FR. AFFONSO DA MADRE DE DEOS GUERREYRO, chamado no seculo Affonso Guerreyro de Brito, naceo na Cidade de Evora, e na Freguesia de Santo Antaõ recebeo a graça bautismal a 12 de Setembro de 1676. Foraõ seus Pays o Doutor Bartholomeu Gomez de Brito, e Escholastica de Souza Rolaõ. Depois de aprender Gramatica em a Universidade da sua pátria passou a Lisboa em o anno de 1692 onde preferindo o exercício das armas ao das letras assentou praça de Soldado, e embarcando-se em a Náo de Guerra, de que era Capitaõ Gaspar da Costa Attaide, comboyou as Frotas, que da America vinhaõ para a Cidade do Porto. Aspirando o seu natural valor a mais gloriosas empresas se resolveo passar à India, e sendo despachado com o habito de Christo a 23 de Março de 1698 partio com o posto de Alferes de Infantaria da Companhia de Luiz Ferreira de Noronha em a Náo S. Pedro Gonçalves a 26 de Março de 1698. Chegando a Goa a 14 de Setembro deste anno o nomeou Capitão em huma Manchua o Vicerey do Estado Luiz Gonçalves da Camara Coutinho. Embarcouse na armada, que navegou ao Norte, de que era General Francisco Pereira da Sylva, e discorrendo pelas Praças de Chául, Baçaim, e Dámaõ partio por ordem do Secretario de Estado para a Persia, donde restituido a Goa foy eleito Capitão da Náo de socorro, que pedia o General de Timor, e Solor Antonio Coelho Guerreiro, cuja expedição se desvaneceo por chegar o novo Vicerey Caetano de Mello, e Castro, que o proveo em Capitaõ em a Praça de Baçaim, que não aceitou por ter resoluto alistarse em outra mais ilustre milícia, qual foy a reformada Provincia da Madre de Deos, recebendo o Serafico habito a 19 de Dezembro de 1703 das mãos do Vem. Padre Fr. Antonio de JESUS. Feita a profissão solemne se aplicou aos estudos da Filosofia e Theologia em o Convento de Nossa Senhora do Cabo, e depois de completa esta laboriosa carreira recebeo a patente de Prégador. Conhecendo os Prelados o grande zelo, e actividade, com que servia a sua Religião, o nomearão Procurador Geral, e Comissario em Portugal, para cujo fim partio de Goa a 21 de Janeiro de 1711 e chegando a Lisboa a 4 de Outubro do dito anno foy o primeiro, que alcançou faculdade Regia para mandar Religiosos para a sua Provincia, merecendo por estas sagradas expediçoens executadas nos anos de 1714, 1716, 1721, 1726 e 1735 multiplicados elogios do Reverend. Geral da Ordem Serafica Fr. Affonso de Biesma, e dos Provinciaes, e Definitorio da sua reformada Provincia. Em remuneração dos preciosos Manuscriptos, e veneráveis documentos, que a sua incansável diligencia investigou para a Academia Real, o elegeo seu Collega supranumerário sendo o seu mayor empenho, comunicar a todos os eruditos as grandes, e recônditas noticias, que estaõ depositadas na sua selecta Livraria, a cuja liberal beneficência me confesso sumamente agradecido. Escreveo para uso de seu Irmão, o Reverendo Manoel Guerreiro de Brito, Doutor na Sagrada Theologia, e Conego na Cathedral de Evora. Instrucção, e modo pratico para se fazerem os exercícios espirotuaes por tempo de outo dias repartido em 4 partes. Na primeira; tratase da utilidade dos exercícios espirituais, e modo com que se devem fazer. Na segunda; da natureza, necessidade, e modo com que se deve fazer a Oração mental. Na terceira, da necessidade, e modo com que se deve fazer a Confissão geral: e na quarta, das meditaçoens mais proporcionadas para outo dias, distribuídas para todo o estado de Pessoas, 4 M. S. Fazem honorifica menção da sua Pessoa Francisco Leitão Ferreira, Notic. Chronol. da Universidade de Coimbra, pag. 390 & 847; O Padre D. Manoel Caetan. de Sous. Cathal. Hist. dos Pontific. Card. e Bispos Portug., pag. 148, 231, 237, 249; Fr. Manoel de Saá, Mem. Histor. dos Escrit. De Carm., pag. 10 n 11; e meu Irmão D. Joseph Barbosa no Prolog. do Cathalog. das Rainhas de Portugal, todos Academicos da Academia Real.

 

[Bibliotheca Lusitana, Historica, Critica e Chronologica, vol. 1]