D. FR. ALEXANDRE DA SAGRADA FAMILIA, chamado no seculo Alexandre da Silva, Missionario apostolico no seminario de Brancannes junto a Setubal, cujo instituto professou em 1761 sendo já Bacharel formado em Philosophia pela Univ. de Coimbra. Foi sagrado Bispo de Malaca em 1763, transferido passados annos d’esta para a diocese do Pará, e depois successivamente para as de Angola e de Angra, de que tomou posse, mas pouco tempo a governou, por lhe faltar a vida. – N. na ilha do Fayal a 23 de Maio de 1736, e m. em Angra, conforme uns a 24 de Março, e segundo outros a 23 d’Abril de 1818. Este prelado foi tio do Visconde de A. Garrett, que d’elle faz menção distincta em mais de um logar das suas obras. Foi tido no seu tempo por orador insigne, bom poeta, versado em toda a erudição sagrada e profana, e dotado de religiosas virtudes. – As poucas particularidades que ha recolhidas ácerca da sua vida podem ver‑se no Jornal de Coimbra, n.° 85 parte 2.ª, nas Observações criticas ao Ensaio de Balbi por Villela da Silva, e nos Estudos Biographicos de Canaes, pag. 161. Na Bibl. Nacional existe um retrato seu de meio corpo.

Não consta que em sua vida publicasse obra alguma pela imprensa, e muito menos com o seu nome. Dos seus escriptos, que se diz serem numerosos e em generos mui differentes, alguns têem apparecido posthumos, e disseminados por varias collecções periodicas, ou livros de outros auctores. Mencionarei os seguintes, de que até agora hei noticia.

229) Pastoral do Bispo d’Angra, dirigida á Reverenda Vigaria do Convento de S. João Evangelista de Ponta Delgada na ilha de S. Miguel. Sahiu no Investigador Portuguez, num. 68 de Fevereiro 1817, a pag. 488.

230) Pastoraes ao Clero da Diocese d’Angola e Congo. Sahiram no Jornal de Coimbra de 1820, n.°. 84 parte 2.ª, e 85 parte 2.ª Merecem ser lidas.

231) Epistola a Alcippe. Vem nas Obras Poeticas da Marqueza de Alorna tomo I, a pag. 213 e é assignada com o nome de Silvio.

Eu possuo, em copia manuscripta que adquiri ha annos, uma obra inedita d’este sabio bispo, com o titulo: Sermão do Corpo de Deus prégado no triduo em Beja (1776) sendo Missionario de Brancannes, seguido da contenda theologica que se levantou entre o auctor e o P. M. Fr. Bartholomeu Brandão, por motivo da censura que este lhe fizera sobre alguns pontos do mesmo sermão.

Garrett no prologo do tomo II do seu Theatro (e III das Obras) fala de uma traducção em verso da tragedia Merope de Maffei, que seu tio fizera, e lhe mostrara. Mas nem elle, nem algum outro, nos indicaram até agora o destino que levariam por morte do bispo este inedito, e as demais composições e papeis seus.

A pessoas respeitaveis por seu saber, e que alias se dizem bem informadas, tenho ouvido affirmar e sustentar por differentes vezes com a maior tenacidade, que os poemas Camões, D. Branca, Retrato de Venus, e os dramas Catão e Merope eram tudo obras de D. Alexandre, as quaes seu sobrinho se apropriara, dando‑as á luz em seu nome, e arvorando‑se em auctor d’ellas quando não passava de mero editor dos alheios trabalhos. Bem longe de dar assenso a tal opinião, que sobre ser offensiva para a memoria do illustre poeta, me parece ser um paradoxo destituido de qualquer fundamento solido, ou plausivel, aqui lhe dou comtudo logar, simplesmente como anecdota litteraria, tanto mais que ella não será talvez nova para boa parte dos leitores.

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]