GABRIEL PEREIRA DE CASTRO Naceo na augusta Cidade de Braga a 7 de Fevereiro de 1571. e na Parochia de S. Ioaõ de Souto recebeo a graça bautismal a 10. do dito mez. Teve por Pays ao Doutor Francisco de Caldas Pereira bem conhecido em a Republica Literaria por suas doutissimas obras com que illustrou a Jurisprudencia Cesarea; e a Anna da Rocha de Araujo filha do Doutor Antonio Francisco de Alcaçova Procurador da Coroa, e Alcayde Mòr de Eruededo de quem se fez memoria em seu lugar, e de sua mulher Catherina da Rocha. Ainda naõ sabia pronunciar as primeiras palavras com que balbucientemente se explica a infancia, e jà se afeiçoava aos livros revolvendolhe as folhas sem conhecer as letras. Desta taõ anticipada inclinaçaõ inferindo seu Pay o talento com que o ornara a natureza para as sciencias o mandou estudar na patria a lingua Latina, e letras humanas, e taõ velosmente sahio nellas consumado que parecia ensinar mais do que aprender o que estudava. Passou à Universidade de Coimbra onde aplicado ao Direito Pontificio penetrou com tal perspicacia as suas mayores dificuldades que foy laureado com as insignias doutoraes em taõ sagrada Faculdade. Vagando huma beca no Collegio Real de S. Paulo illustre Seminario de Varoens famosos, que em todas as idades serviraõ de credito ao Sacerdocio, e ao Imperio, se oppoz a ella, e posto que nesta ocaziaõ a naõ alcançou prevalecendo o respeito contra o merecimento, por vacatura de outra foy provido a 9. de Agosto de 1600. com aplauzo de todos os Academicos, como prevendo que esta pedra injustamente reprovada havia ser o mayor ornato daquelle nobre edificio. Depois de substituir com grande credito da sua litteratura, e naõ menor emolumento dos seus ouvintes varias Cadeiras da Universidade passou a Dezembargador da Relaçaõ do Porto em 2. de Setembro de 1606. donde foy transferido para a Caza de Suplicaçaõ a 24. De Abril de 1615. sendo Dezembargador dos Aggravos em 18. de Novembro de 1617. Corregedor do Crime da Corte a 9. de Agosto de 1623. e ultimamente como Cavalleiro professo da Ordem de Christo Procurador Geral das Ordens Militares. Em todos estes lugares sempre tinha a porta patente às pessoas que o buscavaõ com summa afabilidade, e aprazivel semblante ainda àquellas, que com importunas repetiçoens lhe propunhaõ os seus Letigios. No seu coraçaõ conservou a justiça em taõ perfeito equilibrio que sendo observantissimo das Leys castigava com violencia, absolvia com promptidaõ; perseguia aos vicios, e naõ aos homens, moderando com tal arte a severidade do officio com a brandura do genio que ninguem o culpou de aspero, nem experimentou inflexivel. Foy humano com os inferiores, modesto com os iguais altivo com os mayores, prudente nas resoluçoens, maduro nos concelhos, prompto nas respostas, e circunspecto nas acçoens. Entre o laborioso exercicio de Senador se ocupava algumas horas na cultura das Musas depondo a balança de Astrea para tocar a Lyra de Apollo em cuja divina Arte competio, e excedeo os mais sonoros Cisnes do Parnaso Portuguez. Ninguem observou mais religiosamente as leys da Poezia uzando sempre de fraze clara, e elegante, conceitos profundos, e delicados com taõ natural afluencia que lhe naõ custava mayor disvelo os seus Versos de que escrevelos. Com imperturbavel animo tolerou as desatençoens de alguns poderosos a quem dava immunidade o esplendor do nacimento dissimulando estes agravos como doutrinado na escola da prudencia. Nunca mostrou no semblante o menor sentimento da injusta preferencia que para os lugares superiores se lhe fez de outras pessoas, ainda que conhecia serem julgadas em o juizo dos homens por culpas as desgraças, e por defeitos proprios as injustiças alheas. Ao tempo que foy nomeado Chanceller mór cahio taõ gravemente infermo que logo capitularaõ os Medicos por mortal a doença para a qual foraõ inuteis os esforços da Arte. Certificado do perigo se dispoz catholicamente para a morte como quem receava pelo Officio que exercitara, a rectidaõ com que havia de ser julgado. Falleceo a 18. de Outubro de 1632. quando contava 60. annos 8. mezes, e 11. Dias de idade. Jaz sepultado no Real Convento de S. Vicente de fora. O insigne Poeta Antonio Figueira Duraõ Laur. Parnas. Ram. 3. fol. 50. lhe fez o seguinte Epitafio.

Hoc antro aeternum jacebit.

Parnassi non leve Numen

Poesis insigne lumen

Cui numquam livor nocebit.

Fama ejus nomen docebit,

Si aliquis forte ignoravit,

Pereiram patria vocavit,

Phaebus Phaebum Poetarum,

Thalia gloriam Musarum:

Sed mors omnia dissipavit.

Foy ornado de gentil presença, estatura grande, e de proporcionada symitria em todas as partes como capazes de servir de ornato à grandeza do seu espirito, e excellencia do seu talento. Sendo Dezembargador do Porto se despozou com D. Joanna de Souza que contando dezoito annos de idade alem dos dotes da natureza, e de muitas qualidades virtuosas aprendidas na escola de seus Pays Mathias de Souza, e Angela da Cunha de Mesquita era merecedora de tal consorte de quem teve dous filhos, e duas filhas sendo o primogenito Fernaõ Pereira de Castro que na florente idade de 18. annos militando na Praça de Tangere para salvar a vida em huma sahida, que fizera aos mouros, matou hum às lançadas de cuja acçaõ informado Filippe IV. por D. Fernando Mascarenhas General daquella Praça lho mandou agradecer animando o com taõ nobre estimulo para emprezas mayores. Depois da morte de Gabriel Pereira instituhio sua mulher huma Capella dedicada a S. Francisco Xavier em o Collegio de Santo Antaõ dos PP. Jesuitas desta Corte a qual dotou de muitos bens, que tinha em Lisboa, e Braga, e como morresse o primogenito sem sucessaõ passou a Capella ao Doutor Luiz Pereira de Castro irmaõ de Gabriel Pereira de Castro com hum morgado taõ honorifico que aprezenta sinco Igrejas, e hum Beneficio simples o qual tem a sua cabeça em a Capella de Nossa Senhora da Annunciada em a Cathedral de Braga. Com diversos Elogios exaltaõ o nome de Gabriel Pereira insignes Escritores, como saõ Carvalho in cap. Raynaud. Part. 1. n. 173. Aquila nostrae aetatis. Agost. Barbos. de Potest. Episcop. Part. 1. Tit. 3. cap. 8. n. 8. nostrae Lusitanicae gentis decus, et ornamentum. e Part. 3. Allegat. 106. n. 58. celeberrimus Doctor, maiorum nobilitate clarus, utriusque Juris consultissimus, & in onmium scientiarum genere apprime versatus. Fragozo de Regim. Reipub. Christian. Part. 2. lib. 4. Decis. 12. n. 16. doctissimus, ac integerrimus Senator. Portug. de Donationib. Reg. Tom. 1. lib. 1. Praelad. 2. §. 7. n. 51. Virum doctissimum. Phaeb. Decis. Tom. 1. Decis. 39. n. 2. Tom. 2. Decis. 103. n. 29. & Decis. 214. n. 12. Senator eximius, & indefessi studii vir. Mend. à Castro Pract. Lusit. lib. 1. cap. 2. n. 8. Senatorem gravissimum, & nostrae aetatis virum admirabilis judicij, & ingenij actussimum. Joan. Soar. de Brit. Theatr. Lusit. Liter. lit. G. n. 5. Poeta cum paucis, & raris numerandus, & memorandus, e na Apolog. à Camoens repost. a 8. Censur. 14. n. 1. Gloria immortal naõ sey se mais de Braga aonde naceo, se de Lisboa que cantou. Diana Resol. Moral. Part. 4. Tract. 1. inter praeclara Lusitaniae ingenia nemini secundum. Marinho Fundaçaõ de Lisboa liv. 1. cap. 19. insigne Jurisconsulto, e Poeta. Mello de Induc. Credit. Quaest. 32. n. 6. doctissimum Senatorem. Esperança Hist. Seraf. da Prov. de Portug. Tom. 1. liv. 4. cap. 9. n. 2. No mundo por letras bem conhecido de todos. Macedo Lusit. liberat. Proaem. 2. §. 2. n. 2. doctissimum, e Proaem. 1. n. 52. egregium. D. Francisco Manoel Cart. dos AA. Portug. escrita ao Doutor Themudo herdeiro do espirito dos antigos epicos. Illustrissimo Cunha in Decret. In cap. qui Episcop. dist. 23. n. 8. insignem, e no Cathalog. dos Bisp. do Porto Part. 2. cap. 15. Pessoa bem conhecida por suas letras, e qualidades. Nicol. Ant. Bib. Hispan. Tom. 1. pag. 389. col. 1. pari doctrinae, atque ingenij laude conspicuus. Barbosa Mem. do Colleg. de S. Paulo p. 110. Foy taõ grande Letrado, como o dizem os seus livros, e taõ insigne Poeta que tem lugar entre os primeiros. e no Archiath. Lusit. p. 24.

Inclitus en Gabriel Castro Pereira sequetur,

Hic propugnabit patriae regalia jura,

Et Lysiae ostendet sit quanta potentia Regum.

Caesareo si jure novum quis dixirit astrum

Noscet ab eximio magnum cognomine CASTRO.

Insuper Aonidum decus immortale Sororum

Hic erit, & cinget viridanti tempora Lauro.

Certabit CASTRO, pariter certabit Homerus,

Alter Ulysseae muros modulabitur Urbis

Errores, & facta Vagi canet alter Ulyssis

Certabunt ambo dubio certamine, litem

Dividet intonsus Musarum numen Apollo

Una Corona duas praecinget laurea frontes

Unaque palma pares faciet discumbere Pindo.

P. Antonio dos Reys Enthus. Poet. n. 42.

…………….Frontis

Deposita gravitate sedet, vultuque sereno

Mutato in facilem Gabriel qui celsa Pelasgi

Maenia structa manu cantu super aethera vexit

Altitonante

Antonio Figueira Duraõ Laur. Parnas.

Ram. 2. pag. 33. Vers.

Quis procul ille togà insignis, clavoque verendo

Lauri serta gerens! vultu Pereira videtur

Pieridum Castrum:

Manoel de Gallegos Cançaõ em louvor da Ulyssea.

Vós ó Pereira; quando

Cansado na juridica palestra

Ocio doce buscais, repouso brando,

E da pena aliviais a insigne destra:

Os bosques de Aganipe

Suspendeis Sonoroso

Com branda vós com plectro numeroso.

Jacinto Cordeiro Elog. de Poet. Lusit. Est. 6.

De los que illustran mas su felis astro

Insigne en letras y en ingenio solo:

Digno de marmol, bronze y alabastro

Es el Doctor en ciencias nuevo Apollo:

Gabriel Pereira a quien illustra Castro

Unico deste al contrapuesto Polo:

Cuyo illustre Poema honrando a Laso

Diera embidia a Virgilio, Homero, y Taso.

Manoel de Faria, e Souza Fuent. de Aganip. Part. 1. Centur. 6. Sonet. 78.

Xanto, Eupompe, Ligea, e Limnoria,

Com as outras maritimas Donzellas,

Que doutas tem Titulo, e de bellas

Hum que Venus lhes deu, outro Thalia.

Là sahem da cerulea Monarquia

(Fazendo enveja ás lucidas estrellas

Que se retiraõ de que as vençaõ ellas)

Por ouvir, Gabriel, tua armonia.

E ouvindose descritas no teu canto,

Que sobre a margem Tagica derramas,

Vem que ãtes eraõ bellas, mas naõ tanto;

Tanto co o doce numero as inflamas,

Que o ser Damas no mar do Nume Santo

Esquecem só por ser do Tejo Damas.

Compoz.

De Manu Regia Tractatus in quo omnium Legum Regiarum quibus Regi Portugalliae in causis Ecclesiasticis cognitio est ex jure, privilegio, consuetudine, seu concordia sensus, & vera decidendi ratio aperitur. Tom. 1. Olyssipone apud Petrum Craesbeck. 1622. fol.

Tomus secundus. Ibi apud eumdem Typog. 1625. fol. & Lugduni apud Claudium Bourgeat. 1673. fol. 2. Tom. & Ulyssipone apud Joannam Baptistam Lerzo 1742. fol. 2. Tom. com addiçoens.

Decisiones Supremi, Emminentissimique Senatus Portugalliae ex gravissimis Patrum responsis collectae. Ulyssipone apud Petrum Craesbeck. 1621. fol. & ibi apud Antonium Crasbeeck de Mello. 1674. fol.

Ulyssea, ou Lisboa edificada Poema Heroico. Lisboa por Lourenço Crasbeeck. 1636. 4. Sahio segunda vez em 8. por diligencia de seu Irmaõ o Doutor Luiz Pereira de Castro, que a dedicou ao Principe D. Theodosio, assim como dedicara a primeira ediçaõ a Filippe IV. Naõ tem lugar da impressaõ, mas do caracter se colhe ser impressa em Olanda no anno de 1642. ou 1643. Em aplauso deste Poema compoz o seguinte Soneto a elevada Musa de Lopo Feliz da Vega.

Lisboa por el Griego edificada

Ya de ser Fenix immortal presuma,

Pues deve más a tu divina pluma

(Docto Gabriel) que a su famoza espada.

Voraz el tiempo con la diestra ayrada

No ay imperio mortal que nò consuma,

Pero la vida de tu heroico suma

Es alma illustremente reservada.

Mas ay que quando màs enriqueciste

Tu patria que su artifice te llama,

Por la segunda vida que le diste:

Cyprès funesto tu laurel enrama,

Si bien ganaste en lo que màs perdiste,

Pues quando mueres tu, naciò tu fama.

Cançaõ ao Nacimento de Filippe IV. premiada em Coimbra com o primeiro premio. Sahio impressa ao principio do Trat. de Manu Regia.

Epigramma in effigiem Francisci de Caldas Pereira Patris sui.

Elegia in Laudem Parentis sui. Huma, e outra obra poetica sahio impressa no principio da 3. e 4. Parte de Jure Emphyteutico do Doutor Francisco de Caldas, cuja obra foy publicada por industria de seu filho Gabriel Pereira emprestandolhe a Universidade de Coimbra em o anno de 1601. seiscentos mil reis para o gasto da ediçaõ.

Epigramma, e Elegia com o titulo de Exasticon. Sahio no livro intitulado Anagrama de la vida humana author Henrique Visorio. Lisboa por Antonio Alvres. 1590. 8.

Monomachia sobre as Concordias que os Reys fizeraõ com os Prelados de Portugal nas duvidas da Jurisdiçaõ Ecclesiastica, e Temporal, e Breves de que foraõ tiradas algumas ordenaçoens com as confirmaçoens Apostolicas, que sobre as ditas Concordias interpuzeraõ os Summos Pontifices. Lisboa na Officina da Congregaçaõ do Oratorio 1738. fol.

Antinomiàs das Ordenaçoens de Portugal conciliadas. M. S. 8. Dedicado ao Conde do Basto Governador do Reyno.

Obras Poeticas em diversas linguas. 2. Tom. 4. Conservavaõse na Bibliotheca do Illustrissimo Bispo do Porto D. Rodrigo da Cunha como consta do Index della impresso na dita Cidade 1627. 4. Constava hum tomo de Obras Lyricas. Outro de Comedias.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]