P. MANOEL BERNARDES naceo em Lisboa a 20. de Agosto de 1644., e a 27. do dito mez, e anno recebeo a graça bautismal na Igreja de Nossa Senhora do Loureto. Foraõ seus progenitores Joaõ Antunes, e Maria Bernardes filha de Joaõ Bernardes Cavalleiro da Ordem de Christo, Avaliador do Fisco Real, e sobrinho de Antonio Leite Pereira moço da Camara de Filippe IV, Cavalleiro Fidalgo, e Familiar do Santo Officio. No prologo dos seus estudos manifestou a viveza do juizo, e capacidade de talento de que prodiga o ornara a natureza distinguindo-se dos seus condiscipulos assim na intelligencia da lingua Latina, como na penetraçaõ das mayores dificuldades da Filosofia da qual recebeo o gráo de Mestre em a Universidade de Coimbra. Nesta Athenas Portugueza estudou Direito Pontificio merecendo com aplauso do seu nome ser numerado entre os Bachareis desta Faculdade. Da Jurisprudencia Canonica passou a penetrar os mysterios da sagrada Theologia, e instruido profundamente nestas duas sciencias recebeo Ordens de Presbitero. Admetido a domestico da Casa de Deos se constituhio pela modestia do semblante, e integridade de custumes hum perfeito exemplar do Estado Eccleliastico por cuja causa o elegeo por seu Confessor o Illustrissimo Bispo de Vizeu D. Joaõ de Mello Varaõ exercitado em oraçaõ, e penitencias das quaes teve por palestra a Ermida do Bom Jesus peregrino situada no Promontario da Arrabida pelo espaço de cinco annos. Anhelando o seu espirito a vida mais perfeita deixou as esperanças com que o lizongeava o mundo, e se recolheo na Congregaçaõ do Oratorio de S. Filippe Neri novamente instituida na sua patria pelo Ven. Padre Bartholameo do Quental, vestindo a roupeta a 14. de Julho de 1674. Quando contava trinta annos de idade. Em o Noviciado de taõ virtuosa palestra parecia veterano na pratica dos exercicios espirituaes. Com incansavel desvelo procurava a salvaçaõ das almas despertando a humas na Cadeira do lethargo da culpa, e derigindo a outras no confessionario para o caminho da vida eterna. Regulava pelos solidos fundamentos da Theologia Mystica os dictames com que instruia alguns dos seus confessados que tinhaõ chegado ao cume da perfeiçaõ Evangelica. Para que o naõ dominasse a vaõgloria sendo naturalmente discreto, e elegante afectava explicar-se por termos humildes. Taõ vil conceito formava do seu talento que nunca compoz obra alguma das muitas com que guiou as almas para a eternidade se naõ obrigado do preceito dos Superiores, e depois de escrita naõ a revia, e emendava, e se acaso a ouvia ler se afligia excessivamente. As machinas com que o demonio queria abater o edificio das suas virtudes, eraõ vencidas pelas consolaçoens celestiaes de que era depozito o seu coraçaõ para as receber, e juntamente ocultar. Dous annos precedentes á sua morte permittio Deos, que se reduzisse ao inocente estado de menino, e como tal era tratado, cauzando naõ pequeno espanto que hum entendimento taõ prespicaz fatalmente caducasse. Rezignado na vontade divina como conhecesse que se extinguia aquella luz directora de todas as suas acçoens se animou a aproveitar aquellas reliquias de tempo que com tanta velocidade lhe fugia, exercitando com mayor fervor as obrigaçoens do seu instituto, até que prohibido pelos Prelados da celebraçaõ do Sacrificio da Missa explicou com copiosas lagrimas a violencia com que obedecia a este preceito. Ultimamente reduzido a hum total esquecimento de tudo quanto havia no mundo como se nelle novamente entrara o deixou para receber na patria celestial o premio das suas heroicas virtudes fallecendo a 17. De Agosto de 1710. com 66. annos de idade, e 36, hum mez, e dous dias de Congregado. O seu Retrato mandou abrir em Roma o Padre Antonio dos Reys e o animou com o seguinte epigrãma elegante parto da sua fecunda Musa.

Os potuit Caelo sculptor tibi reddere: mores

Mentem, animum calamo reddit at ipse suu.

Compoz.

Exercicios espirituaes, e meditaçoens da via purgativa, sobre a malicia do pecado, vaidade do mundo, miserias da vida humana, e quatro Novissimos do homem. 1. Part. Lisboa por Miguel Deslandes 1686. 4.

2. Parte ibi pelo dito Impressor 1686. 4. Ambas as Partes ibi por Manoel Lopez Ferreira 1706. 4. A primeira ibi por Antonio Pedrozo Galraõ. 1731. 4. e a 2. Parte ibi por Bernardo da Costa 1731. 4. Esta obra pela geral aprovaçaõ dos Varoens peritos na Theologia Mystica levou a primazia a todas, que se escreveraõ sobre este argumento pois nelle compete a elegancia do estilo com a eficacia da doutrina.

Luz, e Calor. Obra espiritual para os que trataõ das virtudes, e caminho da perfeiçaõ dividida em duas partes. Na primeira se procura comunicar ao entendimento luz de muitas verdades importantes por meyo de doutrinas, sentenças, e industrias espirituaes. Na segunda se procura communicar á vontade calor do amor de Deos por meyo de exhortaçoens, exemplos, meditaçoens, colloquios, e jaculatorios. por Miguel Deslandes 1696. 4. & ibi por Francisco Xavier de Andrade 1724. 4.

Nova Floresta, ou Silva de varios Apophthegmas, e ditos sentenciosos espirituaes, e moraes com reflexoens em que o util da doutrina se acompanha com o vario da erudiçaõ assim divina, como humana. Tom. 1. Lisboa por Valentim da Costa Deslandes Impressor delRey 1706. 4.

Tomo 2. ibi pelo dito Impressor. 1708. 4.

Tomo Terceiro. ibi na Officina Real Deslandeziana. 1711. 4.

Tomo Quarto. ibi por Jozé Antonio da Silva. 1726. 4.

Tomo Quinto. ibi pelo dito Impressor. 1728. 4.

Armas da Castidade. Tratado esperitual em que por modo practico se ensinaõ os meyos, e deligencias convenientes para adquirir, conservar, e defender esta angelica virtude. Lisboa por Miguel Deslandes 1699. 8. Sahio segunda vez nos Tratados Varios. &c. ibi na Officina da Congregaçaõ do Oratorio 1737. 4.

Meditaçoens sobre os principaes Mysterios da Virgem Santissima Senhora nossa, Mãy de Deos, Rainha dos Anjos, Advogada dos peccadores. Lisboa por Bernardo da Costa de Carvalho 1706. 8. Sahio segunda vez nos Tratados Varios &c. Lisboa na Officina da Congregaçaõ 1736. 4.

Sermoens, e Practicas Primeira Parte. Lisboa na Officina Real Deslandeziana. 1711. 4.

Sermoens, e Practicas segunda Parte. ibi na Officina da Congregaçaõ do Oratorio 1733. 4.

Os ultimos Fins do Homem salvaçaõ, e condenaçaõ eterna. Lisboa por Jozé Antonio da Silva. 1728. 4.

Estimulo practico para seguir o bem, e fugir o mal. Exemplos selectos de virtudes, e vicios illustrados com reflexoens. Lisboa por Antonio Pedrozo Galraõ. 1730. 4.

Direçaõ para ter os nove dias de exercicios espirituaes. Lisboa na Officina da Musica 1725. 8. Sahio segunda vez nos Tratados Varios &c. Lisboa na Officina da Congregaçaõ. 1736. 4.

Paõ partido em pequeninos para os pequeninos da Casa de Deos. Tratado espiritual em que se instrue hum Fiel nos pontos principaes da Fé, e bons custumes. Com humas meditaçoens sobre os Novissimos. Lisboa por Antonio Pedrozo Galraõ 1694. 16. & ibi por Bernardo da Costa. 1704. 16. e Coimbra por Jozé Antunes da Silva 1704. 16. Publicou-se quarta vez com a segunda parte intitulada Paõ partido em pequeninos, ou Paõ mystico, e sobre substancial repartido aos pequeninos da Casa de Deos. Lisboa por Valentim da Costa Deslandes 1708. 16. & ibi por Miguel Rodrigues 1726. 8. Foy reimpressa esta obra juntamente com os Tratados Varios. Lisboa na Officina da Congregaçaõ do Oratorio 1737. 4.

Meditaçoens sobre os quatro Novissimos do Homem, Morte, Juizo, Inferno, Paraizo. Lisboa por Francisco da Silva 1744. 12. com outras obras espirituaes de diversos Authores.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]