D. IORGE DE ATTAYDE. Naceo em a Cidade de Lisboa, e teve por progenitores a D. Antonio de Atayde primeiro Conde da Castanheira Valido delRey D. Ioaõ o 3. e a D. Anna de Tavora filha de Alvaro Pires de Tavora Senhor do Mogadouro, e D. Ioanna da Sylva. A natureza lhe concedeo talento igual à nobreza do sangue comprehendendo na idade juvenil aquellas artes com que se acreditaõ os annos mais provectos. Ordenado de Presbitero antes do tempo preciso para o Sacerdocio acompanhou aos insignes Prelados, e famosos Theologos que a Magestade delRey D. Sebastiaõ mandou no anno de 1562. ao Concilio Tridentino, e neste veneravel Congresso com exemplo nunca practicado teve lugar, e voto mais pela madureza do Talento que ainda pela qualidade da Pessoa. Concluido o Concilio passou a Roma com a incumbencia de reformar o Missal, e Breviario Romano que lhe cometera Pio IV. donde por morte de seu Pay partio para Portugal, e sendo eleito Bispo de Viseu no anno de 1568. foy sagrado na Igreja do Convento de Nossa Senhora da Graça cuja funçaõ se fez mais plauzivel com a assistencia delRey D. Sebastiaõ, a Raynha D. Catherina, a Infanta D. Maria, e toda a Nobreza da Corte. Feita a entrada publica no seu Bispado a 14 de Março de 1569. Aplicou todo o disvelo para, que se practicassem os Decretos do Concilio naõ faltando à menor obrigaçaõ de Prelado vigilante até que querendo alliviar-se de hum pezo intoleravel ainda aos hombros angelicos renunciou a Mitra no anno de 1578. Nomeado Capellaõ mòr pelo Cardial Rey promoveo com fervorozo zelo o culto divino, e as Cerimonias Ecclesiasticas. Filippe Prudente o elegeo seu Esmoler mòr, Presidente da Meza da Conciencia, e Inquizidor Geral destes Reynos cuja dignidade renunciou, e se conferio ao Senhor D. Alexandre filho dos Serenissimos Duques de Bragança D. Joaõ, e D. Catherina em que foy confirmado pelo Pontifice Clemente VIII. a 23 de Agosto de 1602. Sendo Conselheiro de Estado de Portugal em Madrid sempre se ostentou igualmente amante da justiça, e inimigo do interesse como se vio com grande gloria do seu nome na repulsa de cem mil cruzados offerecidos pelos Christãos novos para votar indiferentemente na suplica do seu perdaõ. Com animo superior ás paxoens humanas retribuio beneficios por offensas confundindo com esta nobre vingança a cegueira de seus emulos, que sinistramente lhe interpretavaõ as suas irreprehensiveis açoens. Foy Abbade Commendatario de Alcobaça de cuja dignidade teve por sucessor ao Infante D. Fernando filho de Filippe III. de Castella. Lembrado de q o celebre escritor Ioaõ de Barros fora seu Padrinho de bautismo o mandou transferir da sepultura em que jazia no termo da Cidade de Leiria para a Parochial Igreja de Alcobaça onde se a morte o naõ impidira determinava fabricar-lhe hum sumptuoso Mausoleo. Este generoso intento effeituou com as cinzas de seus illustrissimos Pays mandando levantar à sua custa duas magnificas sepulturas em o Convento de Santo Antonio da Castanheira, que elles tinhaõ fundado, onde esperaõ a resurreiçaõ universal, e nellas lhe gravou elegantes Epitafios dictados pela sua penna. Teve a gloria de sagrar Bispo de Viseu a 21 de Março de 1610 a seu sobrinho D. Ioaõ Manoel sendo o quinto sucessor desta Mitra depois, que a renunciou. Nos ultimos annos padeceo o achaque de gotta até que enfermou gravemente, e recebendo com alegre semblante a noticia de ser chegado o termo da sua peregrinaçaõ assistido do seu Confessor o Padre Bartholameo Guerreiro da Companhia de Jesus se preparou com as armas dos Sacramentos para taõ formidavel conflicto conservando o juizo até espirar às 10 horas, e tres quartos da noute de 17 de Janeiro de 1611. quando contava 76 annos de idade. Passados dous dias foy transferido o seu Cadaver para huma sepultura reza, que mandou fazer junto dos Mausoleos em que descansaõ as cinzas de seus illustres Pays em o Convento de Castanheira. Escreveo a Vida deste insigne Prelado Thomaz Alvres Thezoureiro mòr da Capella Real, e no fim della juntou muitas Cartas escritas a diversos Principes sobre gravissimos negocios com as repostas. Fazem memoria da sua pessoa Souza Vida de Fr. Bartholam. dos Martyr. liv. 2. cap. 17. D. Nicol. de S. Maria Chron. dos Coneg. Reg. liv. 10. cap. 28. n. 3. Esperança Hist. Seraf. da Prov. de Portug. Part. 2. liv. 11. cap. 2. n. 2. e Soledade Hist. Seraf. Part. 4. liv. 2. cap. 6. n. 247. 0 Padre Joaõ Col Cathalog. dos Bisp. de Viseu. . 54. Magna Biblioth. Eccles. Tom. 1. pag. 656. col. 1. Escreveo.

Actas do Concilio Tridentino até a 7. Sessaõ em que assistio. fol. 2. Tomos grandes. M. S. Conservaõ-se na Livraria dos Monges Cartuxos do Convento de Laveiras distante sinco legoas de Lisboa aos quais deixou a sua Livraria, e duas Capellanias pela sua alma. Huma copia desta obra está na Bibliotheca do Excellentissimo Conde do Redondo.

Nobiliario das Familias do Reyno. fol. M. S. Desta obra o faz author Ioaõ Franco Barreto Bib. Portug. M. S. e o Padre Souza Apparat. à Hist. Gen. da Caz. Real Portug. pag. 57. n. 35.

Regulae Cancellariae Santissimi Domini nostri Pii divina Providentia Papae Quinti, ejusque Motús proprii Bullae, & alia Decreta nec non felicis recordationis Pauli Quarti post promulgationem Sacrosancti Tridentini Concilii edita per Reverendissimum Patrem, & Illustrissimum Patrem, & Illustrissimum Dominum D. Georgium D’attayde Episcopum Visensem approbata. Excussa per Emmanuelem Ioannis Typographum Rever. Domini Episcopi Visei in eadem urbe anno Incarnationis Dominicae. 1570. 4. Consta de 176. folhas.

Mandou copiar dos Originaes, que se conservaõ no Archivo Real, e imprimir.

Privilegia facultates, jurisdictiones, & aliquot gratiae, quas Summi Pontifices Regibus Portugalliae, & ad eorum instantiam Capellano Mayori concesserunt. Ulyssipone apud Petrum Crasbeeck. 1609. 4.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]