D. AFFONSO SANCHES, que com o seu nacimento ilustrou a Provincia de Entre Douro, e Minho, foy o primeiro filho, que em o anno de 1286 teve D. Diniz 6 Rey de Portugaç de D. Aldonça Rodrigues de Sousa, ou da Telha, como lhe chama seu filho o Conde D. Pedro no seu Nobiliario Tit 36 e 57. Pellos singulares dotes do corpo, e do espirito, com que foy ornado, mereceo os mayores affectos de seu Pay, de que se originaráõ os tumultos populares contra a sua pessoa, dos quaes foy author o Principe D. Affonso excessivamente escandalizado de que sendo ducessor da Coroa lhe preferisse a seu Irmão natural, em tantas demonstraçoens de amor, e estimação. Certamente naõ hove argumento algum de finesa, que ElRey com elle naõ praticasse nomeando-o com exemplo até entaõ raramente visto, seu Mordomo Mór, e Senhor da Villa de Conde, Campo mayor, Varazim, Povoa, Touguinha, e outros lugares. Naõ satisfeito com estas doaçoens lhe deu por consorte, em o anno de 1304 a D. Theresa Martins filha de D. Joaõ Affonso de Meneses Conde de Basrcellos, e Senhor de Albuquerque, e de sua primeira mulher D. Theresa Sanches, filha natural de D. Sancho IV de Castella; posto que D. Luiz Salazar, e Castro nas Glor. da Casa Farnes pag. 577 naõ admitindo, que tivesse D. Joaõ Affonso de Meneses successaõ da primeira mulher affirma, que fosse filha de sua segunda mulher D. Maria Cornel filha de D. Pedro Cornel Procurador Geral de Aragaõ primeiro Senhor de Aljafarim, e de sua mulher D. Urrac de Artal y Luna. Morto ElRey seu Pay sucedendo no trono D. Affonso seu Irmaõ rompeo contra elle em furiosos excessos dictados pelo odio, que alimentava no peito, mandando sequestrarlhe todos os bens, que possuía, e declarando-o por editaes públicos inimigo da Patria. Constrangido de tantas violências fulminadas pelo furor de seu Irmaõ se retirou para a Villa de Albuquerque, que lhe deixára seu sogro, a qual se pode justamente gloriar de que fosse novamente por elle edificada, fortificando-a com muros, torres, e hum Castello inexpugnável, em cuja porta está gravado o brasaõ das suas Armas, que igualmente publicaõ o nome do Fundador, com o dia, e anno da fundação, que foy a 4 de Agosto de 1314. Para de algum modo vingar as injurias, que injustamente recebera de seu Irmaõ, entrou armado por Portugal executando aquelas hostilidades, com que podia satisfazer a sua cólera, até que por intervenção delRey de Castella foy restituído à graça de seu Irmaõ, e à posso de todos os bens, que lhe tinhaõ sido usurpados. Foy insigne em todo o género de virtudes dignas de hum Principe ; liberal para todos, afável para os domésticos, e estranhos; religiosos para Deos, e seus Santos. Exhortado por hum mysterioso sonho fundou o Convento de Villa de Conde, de que era Senhor, para Religiosas de Santa Clara, o qual alem de o edificar desde os fundamentos, o dotou com grande profusaõ em 7 de Mayo de 1318. Pagou o tributo de mortal no anno de 1329 conforme a meljor conjectura, e está sepultado com sua nobilíssima Esposa no Convento de Villa de Conde com opinião imemorial de Virtuosos, recorrendo à sua sepultura varias Pessoas dos lugares circumvesinhos para implorar remedio às suas afflicçoens. As Religiosas do Convento recebem da sua protecçaõ, pertenderaõ, que se beatificassem as suas virtudes, para cujo fim escreveo, e imprimio no anno de 1726 o Padre Fr. Fernando da Soledade, Chronista da Religiaõ Serafica da Provincia de Portugal, e Academico da Academia Real hum Memorial para constar na Curia Romana a sua heroica Santidade. O sepulchro, em que jazem os seus Corpos, he fabricado de obra, ainda que antigua, primorosa, e permanecendo muitos anos fora da Igreja, se abrio depois hum Arco da Capella, em que ficou dentro recolhido, no qual se lé o seguinte Epitafio: Em esta Capella jazem o muito esclarecido Principe D. Affonso Sanches filho delRey D. Diniz de gloriosa memoria Sexto Rey de Portugal com a muuto excelente Madama D. Tareja Martins netta delRey D. Sancho, fundadores desta Santa Casa, a qual mandou fazer a muito virtuosa Senhora D. Isabel de Castro primeira Abbadessa deObservancia desta Santa Casa em 1526. Foy D. Affonso Sanches sumamente inclinado às sciencias, e principalmente à Poesia, em que conforme o estilo daqueles tempos foy elegantíssimo, e como tal numerado por Manoel de Faria, e Sousa no Epit. da Hist. Portug., part. 4, cap. 18 e Fr. Fernand. da Soled. Hist. Seraf. da Prov. de Portug. novamente correct. e addicionad., part. 3, liv. 13, cap. 7 entre os Poetas insignes deixando composto: Varios versos, 1 Tom. M. S. Delle, e de suas acçoens fallaõ mais difusamente Brand. Mon. Lusit., part. 17, cap. 2 e 49. Brito Elog. dos Reys de Portug., pag. 53. Manoel de Faria, e Sousa Epit. das Hist. Port., part. 3, cap. 7. Albuquerque Comment., part. 4, cap. 50. Cardos. Agiol. Lusit., tom 1, pag. 8 no Comment. do 1 de Jan. let. D. F. Leaõ de S. Thom. Bened. Lusit., tom 1, part. 1, cap. 9. Fr. Manoel da Esperança Hist. Seraf. de Prov. de Portug., part. 2, liv. 8, cap. 1 n 2 e cap. 6 n 3. Wading. Annal. Ord. Min. ad ann. 1318 n 44, Joan. Soar. de Brit. in Theat. Lusit. Litter. lit. A n 16. F. Fernand. da Soled. Memorial dos Inf. de Portug. per tot. Sous. Hist. Gen. da Casa Real de Portug., tom 1, liv. 2, cap. 1, pag. 239.

 

[Bibliotheca Lusitana, Historica, Critica e Chronologica, vol. 1]