ANDRÉ FALCÃO DE REZENDE, formado em Direito Civil na Univ. de Coimbra, Juiz de Fóra em Torres Vedras e ultimamente Auditor da casa de Aveiro. Foi natural d’Evora, sobrinho do distincto antiquario André de Rezende e do chronista Garcia de Rezende. Teve particular tracto de amisade com Luis de Camões, a quem endereçou varias composições suas, e cuja superioridade se não pejava de reconhecer, fazendo n’isso honrosa excepção ao inqualificavel procedimento dos outros poetas contemporaneos para com o grande Epico. – M. em provecta edade, ferido do contagio que assolou Lisboa em 1598. Pouquissimo é o que em nome d’este auctor tem sido até agora impresso em portuguez; pois se limita a algumas composições insertas no livro que com o titulo de Relação do solemne recebimento que se fez em Lisboa ás reliquias que se levaram á Igreja de S. Roque publicou no anno de 1588 o P. Manuel de Campos.

É porém hoje havida incontestavelmente por sua uma obra, que ha mais 240 annos gosa da singular prerogativa de andar annexa ás de Luis de Camões, com quanto o mesmo editor que primeiro a publicou em nome d’este reconhecesse desde logo que ella lhe não pertencia (V. a este respeito a edição de Camões feita pelo P. Thomás José de Aquino, 1783, no tomo IV, pag. 9 a 13.) Todos os entendidos a tinham como espuria, fundando‑se não só na diversidade d’estylo, mas nos erros de metrificação em que abunda, provenientes sem duvida da copia viciadissima de que se serviu seu primeiro editor, o livreiro Domingos Fernandes: o proprio titulo corria alterado e inexacto, chamando‑se Poema da creação e composição do Homem, ao que seu verdadeiro auctor intitulara Microscosmographia, e descripção do mundo pequeno que é o homem. Um acaso feliz devia dissipar estas trevas, e restituir a paternidade da obra áquelle cuja era.

O professor do antigo Collegio das Artes em Coimbra, Joaquim Ignacio de Freitas (do qual tracto no logar competente) homem recommendavel por saber e amor ás letras e de probidade não contestada, em uma de suas excursões pela provincia do Minho descobriu casualmente n’uma botica, sentenciado a servir para n’elle se embrulharem os medicamentos, um manuscripto antigo (apographo) contendo as Obras do Licenciado André Falcão de Rezende natural d’Evora. Contente como é de suppor, com tal achado trouxe‑o comsigo para Coimbra e ahi tractava de o imprimir em 1829, tendo já obtido para isso as licenças necessarias. A morte que lhe sobreveiu pouco depois deixou sem effeito o seu projecto, e o manuscripto foi por elle, com outros papeis egualmente raros e curiosos, legado á Universidade.

Esta collecção soffrivelmente volumosa, segundo a descripção que d’ella vi ha annos em um periodico litterario d’esta capital, abrange alem da já citada Microscosmographia em tres cantos (o primeiro com 60 oitavas, o segundo com 72, e o terceiro com 75) mais 78 sonetos, 7 odes, 12 satyras, 5 epistolas, 1 epithalamio, 1 elegia, 7 estancias, 1 epigramma, 2 sextinas, 2 villancetes, 32 versões de outras tantas odes de Horacio, a traducção da satyra 9.ª do livro I do mesmo poeta, e varias prosas a diversos assumptos, entre as quaes se fez notar uma carta em que se descreve a vinda dos inglezes a Lisboa em auxilio de D. Antonio Prior do Crato, e pretendente á corôa de Portugal.

Todos os que ainda nos interessâmos pelas glorias da nossa boa litteratura folgámos com a apparição d’este pouco menos que desconhecido poeta quinhentista, e recebemos com alvoroço a noticia de que na Imprensa da Universidade se tractava de dar á luz o promettido volume das obras de Rezende. Nos proprios Catalogos publicados pela referida Imprensa tem‑se dado por vezes no prelo esta edição; porém não sabendo que ella se realisasse procurei informação do que havia a este respeito. Consta‑me agora por carta recebida do digno Prior da freguezia de S. Christovam d’aquella cidade, o sr. M. da C. Pereira Coutinho, que effectivamente principiara a imprimir‑se o inedito sob a direcção de uma commissão; mas que o falecimento de um dos membros d’esta, Joaquim Urbano de Sampaio, notavel por seus conhecimentos philologicos, e que se encarregara das annotações, ha sido a causa de que o trabalho esteja ha cinco annos sem algum adiantamento, e sem esperança de conclusão!

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]