IOAÕ RODRIGUES DE SÁ, E MENEZES. Senhor de Sever, Matozinhos, Payva, Baltar, Alcayde mòr da Cidade do Porto, e do Conselho delRey teve por Progenitores a Henrique de Sá, e Menezes Senhor de Sever, e Alcayde mór do Porto, e a D. Brites de Menezes filha de D. Ioaõ de Menezes Senhor de Cantanhede, e de D. Leonor da Sylva. Dotado de sublime engenho aprendeo com facilidade as Artes liberaes, e fallou com expediçaõ as linguas sahindo taõ eminente em a Latina que illustrou com varias observaçoens a Virgilio, e traduzio na lingua materna muitas Elegias de Ovidio. Naõ foy menos versado na intelligencia da Grega fazendo doutissimos commentos a Homero, Pindaro, e Anacreonte Princepes deste idioma. Com a continua liçaõ de taõ famozos Corifeos da Poesia se lhe infundio a inclinaçaõ para practicar os preceitos desta divina Arte sendo os seus versos mais estimaveis pela profundidade dos conceitos, que pela elegancia das vozes. Naõ lhe deveo menor disvelo a Historia Secular, e a Filosofia penetrando com huma os segredos da natureza, e instruindo-se com a outra nos mysterios da Politica. As sciencias que com o estrondo das armas se viaõ fugitivas deste Reyno as introduzio suavemente fazendo com o seu exemplo, que as Pessoas da primeira Ierarchia se aplicassem aos estudos de que estavaõ divorciados, como em seu aplauzo cantou o insigne Francisco de Sà, e Miranda.

As letras, que naõ achastes

Vòs as metestes na terra

Á nobreza as ajuntastes

Com quem dantes tinhaõ guerra.

Estas expressoens metricas as verteo em mais elegante lingua o famozo Macedo Dom. Sadica. p. 54.

Hoc irrepertas tempore litteras

Tu luce donas, puluere suscitas

Armisque florentum virorum,

Quae fuerant inimica jungis.

Naõ foy menos claro na Palestra de Marte do que fora na Aula de Minerva pois seguindo, e excedendo os progressos de seu Tio D. Ioaõ de Menezes Senhor de Cantanhede, deu illustres argumentos de seu valor nas campanhas de Azamor, e Arzilla onde immortalizou o nome na posteridade. Com igual fidelidade que desinteresse servio a quatro Monarchas sucessivos confiando da sua prudente direçaõ os mais graves negocios da Monarchia. Por duas vezes reprezentou a augusta pessoa delRey D. Manoel com o honorifico Caracter de seu Embaxador; a primeira mandando no anno de 1516. vizitar a Fernando Catholico seu sogro que estava doente de cuja infermidade morreo; e a segunda acompanhando a Senhora D. Beatris quando se foy despozar no anno de 1521. Com Carlos III. de Saboya em cuja funçaõ se admirou a generosa profusaõ do seu animo. Com semelhante Caracter o nomeou a Magestade de D. Ioaõ o III. a Carlos V. sendo a repetiçaõ destas nomeaçoens o mais evidente argumento da sua madura capacidade, e prudente juizo. Cazou com D. Camilla de Noronha filha de D. Martinho de Castellobranco 1. Conde de Villanova, e Camareiro mòr delRey D. Ioaõ o III. Governador das Iustiças, e Vedor da Fazenda dos Reys D. Affonso V. D. Ioaõ o II. e D. Manoel, e de D. Mecia de Noronha filha de Ioaõ Gonzalves da Camara Capitaõ da Ilha da Madeira, e D. Maria de Noronha de quem teve a Francisco de Sà, e Menezes primeiro Conde de Matozinhos do qual se fez larga memoria em seu lugar. Chegou a contar cento, e quinze annos de idade com igual vigor no juizo, que no corpo de tal sorte que sendo já de cem annos montava com summa agilidade os cavallos, e os mandava com a mesma destreza que tinha na idade juvenil. Falleceo piamente na Cidade do Porto no anno de 1576. e jaz sepultado em a Capella do Capitulo do Convento de N. Senhora da Conceiçaõ de Matozinhos, e na campa de bronze se lè gravado este breve epitafio.

Aqui jàz Ioaõ Rodrigues de Sá.

A este grande Cavalhero dedicaraõ varios elogios em verso, e prosa insignes Escritores como saõ Damiaõ de Goes Chron. delRey D. Manoel Part. 4. cap. 38. A quem se pode dar inteira fé pela muita, e varia liçaõ, e doctrina, que nelle há nas Artes Liberaes, e Filosofia, e experiencia das couzas que de seu tempo aconteceraõ nestes regnos, e outros. Illustrissimo Cunha Cathal. dos Bisp. do Port. Part. 2. cap. 36. Grande Poeta, e Orador, e dos que com sua Poezia authorizaraõ a Naçaõ Portugueza. Ioan. Soar. de Brit. Theatr. Lusit. Litter. lit. 1. n. 71 . Vir omnis literaturae peritia clarus. Fr. Manoel da Esper. Hist. Seraf. da Prov. de Portug. Part. 2. liv. 10. cap. 53. Varaõ grave por armas, e por prudencia. Macedo Dom. Sadica. p. 49. Pueritiam in litteraria palestra magistris erudiendam dedit, & ingenium, quod acre obtigerat. disciplinis excolluit. Cum rudi illo saeculo latine balbutirent homines ille in Graecum sermonem linguam solvere voluit & in barbaras scholas Aticam elegantiam intulit. Bonuci Istor. di D. Affons. Henr. lib. 3. cap. 10. de indole generosa, e di acutissimo ingegno che seppe sino de gli anni piu teneri appieno coltivare fra le arte piu belle del Lazio, e della Grecia; versatissimo nella Filosofia umana, e divina; abile con igual laude a manegiar la spada, e la penna, prudente ne consigli, intrepido nè pericoli, inalterabile nelle vicende di prospera ó rea fortuna, e sopratuto di antica probità, e de vita veramente Christiana. Catald. Sicul. Epistol. lib. 2. Epist. ad Comitem Alcoutinii D. Petrum Menesium, entre outras couzas de que consta esta carta diz fallando de Ioaõ Rodriguez de Sà, e Menezes. Ioannem Rodericum, qui pulchra ne corporis dispositione, an ingenio, modestia, optimis que moribus, an loquendi suavitate, & rerum peritia excellat, magnopere dubito: qui adolescens ad huc natura duce, et suo studio adeò enituit, ut quoscumque habuit praeceptores, facile, & brevi superaverit. Nec contentus opibus paternis, et avitis, ut omnium fere generosorum hac nostra tempestate natura est, sed literas ita vigilanter prosequitur tum legendo, tum peritiores siscitando, ac si per illas foret sibi victus quaerendus Carvalho Corog. Portug. Tom. 1. p. 413. Foy grande Poeta, e Orador. Souza Apparat. a Hist. Gen. da Caz. Real Portug. p. 40. §. 19. Teve grande erudiçaõ, soube as Artes liberaes, e a Filosofia admiravelmente. Francisco de Sá, e Miranda Carta 4.

Dos nossos Sàs Coloneses

Graõ tronco, nobre coluna,

Grosso ramo dos Menezes

Em sangue, bens da fortuna

Que he todo entre os Portuguezes.

Mas vós que sempre vos ristes

Do povo que naõ vè mais

Ricamente alma vestistes

O mais tendes por de mais.

Diogo Bernardes Lima. Cart. 7. a Pedro de Lemos.

Là tens o grande Sá, naõ Sà Miranda

O de Menezes digo, o qual honrou Consigo as nove Irmãas, tens seu filho

Que na brandura mais se levantou.

E na Carta 32 escrita ao mesmo Ioaõ Rodrigues de Sà.

E pois a vosso espirito naõ se esconde

O lume da doutrina pura e rara

Day luz ao meu Poema porque seja

Seguro da nociva, e cega enveja.

O Doutor Antonio Ferreira Poem. Lusit. Sonet. liv. 1. Sonet. 52.

Alegrame, e entristece a real Cidade

Qu’o Douro rega, e meus Sàs ennobrecem

Com as armas, e trofeos que resplandecem

E resplandeceraõ em toda a idade.

Isto me alegra, e fasme saudade

Ver a ditoza terra em que aparecem

As raizes de huma planta em que florecem Fermosura, saber, e alta bondade.

Aqui o tronco naceo que em toda a parte

Deu gloriosos ramos de honra e gloria

Nas armas, e esquadroens do fero Marte &c.

E no liv. 1. das Cartas. Carta 6. escrita ao mesmo Ioaõ Rodrigues de Sà, e Menezes assistindo na Cidade do Porto.

Antigo Pay das Musas desta terra

Illustre geraçaõ forte, e prudente

Igual sempre na paz, igual na guerra.

Vistete ja louvar da tua gente

Vistete dos estranhos envejado

E veste hora viver tan longamente…

Enriquecestes o peito, e a memoria

D’ altos exemplos de antigos fèitos

Que no mundo deixaraõ clara historia.

Enchendo a alma sam de saõs conceitos

A razaõ segues, que te leve, e guie

Pelos caminhos que ao Ceo vaõ direitos.

Quando mais ocioso, entaõ abrindo

Os bons livros regendo estás tua terra

Em ti as proprias leys tuas cumprindo &c.

O P. Luiz de Aguilar da Companhia

de Jesus Paneg. ad D. Ioan. Rodericum Sá Menesium Ioan. IV. cubiculo Praepositum.

Qui proavos virtute, & Avum qui nomine praefert:

Cui Parcae non parca manus dat Nestora, datque

Explere Euboici numerosum pulveris aevum.

Hinc Musae in pretio, &dilectae Palladis artes:

Cumque Deo mens tacta, ulli non largius usquam

Castalios latices, et amicam vatibus undã

Effluxisse putes: nullius pectora tantus

Intravit calor, aut tanti data copia plectri.

Sed nihil ingenium, nihil heu tam grande morata est

Aversum studiis depasta incuria seclum.

Invidia, credo, Parnassum agitante Camaenae

Ne foret hic patriae alter, &alter Apollo

Quae tamen a tanto restant vestigia damno

Arguti doctos commendant pectinis ictus

Ac dignum Caelo, &praelo ostentat opus: omnes

Descendisse putes modulata ad carmina Musas.

Henrique da Motta no Cancioneiro de Resende a fol. 204. vers. o louva com estas vozes.

Senhor a quem Febo deu

Lingua Virgiliana

De que corre, de que mana

Quanta fama ouço eu.

E alem deste primor

O muy alto Deos de amor

Triummfante

Vos fez hum gentil galante

De Damas graõ servidor.

De nobreza, e fidalguia

Escuso eu de fallar,

Pois vosso claro solar

Como Sol resplandecia;

E das Artes liberaes.

E Virtudes Cardeaes

Naõ vos gabo,

Porque nisto naõ tem cabo

A gram fama, que là daes.

Compoz.

Quarenta, e nove Quintilhas aos Brazoens das Armas das Familias de Portugal. Começaõ.

Por se levantar a gloria

Das Linhagens muy honradas

Que por obras muy louvadas

Desi leixaraõ memoria

A quem lhes siguas pizadas.

Sahiraõ impressas no Cancioneiro de Garcia de Resende Lisboa por Hermaõ del Campo 1516. fol. desde fol. 114. até 127. O Original se conserva na selectissima Livraria do Excellentissimo Marquez de Abrantes sexto Neto do Author. Desta obra fazem particular memoria os Padres Bonucci, e Souza nos lugares assima allegados; D. Antonio Soares de Alarcaõ Relac. Genealog.cap. 9. pag. 38. e pag. 18. cap. 5. Gonçalo Argote de Molina em a Noblez. de Andaluz.onde se equivocou com o nome do Author chamando-lhe Francisco cujo erro seguio o Padre Claudio Menestrier Art. du Blazon. pag. 74.

Nobili, ac doctissimo viro Damiano á Goes suo S. P. D. Epistola data Portu Galliae Idibus Ianuarii. 1541. Começa. Litteras tuas, & Carmanici belli, seu mavis Aracosici Comentaria libens accepi. Sahio impressa nas obras de Damiaõ de Goes. Lovanii apud Rutgerum Ressium. 1544. 4.

Carta escrita do Porto em Novembro de 1558. a Damiaõ de Goes. Della transcreveo grande parte o mesmo Goes na Chronica delRey D. Manoel Part. 4.

cap. 38. Esta Carta traduzio na lingua Latina o insigne Fr. Francisco de Santo Agostinho Macedo, e a imprimio no livro intitulado Domus Sadica a pag. 57.

Cadabali Gravio Calydonio .S. D. Epistola data Portugalliae quarto Calend.Septemb.an.1568.

Carmen in Religiosissimi Doctoris Roderici Pinarii Dei gratia Portugallensis Episcopi Encomium. Consta de 26 Dystichos. Huma, e outra obra sahiraõ impressas na Pityographia Cadabalis Gravii Olyssipone apud Antonium Gonzalves. 1568. 4.

Annotaçoens ao Nobiliario do Conde D. Pedro. M. S. Desta obra fazem memoria Argote de Molina Nobleza de Andal. liv. 1. cap. 48. e D. Antonio Caet. De Souz. Appar. a Hist. Gen. da Caz. Real Portug. pag. 61. §. 19.

De vera Platano apud nos reperta Commentatio. Ad amicum Ludovicum Teixeiram Regis Palatii expeditorem. M. S. Fallando desta obra Ioaõ de Barros Geograf de Entr. Dour. e Minh. fol. 29. vers. A igreja do lugar de Zurara he muy  boa; iunto della está huma arvore suave, e grande a modo de Amoreira porque tem a madeira torta, mas as folhas saõ como de vide mui frescas; naõ sabem bem o nome della; e Ioaõ Rodriguez de Sá fidalgo, e Varaõ mui docto afirma ser esta arvore Platano, e fez em Latim sobre isso hum Tratado mui elegante provando a sua tençaõ por muitas rezoens, e authoridades. Sendo impugnada esta obra por Ioaõ Fernandes Mestre de letras humanas em Coimbra lhe respondeo o Author com fundamentos novos em que estabelecia mais solidamente a sua opiniaõ, e a dedicou ao Cardial Infante D. Henrique no anno de 1537.

Tratado da Cidade de Coimbra M. S. He allegada esta obra por Pedro de Mariz Dial. de Var. Hist. Dial. 1. cap. 4.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]