D. FR. AMADOR ARRAEZ, Carmelita calçado, Doutor em Theologia pela Univ. de Coimbra, Coadjutor do Cardeal Rei D. Henrique quando Arcebispo d’Evora, seu Esmoler mór, e nomeado ultimamente Bispo de Portalegre em 30 de Outubro de 1581. Tendo exercido durante quinze annos as funcções episcopaes, resignou o bispado em l596, e recolheu‑se ao collegio da sua ordem em Coimbra, onde passou os ultimos annos de sua vida. – Foi natural da cidade de Beja, posto que alguns erradamente o julgaram de Coimbra. Não consta a data certa do seu nascimento, mas tendo professado a 30 de Janeiro de 1546 deveria nascer pelos annos de 1530, ou talvez antes. M. no 1.º de Agosto de 1600 – V. a sua biographia, publicada ultimamente no Panorama n.º 129 de 15 de Junho de 1844, alem das noticias que d’elle se encontram na Bibl. de Barbosa, e em outros auctores ahi apontados. – E.

272) (C) Dialogos. Coimbra, por Antonio de Mariz 1589. 4.º – Revistos e accrescentados pelo auctor n’esta segunda impressão. Coimbra, por Diogo Gomes Loureiro 1604. fol. de II‑307 folh. Sahiu posthuma, por ter falecido o auctor quatro annos antes. Finalmente sahiu em nova edição (é a terceira), Lisboa, na Typ. Rollandiana 1846. 4.º 2 tomos. A numeração n’esta edição passa não interrompida do primeiro para o segundo tomo, contendo ao todo XII‑886 pag. Foi ella feita sob a direcção e cuidado do zeloso bibliographo Antonio Manuel do Rego Abranches, e são d’elle o prologo e noticia que a precedem. Seguiu‑se em geral a segunda edição por haver sido esta reformada e accrescentada pelo proprio auctor com avantajada perfeição; mas aproveitaram‑se da primeira, por mais correcta, as alterações que pareceram convenientes e ajustadas á boa razão, as quaes se indicam em uma taboa de variantes posta no fim do volume.

Tanto a primeira como a segunda edição foram sempre procuradas, e tidas na conta de raras, desde muitos annos, mórmente a segunda, que era e é ainda a preferida. Os exemplares d’esta no estado de soffrivel conservação pagavam‑se ordinariamente por 6:400 réis, e ás vezes por mais. Hoje têem decrescido algum tanto de valor, para o que concorre em parte a existencia da terceira e correctissima edição. D’esta fez o corrector Abranches tirar para si dous bellos exemplares em papel de grande formato, que foram com a melhor parte dos livros da sua escolhida livraria comprados pelo tambem já falecido Joaquim Pereira da Costa.

Antonio Ribeiro dos Sanctos inadvertidamente (se não é erro typogranhico, o que tenho por mais certo) collocou em 1582 a primeira edição dos Dialogos, sendo ella de 1589 como acima digo. (V. as Mem. para a Hist. da Typ. Portugueza no seculo XVI a pag. 115.) Em outro descuido similhante incorreu o professor Pedro José da Fonseca, dando no Catalogo dos Auctores que vem á frente do tomo I (e unico) do Diccionario da Academia pag. LXI a dita primeira edição como feita em 1584.

Digamos agora alguma cousa sobre o merito litterario da obra. Todos os criticos são concordes em reconhecer no bispo Arraez um dos mais perfeitos mestres da lingua portugueza, e o melhor exemplar do estylo medio ou temperado. Os seus Dialogos gosaram sempre da maior estimação, por sua proveitosa doutrina; pela copiosa e escolhida erudição tanto sagrada como profana que n’elles se encerra; e finalmente pelo admiravel decoro e economia que o auctor soube guardar na sua composição, accommodando a cada um dos interlocutores discursos proprios, e adequados, com profusão de sentenças que não desdizem da profissão e indole dos sujeitos. Observa‑se n’elles mais facilidade e menos compostura que nos de Fr. Heitor Pinto. A phrase é sempre engraçada e formosa, correcta e purissima. O estylo corre fluente e ajustado aos differentes assumptos que se propõem; e posto que o seu caracter em geral seja o mediocre, eleva‑se ás vezes com magnificencia até á sublimidade, principalmente nos dialogos IV e VII. Parece‑me, pois, que o P. Antonio Pereira de Figueiredo commetteu uma grave injustiça quando concedeu ao bispo Arraez apenas o duodecimo logar na serie dos nossos primeiros classicos, tal qual elle a concebia e ordenava. Porém não é esta a unica vez em que a sua singular opinião n’estas materias se mostra em total discordancia com o pensar unanime de todos os philologos e criticos de melhor nota.

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]