Fr. MANOEL DA CRUZ naceo em a Cidade de Tavira do Reyno do Algarve e foy filho natural de Henrique Correa da Silva Alcaide mór da dita Cidade, e Commedador de Penamacor em a Ordem de Christo, e sobrinho de Simaõ Correa da Silva Conde da Castanheira. Desde a primeira idade descubrio propensaõ para a virtude que na mais adulta se admirou com excesso practicada. A natureza o dotou de gentil presença, genio docil, e entendimento agudo por cujos dotes intentaraõ seu pay, e tio estabelecer por falta de sucessaõ legitima nella a sua casa, porém querendo augmentarlhe o merecimento resolveraõ, que fosse militar á India o que executou acompanhado de outros Fidalgos no anno de 1694. quando contava vinte annos de idade. Chegado a Goa embarcou logo em a Armada que navegava para a Persia, e ao voltar foy provido em Capitaõ de Infantaria. Ambicioso o seu espirito de estado mais perfeito preferio ao militar o religioso pedindo com copiosas lagrimas ao Guardiaõ do Serafico Convento de Nossa Senhora do Cabo da Provincia da Madre de Deos de Goa o admetisse por Leygo daquella Communidade. Dificultou o Prelado por algum tempo o despacho desta suplica até que naõ podendo resistir a instancia de multiplicados rogos lhe lançou o habito servindo em o Noviciado de exemplar aos religiosos mais observantes na modestia do semblante, austeridade do alimento, e mortificaçaõ dos sentidos. Impetrada faculdade do Ministro Geral por seu tio o Conde da Castanheira para deixar o clima da India por ser muito nocivo á sua saude chegou a Lisboa e se incorporou na Serafica Provincia da Arrabida a 2. de Janeiro de 1701. Nesta virtuosa palestra continuou a observar exactamente o seu Instituto pedindo com afectuosas instancias o mandassem para o Convento da Arrabida apetecido centro da sua mortificada vida onde assistio pelo largo espaço de vinte e outo annos dos quaes desanove foy Porteiro. Acometido da ultima enfermidade veyo para a Enfermaria de Setuval, e depois de ter tolerado com catholica resignaçaõ acerbissimas dores em dous mezes, recebidos os Sacramentos expirou placidamente a 9. de Junho de 1730. quando contava 59. annos de idade. Com admiraveis prodigios obrados em beneficio de diversas pessoas quiz o Ceo testemunhar a virtude heroica deste servo de Deos os quaes se podem ler na 2. Parte da Chronica da Provincia da Arrabida liv. 5. cap. 37. e 38. Escreveo

Colleçaõ regular da explicaçaõ dos preceitos, e cousas mais essenciaes da Regra dos Frades Menores de N. P. S. Francisco, especialmente do Capitulo 4. Da mesma Regra segundo a mente dos Summos Pontifices e de S. Boaventura tirada de selectos Authores, que expoem o irrefragavel systema em que devem assentar todos os seus Professores para sua milhor inteligencia, e mais perfeita observancia. Lisboa pelos herdeiros de Antonio Pedrozo Galraõ 1747. 8.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]