Fr. IOAÕ DE VASCONCELLOS chamado no seculo Alvaro Mendes de Vasconcellos, que lhe foy imposto em memoria de seu Visavo paterno Alvaro Mendes de Vasconcellos do Conselho delRey D. Ioaõ o III. Embaxador Extraordinario a Carlos V. e à Santidade de Paulo III. Naceo em a famosa Cidade de Lisboa no anno de 1590. sendo filho segundo de Manoel de Vasconcellos Regedor das Iustiças, Conselheiro de Estado, Commendador de Izeda na Ordem de Christo, Senhor do Morgado de Esporaõ, e Presidente do Senado de Lisboa, e de D. Luiza de Vilhena filha de Ioaõ Nunes da Cunha, e de D. Filippa de Mendoça, e irmaõ de D. Francisco de Vasconcellos primeiro Conde de Figueirò. Igual ao esplendor do nacimento lhe concedeo a natureza perspicacia de juizo, que sendo cultivado com a virtuosa direçaõ do V. P. Antonio da Conceiçaõ singular ornato da Canonica Congregaçaõ do Evangelista sahio instruido nas letras humanas, e documentos moraes. Para se aplicar ao estudo das sciencias mayores passou à Universidade de Coimbra onde admitido a Porcionista do Collegio de S. Pedro a 10 de Mayo de 1605. se distinguio dos seus collegas em os progressos litterarios, porem considerando com madura reflexaõ as caducas esperanças com que o mundo lhe lizongeava a fantezia, resolveo a preferir as mortificaçoens do claustro aos aplauzos da Universidade pedindo humildemente o habito da esclarecida Ordem dos Pregadores ao Mestre Fr. Martinho Escay Vizitador da Provincia de Portugal, que admirado da modestia do semblante lhe difirio promptamente a taõ piedosa suplica ordenando, que fosse recebido em o Real Convento da Batalha donde vencidas fortissimas contradiçoens de seu Pay, e Parentes contra o estado que emprendera, passou a continuar o Noviciado em o Convento de S. Paulo de Almada, e nelle professou solemnemente a 11 de Mayo de 1608. e para naõ conservar a menor memoria do seculo mudou o nome de Alvaro em Joaõ. Nesta sagrada, e douta palestra renovou os estudos escholasticos com tanto credito do seu talento, que subindo à Cadeira dictou Filosofia, e Theologia em os Conventos de Lisboa, e Evora até receber o gráo de Mestre. Ainda naõ contava completos trinta, e sinco annos de idade quando foy eleito Prior do reformado Convento de Bemfica edificando aos seus moradores com o exemplo, e reedificando a Igreja com taõ primorosa architectura, que he huma das mais excellentes, que tem o nosso Reyno. A liberdade apostolica com que do pulpito reprehendia os vicios, e o ardente zelo com que promovia os augmentos da Fé pelos quais foy obrigado passar diversas vezes à Corte de Madrid, o habilitaraõ para ser eleito Pregador delRey, e Deputado do Conselho Geral do Santo Officio de que tomou posse a 23 de Novembro de 1632. Sendo Provincial temperou de tal modo a severidade com a brandura, que naõ faltando às obrigaçoens de Prelado, uzou da benevolencia de Pay. Com animo heroicamente resoluto regeitou as Mitras das Cathedraes de Miranda, e Braga julgando, que taõ altas dignidades perdiaõ a estimaçaõ conferidas à sua Pessoa. Nomeado pelo Pontihce Innocencio X. Visitador, e Reformador da Congregaçaõ dos Conegos Seculares do Evangelista se escuzou desta incumbencia como repugnante à quietaçaõ do seu espirito. Obrigado pelo Inquizidor Geral D. Francisco de Castro vizitou o Tribunal da Inquiziçaõ de Coimbra com aquella prudencia de que era summamente ornado. Sendo eleito por ordem do Serenissimo Rey D. Ioaõ o IV. Reformador da Universidade de Coimbra emendou muitos abuzos, que a inercia tinha introduzido, e estabeleceo prudentes Estatutos para beneficio comum dos discipulos, e Mestres daquella Athenas Portugueza. Ultimamente para complemento das virtuosas acçoens emprendeo quando era Vigario do exemplarissimo Mosteiro do Sacramento de Religiosas Dominicas, erigir pelas medidas do seu generoso coraçaõ novo Templo para culto daquelle amoroso Mysterio, o qual sahio taõ elegante na fabrica como a de Bemfica devendo ao primor da sua idea, e piedade de seu animo a sumptuosa magnificencia com que se ornaõ. Neste sagrado domicilio em que exercitou fervorosamente as virtudes practicadas por toda a vida foy acometido da ultima infermidade, e confortado com os Sacramentos expirou placidamente em o primeiro de Fevereiro de 1652. quando cotava 62 annos de idade, e 44 de religioso. Collocado o Cadaver na Igreja do Mosteiro do Sacramento se lhe fez o Officio em que cantou a Missa o Bispo Inquizidor Geral D. Francisco de Castro assistindo ao Funeral os Bispos de Coimbra, Leiria, e Elvas. Sendo conduzido para se sepultar em o Convento de S. Domingos de Lisboa foraõ os primeiros, que tomaraõ sobre os hombros o feretro em que jazia, D. Ioaõ Mascarenhas Conde de Santa Cruz, D. Pedro de Lancastre, D. Virissimo de Lancastre sobrinho do V. Padre, o Provincial, os Priores de Lisboa, e Bemfica, e o Mestre Fr. Fernando de Menezes. A 5 de Fevereiro se lhe dedicaraõ sumptuosas exequias em o Convento de S. Domingos assistindo o Inquizidor Geral com o Tribunal do Santo Officio, e a mayor parte da nobreza, e das Familias Religiosas. Recitou o Panegyrico Funebre o Prezentado Fr. Alvaro Leytaõ resumindo a breve Mappa as virtudes de taõ insigne Varaõ. Da Sepultura reza em que jazia no Antecoro, lhe mandou levantar hum magnifico Mausoleo seu sobrinho o Emminentissimo Cardial D. Verissimo de Lencastre Inquizidor Geral destes Reynos onde descansaõ as veneraveis cinzas deste gravissimo Regular, e se lhe gravou a seguinte inscripçaõ.

Magnus Theologus Frater Ioannes de Vasconcellos ex Praedicatorum familia clarissimus sanguine, moribus nitidior, Regis, ac supremi Inquisitionis Senatùs à Consiliis, Prioris Provincialis munere, Regii Concionatoris laurea, Pontificia recusata dignitate, virtutibus cumulatus, ac meritis, in Cruxifixi amplexu magna Christianae pietatis opinione, pauperum dolore, omniumque desiderio Ulyssipone moritur Kalend. Feb. ann. salut. 1652. aetatis suae. 62.

Escreveraõ a sua vida com elegantes pennas o Mestre Fr. Andre Ferrer de Valdecebro em a lingua Castelhana, e na Portugueza Fr. Lucas de Santa Catherina Chronista da Provincia de S. Domingos de Portugal, e Academico Real na 4. Part. da Hist. de S. Doming. desta Prov. liv. 1. cap. 15. até 23. onde difusamente se podem ler as suas sanctificadas obras. Delle se lembraõ Cardozo Agiol. Lusit. Tom. 3. p. 336. no Coment. de 20 de Mayo letr. F. Varaõ verdadeiramente Apostolico, insigne Pregador do seu tempo, benemerito Inquisidor do Conselho Geral, eximio amador da observancia, e pobreza religiosa, espelho claro de virtudes divinas, e letras humanas. Echard Script. Ord. Praed. p. 570. col. 2. Vir avisa nobilitate clarus, sed innocentia, et morum sanctitate longe clarior fuit. Sylva Leal Cathal. dos Porcion. do Colleg. de S. Pedro n. 7. Varaõ dotado de muitas virtudes. Fr. Pedro Monteiro Claustr. Domin. Tom. 1. p. 94. Grande Theologo, e Pregador Regio. e no Cathalog. dos Deput. do Cons. Geral. §. 40. Veneravel servo de Deos. D. Nicol. de S. Mar. Chron. dos Coneg. Regr. liv. 4. cap. 8. §. 23. illustre por sangue, e muito mais por suas grandes virtudes, e o mais reformado, e observante Religioso entre todos os da sua Familia, e que soube desprezar Bispados, e outras dignidades, e morrer Frade muy pobre, e com fama de Santo. Compoz.

Cursus Artium, seu in Philosophiam Universam Commentaria. Desta obra se fizeraõ Varios treslados para se dictar em toda a Provincia pois fue (como escreve na sua Vida Valdecebro cap. 8. pag. 27) y es oy el màs celebrado y admetido en aquella Provincia de quantos hasta tiempo se avian leydo y le antecedieron hombres eminentes y de nó vulgar aplauzo en todas Facultates.

Carta escrita de Aveyro a 22 de Setembro de 1640. ao Conde Duque em que se escusa do Bispado de Miranda. Sahio impressa na sua Vida escrita por Valdecebro liv. 1. cap. 35. p. 105.

Reposta ao Alvitre que deu Paulo Coelho de Abreu contra o fisco da Santa Inquisiçaõ de Lisboa. M. S.

Capitulaciones entre la Inquisicion de Castilla y Portugal sobre la remission de los culpados de Reyno, a Reyno. M. S. Estas duas obras se conservaõ na Livraria do Excellentissimo Marquez de Abrantes.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]