por Ioaõ de Endem aos 29. dias do mez de Setembro de 1565. annos. 4.

Constituiçoens do Arcebispado de Goa aprovadas pelo primeiro Concilio Provincial. Goa por Ioaõ de Endem. 1568. fol.

Desengano de perdidos em dialogo entre dous peregrinos, hum Christaõ, e hum Turco, que se encontraõ entre Suez, e o Cayro dividido em tres partes. 1. trata do desengano dos Mouros denunciandolhe sua total destruiçaõ conforme a exposiçaõ de huma Profecia de S. Joaõ no Apocalypse cap. 18. 2. do desengano dos homens perdidos, e sensuaes conforme a declaraçaõ moral da Fabula das Sereas. 3. de toda a vida espiritual pela qual se alcança a perfeiçaõ. Goa por Ioaõ de Endem 1573. Sendo examinado pelo Padre Francisco Rodrigues Provincial da Companhia, e approvado pelo Doutor Bartholameu da Fonceca Inquizidor nas partes da India. Taxado em 4. Tangas de boa moeda em papel. Esta obra compoz o virtuozo Arcebispo retirado ao Convento que edificara havendo renunciado o Arcebispado em D. Fr. Jorge Themudo.

Dialogo espiritual, Colloquio de hum Religioso com humm peregrino onde lhe ensina como, e onde se hade achar a Deos. Lisboa por Joaõ Fernandes 1578. 8. E Evora por Andre de Burgos 1579. 8.

Carta escrita de Goa a 20. de Novembro de 1561. em que relata a ElRey D. Sebastiaõ os progressos da Christandade da India. O original está na Torre do Tombo Gavet. 7. Masso. 9. sahio impressa nas minhas Mem. Polit. e Milit. delRey D. Sebast. Part. 1. lib. 2. cap. 2. §. 15.

Para que conste infallivelmente ser a Cidade de Lagos como escreveo Ioaõ Franco Barreto na Bib. Portug. M. S. e naõ a de Evora, patria deste insigne Prelado cuja opiniaõ seguiraõ Iorge Cardoso, e o Padre Francisco da Fonceca na Evor. Gloriosa daremos hum testemunho authentico da propria maõ do Arcebispo o qual descubrimos em beneficio da curiosidade antes, que fosse comunicado ao Padre D. Antonio Caetano de Souza que o publicou no 4. Tom. do Agiol. Lusit. pag. 571. Consta de huma Carta sua escrita em Belem a 7. de Abril de 1560. nove dias antes de partir para a India, ao Provedor, e Irmãos da Santa Caza da Misericordia de Lagos a qual começa. Por satisfazer em alguma maneira com a obrigaçaõ devida aos Pays, e à patria pareceo serviço de Nosso Senhor deixar as cazas, que nessa Villa tenho, que fizeraõ meus Pays à sua geraçaõ. Estas cazas foraõ doadas ao Licenciado Alvaro Martins, e sua mulher Constança Lourenço sobrinha do Arcebispo D. Gaspar  de Leaõ com o foro de tres mil reis à Caza da Misericordia de Lagos, dos quais mandaria dizer o Provedor, e mais Irmãos sinco Missas rezadas cada anno no tempo da Quaresma. A primeira pelo Estado da Igreja Universal 2. por todos os pecadores. 3. pelas almas do Purgatorio. 4. Pelas almas de seus Pays. 5. por si, e seus Irmãos. Foraõ testemunhas desta doaçaõ Fernaõ Alvares irmaõ do Doutor D. Gaspar de Leaõ, e seu cunhado Lourenço Fernandes.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]