P. MANOEL DE SÁ, naceo no lugar de Peredo termo da Villa da Torre de Moncorvo em a Provincia Transmontana a 22 de Março de 1658, onde teve por Progenitores a Antonio Cabral de Mesquita Capitaõ mór da Villa da Alfandega da Fé, e Ursula Diniz. Frequentando na idade de desasete annos a primeira Classe do Collegio de Braga dos Padres Jesuitas se acendeo no virtuoso dezejo de seguir este instituto, e precedendo o exame da sua capacidade, e madureza da sua eleiçaõ vestio a roupeta em o Noviciado de Coimbra a 13 de Fevereiro de 1675 onde praticou exactamente os preceitos religiosos. Admitido á profissaõ dos tres votos simples a 14 de Fevereiro de 1677 passou para o Collegio de Evora onde aprendeo Poetica, e Rhetorica, como tambem Filosofia, em que sahio egregiamente instruido. Alcançada faculdade dos superiores partio para a India a proseguir a cultura Evangelica, da qual fora primeiro Agricultor S. Francisco Xavier, e sahindo de Lisboa a 2 de Abril de 1680 com desanove companheiros chegou felizmente a Goa onde consumados os seus estudos dictou letras humanas, e Filosofia de cuja faculdade naõ sómente teve por ouvintes os seus domesticos, mas particularmente instruio nella ao Governador do Estado D. Rodrigo da Costa. Por outo annos continuos leo Theologia Escholastica, e Moral com grande opiniaõ da sua literatura. Naõ se coarctou o seu talento ás difficuldades Theologicas extendeu-se pela dilatada esfera de hum, e outro Direito, e da feliz uniaõ de tantas sciencias se seguio ser consultado como Oraculo de todo o Oriente. Para o ministerio do pulpito o ornou a natureza de todos os dotes imitando com taõ vivas cores ao P. Antonio Vieira Principe da eloquencia Ecclesiastica, que muitas vezes se equivocava a copia com o Original. Eleito Preposito da Casa Professa de Goa experimentaraõ os subditos benevolencia de Pay, e sendo Parocho das Igrejas de Sanquali, S. Thomé, e Murmugaõ na Ilha de Salcete tiveraõ os pobres nas suas necessidades oportuno remedio chegando algumas vezes a privar-se de cama, e alimento para os socorrer. No Reino do Sunda fundou hum Templo á Conceiçaõ de MARIA Santissima, e converteo innumeraveis almas ao conhecimento do verdadeiro Deos. No espaço de 28 annos que exercitou o lugar de Deputado do Santo Officio em que fora creado no anno de 1700 pelo Illustrissimo Inquisidor Geral D. Fr. Jozé de Alencastre deu a conhecer o Vigilante ardor da conservaçaõ da Fé pura, e da reforma dos costumes licenciosos. Naõ foy menor o seu zelo em obsequio do Estado valendo-se os Vice-Reys do seu prudente conselho para a conclusaõ das mayores emprezas. Acompanhou ao Conde de Alvor na jornada de Pondá, e na expediçaõ á Ilha de Santo Estevaõ contra as armas do Sevagi onde tanto se expoz ao perigo que huma bala de espingarda lhe levou o barrete, e outra o ferio em huma coxa. O Vice-Rey Conde de Villa-Verde, depois Marquez de Anjeja o mandou á China porém naõ passando de Macáo servio ao Estado em Malaca, Batavia, Columbo, e Ilha de Ceilaõ tratando com os Olandezes possuidores destas terras negocios muito convenientes á Naçaõ Portugueza. Com o caracter de Embaixador ao Graõ Mogor, foy mandado pelo Vice-Rey Caetano de Mello e Castro para celebrar perpetua paz com este poderosissimo Principe da Asia, mas naõ chegou a Agra sua Corte por ser preso pelos Barbaros por espia, e esteve condenado ao patibulo, se o naõ livrara hum mouro que tinha favorecido em Goa. Tanta era a estimaçaõ, que Caetano de Mello fazia da sua pessoa, que partindo para Portugal o elegeo por Confessor, e chegando felizmente a Lisboa a 4 de Novembro de 1709 nella recebeo os applausos devidos ao seu grande talento. Certificado o nosso Monarcha dos seus merecimentos o nomeou Patriarcha de Etiopia a 4 de Abril de 1709, e sahindo de Lisboa com seis Missionarios chegou a Goa, onde foy recebido com a veneraçaõ que lhe conciliaraõ as suas acçoens illustradas com a nova dignidade. Com o mesmo disvelo proseguia nas emprezas que lhe commetiaõ os Vice-Reys Francisco Jozé de Sampayo, D. Luiz de Menezes, Conde da Ericeira, e Joaõ de Saldanha da Gama mostrando sempre ardente zelo, invencivel animo, e coraçaõ heroico. Instituida a Academia Real da Historia Portugueza foy eleito Academico Supranumerario de cuja eleiçaõ expressou o agradecimento em huma carta escrita a 20 de Janeiro de 1722 ao Secretario da Academia o Excellentissimo Conde de Villar Mayor Manoel Telles da Sylva depois Marquez de Alegrete. Segunda vez deixou Goa partindo para Portugal em o anno de 1727, onde chegou a 18 de Dezembro sendo estimado das primeiras Pessoas pela sua discreta conversaçaõ, e prudente juizo. Passados poucos dias de assistencia no Collegio de Santo Antaõ, foy assaltado de huma arrebatada doença maligno effeito do veneno que bebeo na India, ou por erro da ignorancia, ou por industria da malicia. Conhecendo a gravidade do perigo recebeo o sagrado Viatico de joelhos em o seu cubiculo, e a Extrema Unçaõ com tal acordo que respondia ao Sacerdote, que lhe administrava. Ultimamente resignado catholicamente entregou o espirito a Deos em 22 de Abril de 1728, quando contava 70 annos, e hum mez de idade, 53 de Companhia, e 19 de Patriarcha nomeado. Á sua memoria dedicou hum largo, e elegante Panegyrico o R. P. D. Manoel Caetano de Sousa Pro-Commissario da Bulla da Cruzada, e Censor da Academia Real o qual nella recitou, e sahio publico na Colleçaõ dos Documentos da mesma Academia do anno de 1727. Faz mençaõ da sua pessoa o Padre Antonio Franco Imag. da Virt. do Novic. de Lisb. p. 975.

Compoz

Sermoens varios, prégados na India a varios Assumptos. Lisboa, por Antonio Pedroso Galraõ. 1710. 4.

Relaçaõ da expediçaõ do Vice-Rey Frãcisco Jozé de Sampayo contra o Angarià. M. S. 4.

Historia do memoravel cerco de Mombaça onde se relata a morte do Vice-Rey Frãcisco Jozé de Sampayo, succedida em 12 de Julho de 1723. 4.

Estas duas obras remeteo á Secretaria da Academia Real em que desempenhava a merecida eleiçaõ que fizera de seu Collega; e se conservaõ M. S. na mesma Secretaria.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]