Fr. MANOEL DA ESPERANÇA naceo na Cidade de Porto onde teve por pays a Domingos Esteves, e Veronica Vieira mais nobres, que opulentos. Admetido ao Serafico instituto da Provincia de Portugal competiraõ nelle com venturosa emulaçaõ a observancia Religiosa, e a capacidade litteraria da qual colheo repetidos aplauzos na Cadeira, principalmente quando sustentou humas Conclusoens em a Congregaçaõ Geral celebrada em Segovia no anno de 1621. Exercitou as Guardianias do Collegio de S. Boaventura em Coimbra, dos Conventos do Porto, e Santarem; os lugares de Secretario do Comissario Geral Fr. Martinho do Rozario, Vigario Provincial, e tres vezes Ministro Provincial em cujo governo varias vezes interrupto pela maliciosa industria de alguns subditos triunfou com prudente sagacidade das suas cavillaçoens reduzindo-os suavemente ao primitivo rigor do instituto Serafico. Mandou edificar o Convento da Villa de Thomar, o adro do Convento do Porto, e o Claustro do Convento de Telheiras em cujos marmores deixou gravada a memoria do seu nome sempre saudozo á Provincia de Portugal naõ sómente por estas religiosas fabricas, mas pela Historia que della escreveo naõ o movendo para taõ laboriosa empreza respeito (comõ diz no Prologo da 1. Parte n. 4.) algum de louvor humano, ou interesse, mais que de hum zelo puro da gloria de Deos, e honra desta Provincia. Para conseguir o fim de taõ nobre idea discorreo no anno de 1642. por todos os Conventos examinando com incansavel disvelo os archivos onde estavaõ reclusos os materiaes para a fabrica do edificio que pertencia levantar, de cuja investigaçaõ se seguio publicar a Historia Serafica da sua Provincia escrita com igual verdade que elegancia. A profunda intelligencia da Theologia acompanhada da conciencia timorata se manifestava nos votos em que era consultado evitando com escrupulosa cautela que o entendimento se naõ sobornasse da vontade nas materias de gravissimas consequencias. Cumulado de religiosas virtudes como de annos pois excediaõ de 84. falleceo piamente no Convento de S. Francisco da Cidade a 26. de Novembro de 1670. das 8. para as 9. horas da noute. No dia seguinte assistiraõ ao seu Funeral os principaes Cavalheiros da Corte, e os mais graves Regulares de todas as Communidades. Sobre a sua sepultura mandou pôr huma pedra branca seu grande amigo o Doutor Joaõ Carneiro de Moraes Chanceller mór do Reyno com o seguinte epitafio.

Admodum Reverendo Patri Fr. Emmanueli ab Spe hujus Provinciae Portugàlliae Religione, & virtute decori maximo, Ministro que Provinciali, ac Chronographo dignissimo, non ad memoriam libris immortalem, sed ad aeternum amicitiae monumentum hunc lapidem a se humilem, ab ossibus illustrem Doctor Joannes Carneiro de Moraes maximus Regni Cancellarius posuit. Obiit 26. Novembris anno Domini 1670.

Fazem illustre memoria do seu nome Franco Bib. Portug. M. S. Joan. Soar. de Brito  Theatr. Lusit. Litter. lit. E. n. 74. Vir pietate, & religione praestantissimus. Fr. Fernand. da Soled. Hist. Serafic. Part. 5. liv. 4. cap. 34. §. 1163. Por muitos titulos honrou a Provincia, assim no estado de subdito, como no de Prelado; assim na esfera das letras como na das virtudes sendo em ambas eminente, e em todas as boas partes insigne Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 1. p. 273. col. 1. D. Emman. Caiet. de Souza Expedit. Hispan. S. Jacob. Tom. 2. pag. 1313. § 3 3 7. Compoz

Historia Serafica da Ordem dos Frades Menores de S. Francisco na Provincia de Portugal. Primeira Parte que contem seu principio, o augmento no estado primeiro de Custodia. Lisboa na Officina Crasbeeckiana 1656 fol.

Historia Serafica &. Segunda Parte que contem seus progressos no estado de tres Custodias principio da Provincia, e reforma observante. Lisboa por Antonio Crasbeeck de Mello 1666 fol.

Historia Serafica 3. Parte. Deixou escritos para ella treze quadernos queconservava em seu poder Fr. Fernando da Soledade seu sucessor no lugar de Chronista como affirma na 5. Parte desta Historia 1. 4. c. 33. p. 797.

Exposiçaõ da Regra Serafica. Dividida em 5. Partes 1. dos Votos 2. Dos Preceitos. 3. dos Conselhos, e admoestaçoens 4. das liberdades, ou licenças 5. Dos casos reservados. Principia o Prologo. A importancia desta materia se collige da necessidade que tem os Frades de saberem o que pertence á obrigaçaõ do seu Estado. Conserva-se M. S. na Livraria do Convento de Lisboa.

Consultas Moraes. fol. M. S. Estaõ na mesma Livraria.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]