D. MANOEL DE MENEZES, Senhor do Reguengo da Maya, Commendador das Commendas de S. Salvador de Vargeas de Arouca, e de S. Martinho das Treixedas da Ordem Militar do Christo, General da Armada Real, Chronista mór, e Cosmografo mór do Reyno, naceo em a Villa de Campo-Mayor da Provincia Transtagana onde teve por Progenitores a D. Joaõ de Menezes filho de D. Manoel de Menezes Camareiro mór do Infante D. Duarte Duque de Guimaraens, e a D. Magdalena da Sylva filha de D. Luiz da Sylva Capitaõ de Tangere, e de D. Maria Brandaõ. Desde os primeiros annos cultivou com tanta aplicaçaõ as letras como que naõ havia de manejar as Armas. Aprendeo as disciplinas Mathematicas com o P. Delgado discipulo do insigne P. Christovaõ Clavio em que fez admiraveis progressos a sua comprehensaõ. Da Musica penetrou os armonicos preceitos, como da Poezia o metrico artificio, e como naõ era muito feliz a sua Musa amou mais a arte que o seu exercicio. Do estudo da Genealogia foy muito curioso principalmente das Familias Portuguezas chegando a tal exame esta sua aplicaçaõ que dizia, desejar ter officio de casar os homens de Portugal, porque só elle lhes poderia dar a cada hum mulher que lhe competisse. Da Historia Romana, e Grega em cujo idioma era perito, teve profunda instruçaõ distinguindo entre os Historiadores Latinos a Tacito, e entre os Gregos a Tucidedes. Podendo pelas sciencias de que era deposito o seu grande espirito deixar eternizado o nome anhelou a collocarse entre os Heróes pelas armas, sendo o prologo da sua vida militar quando na Armada Ingleza veyo embarcado em favor do Senhor D. Antonio Prior do Crato pertencente da Coroa Portugueza. Nesta jornada se habilitou para quatro vezes exercitar o posto de Capitaõ mór das Naos da India sendo a primeira no anno de 1581 em que triunfou heroicamente dos Malabares; a segunda no anno de 1609 capitaneando sinco Galeoens; a terceira no anno de 1614 em que infelizmente arribou a Lisboa, e a quarta no anno de 1616 em que depois de pelejar intrepidamente com quatro Naos Inglezas naufragou na Costa da Ilha de S. Lourenço donde surgio em Goa. Assistindo na Corte de Madrid passou a Pariz em companhia do Duque de Pastrana seu parente quando com o caracter de Embaxador de Filippe III. partio a concluir os desposorios entre as duas Coroas Castelhana, e Franceza. Retirado a huma dilatada quinta que possuia em Campo-Mayor solar da sua Casa renovou os seus antigos estudos em premio dos quaes foy nomeado Chronista mór do Reyno no anno de 1628, e do lugar de Cosmografo mór, que vagara por Manoel de Figueiredo discipulo do famoso Pedro Nunes. Do ocio literario em que estava foy obrigado a largar a penna, e empunhar a espada governando com o posto de General a Armada que constava de vinte seis navios guarnecidos de quatro mil homens, com a qual se restaurou no anno de 1625 a Bahia do violento dominio dos Olandezes, em cuja heroica empreza adquirio novos tymbres ao seu nome venerado por vigilante Capitaõ, valeroso Soldado, e destro mareante. Voltando ao Reyno taõ cheyo de gloria naõ recebeo premio correspondente ao seu merecimento desejando unicamente o Governo do Reyno do Algarve para viver como elle dizia, abraçado com os livros, e os seus compassos. Tanto era o amor que professava ás sciencias que tinha determinado abrir huma Aula de Cosmografia em o Real Convento de S. Vicente de Fóra para a qua1 convidava solicito aos seus amigos. Sendo mandado no anno de 1626 conduzir as Naos, que vinhaõ da India governadas pelo Capitaõ mór Vicente de Brito de Menezes, sahio acompanhado de muita Fidalguia na Capitania, e Almirante com os navios S. Jozé, San-Tiago, S. Filippe, e S. Isabel, os quaes todos com os dous que vinhaõ da India naufragaraõ lastimosamente na Costa de França em 15 de Janeiro de 1627. A fatalidade deste socesso vaticinou como experimentado General escrevendo a ElRey huma carta em 25 de Dezembro na qual lhe dizia. Com tudo, Senhor, por seguir a estes cegos vou perderme com elles julgando ser assim mayor serviço de V. Magestade, e honra minha que escapar para ouvir sua triste sorte, e dar a V. Magestade (ainda que sem culpa) taõ ruim conta das armas, que me tem encarregado. De França passou a Madrid a informar a ElRey da fatal perdiçaõ da Armada, e voltando a Portugal passados poucos dias falleceo a 28 de Julho de 1628. Foy duas vezes casado, a primeira com D. Luiza de Moura filha herdeira de Francisco de Moura, e D. Maria de Castro de quem teve a D. Joaõ de Meneses que naõ deixou successaõ, e a segunda com D. Maria de Castro filha de D. Antonio de Mendoça, Commendador de Moura, Senhor de Marateca, e de D. Anna de Castro. Celebraõ o seu nome graves Escritores com grandes elogios. Francisco Manoel de Mello Epanaf. de var. Hist. pag. 269. Sendo elle em Portugal, e qualquer outro Reyno da Europa hum dos Varoens, que milhor juntaraõ neste tempo a profissaõ de letras, e armas, e pag. 271. pode estimarse por hum dos grandes homens, que deu Portugal de muitos tempos a esta parte, porque em caridade, meritos, e virtudes se igualou aos mayores de que temos lembrança, e na Carta 1. da Cent. 4. das suas Cartas. Foy excellente na inteireza, e brevidade do estylo por imitar em tudo ao seu Tucidides. Lima Succes. de Portug. cap. 41. Bom soldado, e experimentado. Fr. Gio. Giusep. di S. Teresa Hist. del Brasile. Part. 1. liv. 2. p. 66. Signore di alto nacimento, e igual esperienza. Jorze Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 1. p. 540. no Comment. de 28. de Fev. letr. E. mais illustre, e valeroso, que felice. Manoel de Faria e Sousa. Asia Portug. Tom. 2. Part. 3. cap. 20. n. 5. E Tom. 3. Part. 1. cap. 1. n. 6. e Part. 3. cap. 2. n. 14. Lusidissimo Cavallero. Brito Freire Nova Lusit. liv. 2. n. 188. O General D. Manoel de Menezes que por naturaes partes, e adquiridas experiencias antes de ser elegido da ordem real, era já nomeado do aplauso comum para tamanho cargo onde nas virtudes do animo, e nos disfavores da fortuna logrou, e padeceo huma singularidade extraordinaria. Joan. Soar. de Brito Theatr. Luit. Litter. lit. E. n. 56. Salazar Hist. Gen. de la Casa de Sylv. liv. 6. cap. 33. Souza Hist. Gen. da Cas. Real Portug. Tom. 5 . liv. 6. p. 390. Desde os primeiros annos deu mostra de grande aplicaçaõ ás boas letras, de sorte que sendo herdeiro da sua Casa estudada como se naõ houvera de ter mais emprego de que o de professor de Litteratura, e no Apparat. á mesma Hist. Gen. p. 61 § 43. Varaõ grande em sciencias, talento, e valor. Compoz

Relaçaõ do successo, e batalhas que teve com a Nao S. Juliaõ com a qual sendo Capitaõ mór daquella viagem se perdeo na Ilha do Comoro além de Madagascar, ou S. Lourenço no anno de 1616. Escrita em lingua Latina, e Portugueza, e impressa como diz D. Francisco Manoel de Mello Epanaf. de var. Hisp. p. 268. e 269. a quem fielmente segue nesta asserçaõ o P. Sousa Hist. Gen. Da Cas. Real Portug. Tom. 5. p. 393.

Relacion de la Armada de Portugal del año 1626. que hizo, y firmò de su nombre D. Manoel de Menezes General della. Lisboa por Pedro Crasbeck. 1627. 4.

Relaçaõ da Restauraçaõ da Bahia em o anno de 1625. Escrita no mar, e no porto, por ordem de S. Magestade. 4. M. S.

Chronica delRey D. Sebastiaõ. M. S. Esta obra que determinava publicar seu Autor a deixou imperfeita obrigado do preceito Real, como escreve D. Francisco Manoel Epanaf. de var. Hist. p. 268. e della faz memoria o Licenciado Jorze Cardoso. Agiol. Lusit. Tom. 2. p. 451. letr. G. O Original se conserva no Real Convento de Alcobaça donde trascreveu muitas noticias o P. Fr.  Manoel dos Santos Monge Cisterciense Chronista do Reyno na sua Historia Sebastica, principalmente a pag. 58. 74. 90. 108. e 205. em que allega com os capitulos da dita Chronica. No anno de 1730. sahio huma Chronica delRey D. Sebastiaõ, impressa na Officina Ferreiriana com o nome de D. Manoel de Menezes naõ sendo certamente sua, mas do P. Jozé Pereira Bayaõ formando este volume de diversas memorias que juntou, até que no anno de 1737 sahio com a Historia delRey D. Sebastiaõ, que intitulou Portugal Cuidadoso, e Lastimado, &c. como em seu lugar se fez mençaõ, e nella collocou os successos, e outras mais noticias que tinhaõ sido impressos na Chronica de D. Sebastiaõ falsamente atribuida a D.  Manoel de Menezes.

Familias de Tellos, e Menezes. 2. Tom. fol. Esta obra escrita da sua propria maõ ficou em poder de sua segunda mulher D. Maria de Castro que a deu a seu Primo, e cunhado D. Antonio Mascarenhas Commendador de Castello-Novo, e dos Maninhos em a Ordem de Christo, hum dos primeiros Aclamadores da liberdade Portugueza em o anno de 1640, que casou com D. Isabel de Castro irmã de D.  Maria de Castro.

Parecer que deu a Felippe III. de Portugal sobre a causa da perdiçaõ das Naos da India, e o meyo que deve aplicarse para se aviar gente do mar para a navegaçaõ. Começa. O Marquez de Castello Rodrigo, Vice-Rey de Portugal, me escreveo do governo, &c. Acaba. Isto he o que entendi, V. Magestade ordenará, e mandarà o mais acertado, e que mais convier a seu Real serviço. Em Lisboa a 10 de Junho de 611. D. Manoel de Menezes. O Original escrito em vinte e cinco laudas de folha se conserva na Livraria do Illustrissimo e Excellentissimo Marquez de Valença onde o vimos.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]