P. FRANCISCO AYRES Naceo na Villa da Amieyra do Priorado do Crato em a Provincia Transtagana sendo filho de Manoel Martins, e Izabel Ayres. Ao tempo que na Universidade de Coimbra era Filosofo do quarto anno se resolveo abraçar o Instituto da Companhia de Jesus entrando em o Noviciado de Lisboa a 9. de Junho de 1621. quando contava vinte e quatro annos de idade. Depois de ser Reytor do Collegio de Faro assistio na Caza do Noviciado de Lisboa por todo o discurso da sua vida onde se constituhio hum perfeito exemplar do estado religioso. Orava cada dia muitas horas a que precedia a rigorosa disciplina de duzentos golpes. Como cegasse cuja molestia qual outro Tobias tolerava com inalteravel constancia, e naõ pudesse offerecer no Altar o Divino Cordeiro, o recebia todos os dias com summa ternura recitando a este tempo panem nostrum quotidianum da nobis hodie. Foy excessivamente mortificado servindo-lhe de cama o pavimento do cubiculo, e abstendose de vinho, e de todo o genero de fruta. No mez que se recolhia a tomar os exercicios de seu Patriarcha Santo Ignacio, se sustentava cada dia huma só vez da pequena porçaõ de biscouto, que lhe trazia hum seu filho espiritual. No Confessionario dirigia as almas ao caminho da perfeiçaõ com termos taõ suaves, que eraõ innumeraveis os penitentes que concorriaõ a ouvir os seus documentos. Na Theologia Mystica era muito versado, de tal sorte, que o consultava o Ven. Padre Bartholomeu do Quental Fundador da Congregaçaõ do Oratorio neste Reyno. Ainda que estava privado do mais nobre sentido rezava todos os dias o Officio Divino, cuja mayor parte sabia de memoria, e dictava a hum Noviço, que lhe assistia, as obras que publicou para beneficio das almas Catholicas. Nellas se descobre o cordial afecto com que sempre venerou a Maria Santissima, cujas Vigilias jejuava a paõ, e agua. Chegado o termo da sua vida recebeo com fervorosa piedade todos os Sacramentos, e entre suaves colloquios a Christo Crucificado, espirou placidamente em o Noviciado de Lisboa a 11. De Novembro de 1664. com 67. annos de idade, e 43. de Religiaõ. Divulgada a sua morte, muitas pessoas concorreraõ a venerar o seu cadaver, que cobriraõ de flores em memoria das suas virtudes que celebraraõ a Bib. Societ. pag. 214. col. 1. Erat virtutum omnium speculum. Franco Annal. S. J. in Lusit. pag. 336. num. 2. Vir exquisitae virtutis, e na Imag. da Virt. do Nov. de Lisboa liv. 4. cap. 7. religioso de grande perfeiçaõ. P. Francisco de Francisc. Philolog. Dissert. de Francisc. Litter. deficiente visu, ut vix lucem á tenebris discerneret … transvit ad videnda bona Domini in terra viventium. Compoz

Regimento espiritual para o caminho do Ceo. Lisboa na Officina Craesbeeckiana. 1654. 8.

Retrato dos triunfos divinos contra os disprimores humanos. Lisboa por Paulo Craesbeeck. 1658. 4.

Methaforicos exemplares da esclarecida origem, e illustre descendencia das virtudes por Evangelicas parabolas, e allegorias figuradas com hum tratado elogiaco sobre as excellencias, e grandezas da Virgem Mãy de Deos. Lisboa por Antonio Craesbeeck. 1661. 4.

Parallelos Academicos entre duas universidades divina, e profana, deduzidos á reformaçaõ dos costumes, e melhoramento de vidas. Lisboa por Ant. Craesbeeck de Mello. 1662. 8.

Retrato de prudentes, e espelho de ignorantes; aos primeiros alimento espiritual de bons acertos; aos segundos avizo de seus enganos. Lisboa pelo dito Impressor. 1664. 8.

Epitome espiritual sobre o que deve saber, crer, guardar, e obrar todo o Christaõ. Ibi pelo dito Impressor. 1664. 8.

Instruçaõ breve, do que deve saber, e confessar o Christaõ. M. S.

Regra de bem viver conforme a Ley Evangelica, e dictames da prudencia. M. S. Destas duas obras faz mençaõ o P. Ant. Franco na Imag. da virt. do Nov. de Lisboa. liv. 4. cap. 7. pag. 171.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]