Fr. FRANCISCO DE BARCELLOS natural da Villa do seu apellido, ou da Villa de Rates situadas na Provincia de Entre Douro, e Minho. Foy filho de Joaõ de Souza Prior de Rates, e de Mecia Rodrigues de Faria; Irmãa de Thomè de Souza, primeiro Governador do Brasil, Vedor d’ElRey D. Sebastiaõ, e Commendador de Rates da Ordem de Christo. A nobreza do seu nacimento, que lhe podia insinuar em o animo esperanças certas de possuir lugares honorificos em o mundo, as desprezou resolutamente elegendo para centro da sua tranquilidade o Religioso Claustro do Convento da Pena onde professou o Instituto de Saõ Jeronymo a 25. de Outubro de 1525. Neste sagrado domicilio se fez exemplar daquellas virtudes proprias de hum perfeito Regular, sendo na abstinencia rigoroso, na Oraçaõ continuo, no zelo inflamado, na obediencia prompto, e no silencio observante. Pela sua grande prudencia acompanhada de natural afabilidade, e alegre semblante exeratou varias Prelasias na Ordem como foraõ Prior do Mosteiro da Costa em o anno de 1559. Prior do Convento de S. Marcos junto a Coimbra em 1566. ao qual augmentou com sumptuosos edificios delineados pela sua maõ, por ser insigne Architecto; Reytor do Collegio de Coimbra em 1572. e ultimamente Provincial. Foy celebre Poeta Latino com tanta afluencia, que delle escreve D. Fr. Thomè de Faria Bispo de Targa seu parente Decad. 1. liv. 10. cap. 3. Nam ita Musis erat deditus ut quod Ovidius de se commendavit quidquid conabar dicere versus erat, de illo etiam potuerit publicari. Passou da vida temporal para a eterna em o Convento da Pena junto à Villa de Cintra a 29. de Junho de 1570. como diz Jorge Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 3. pag. 874. o que certamente naõ póde ser porque ainda no anno de 1572. sendo Reytor do Collegio de Coimbra celebrou hum contrato pertencente ao mesmo Collegio. Delle fazem memoria Joan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. lit. F. num. 33. vir valde pius, et in pangêdis carminibus promptus. O Illustrissimo Cunha Hist. Eccles. de Braga Part. 2. cap. 78. §. 8. em quem concorreraõ grandes dotes de sangue, e letras; os mayores porèm foraõ de humildade, e pobreza em que foy perfeitissmo. Fr. Ant. á Purif. Chronol. Monast. liv. 2. cap. 9. Litteris, et virtutibus insignis. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. pag. 323. Ferebatur ardentissima devotione erga Dominicam Crucem. Cardos. Agiol. Lusit. Tom. 3. pag. 858. Na Poesia naõ foy menos assinalado assim na lingua materna, como na Latina. Villasboas Nob. Port. pag. 109. Foy afeiçoado à Poesia, e fez na lingua materna algumas obras, e na Latina hum livro dos triunfos da Cruz. Siguença Histor. de la Ord. de S. Jeron. Part. 3. liv. 2. cap. 42. Varon ilustre en sangre, y mas en Religion. Poyares Trat. Paneg. da Villa de Barcellos cap. 16. Compoz

Salutiferae Crucis triumphus in Christi Dei Optimi Maximi gloriam, et ad Christianae mentis solatium. Conimbricae apud Joannem Barrerium, et Joannem Alvarum Typ. Reg. anno salutis nostrae millessimo quinquagessimo tertio XXV. Kalendas Julias.

He composto em verso elegiaco, e consta de quatro livros. Dedicado a D. Fr. Braz de Barros, primeiro Bispo de Leyria seu grande amigo, e condiscipulo. Posto que no frontispicio se naõ declara o nome do Author, o manifesta Fr. Jeronymo Oleastro insigne esplendor da Ordem dos Prégadores na approvaçaõ que faz a esta obra a qual louva com estas metricas vozes o Padre Antonio dos Reys Enthus. Poet. n. 25.

Occupat excelsam Cathedram Barcellius ille, Qui Crucis elogium sic nobile panxit,

ut ore A Patris eloquium penitus rapuisse putares Grandisonum.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]