AFFONSO V do nome, e XIII Rey de Portugal chamado Africano pelas militares façanhas, que obrou em toda Africa. Sahio à luz do mundo na deliciosa Villa de Cintra a 15 de Janeiro de 1432 com excessivo jubilo de seus augustos Pays D. Duarte, e D. Leonor, e de toda a Monarchia Portugueza. Ainda naõ contava completos sete anos quando herdou a Coroa, e como para sustentar o seu pezo, tinha pouco robustos os hombros, foy eleyto por geral consentimento seu Tio, e ao depois sogro, o Infante Pedro Duque de Coimbra para que na sua menoridade regesse a Monarchia, o que executou com prudente vigilância por espaço de outo anos, até que chegando ElRey a idade competente lhe entregou com o Scetro o governo. Naõ foy bastante o zelo, e desinteresse com que o Infante administrou a Monarchia para que naõ se conspirasse contra a sua innocencia o odio dos seus émulos, persuadindo a ElRey que pretendia ambiociosamente privallo do trono. Resolveose o Infante justificar a sua fidelidade na presença de ElRey, mas como este estava preocupado de sinistras informaçoens, fulminou contra elle tudo quanto lhe dictava o seu furor manchando com acção taõ exacranda o prologo do seu Reynado, até ser causa de que acabasse infelizmente a vida, merecedora de mais glorioso fim nos campos de Alfarrobeira. Estimulado com o ardente dezejo de ganhar fama, que o fizesse imortal na posteridade escreveo no anno de 1457 ao Pontifice Calixto III para que colegasse todos os Principes Catholicos contra o Turco, oferecendo para esta empresa a sua Pessoa com todas as forças militares do seu Reyno. Admirouse o Pontifice de tão generosa oferta, pois toda cedia em obsequio da Religião, porem os Principes com mayor politica, que Christandade naõ quizeraõ interessarse em guerra taõ justa, somente o nosso Monarcha naõ desistindo do Catholico intento de domar o orgulho dos Sequazes de Mafoma, mandou voltar as proas da formidável armada, que tinha aprestado contra Alcacer Seguer, a qual constava de duzentas, e vinte vellas, e de vinte mil Soldados, e depois de huma forte resistência a rendeo ao seu domínio no memorável dia de 17 de outubro de 1458. Acompanhado de seu irmão D. Fernando Duque de Viseu entrou na Mesquita, e depois de purificada, a consagrou à Immaculada Conceiçaõ da Senhora, e para que naõ pudesse ser invadida pelos bárbaros huma Praça, que fora expugnada com tanta gloria, a deixou entregue à vigilância do insigne Capitaõ D. Duarte de Menezes, que brevemente mostrou aos inimigos o valor da sua espada. Esta famosa conquista, que foy o preludio das militares proezas do nosso Principe o estimulou a que no anno de 1463 sahisse com outra armada contra Tangere, mas naõ experimentando a fortuna taõ favorável às suas armas, como na expedição de Alcacer, voltou ao Reyno a prepararse para oura Conquista em que restaurasse a gloria que perdera. Para este fim aprestou huma armada de trezentos, e vinte Navios guarnecidos de vinte, e quantro mil Soldados, em a qual sahio acompanhado de seu filho o Principe D. Joaõ a 15 de Agosto de 1471 e navegando prosperamente avistou a Praça de Arzilla, contra a qual mandou assestar toda a artilharia, para que logo se rendesse à sua obediência. Os bárbaros, que a presidiavão, se defendiaõ tão obstinadamente, que por alguns dias fizeraõ impossível a expugnação, até que não podendo resistir à fulminante espada do nosso Principe se renderaõ, sendo feliz consequência de taõ grande conquista o rendimento da Praça de Tangere, que guarneceo com numeroso presidio. Depois de ter colhido inumeráveis palmas nos Campos Africanos converteo as armas para Espanha com taõ infausto successo, que foraõ vencidas na celebre batalha de Toro. Para recuperar esta perda, que julgava por ignominiosa ao seu nome, passou a França lisonjeado das promessas de Luiz XI mas experimentando, que a dilação, que impunha, era sinal evidente de as naõ cumprir, se resolveo acabar a vida em Jerusalem no lugar, onde o Redemptor do mundo deu a sua pela liberdade dos homens, porém atrahido do amor dos seus Vassallos se restituhio ao Reyno, onde compostas as discórdias, que havia entre a Coroa Portugueza, e Castelhana se sentio fortemente acometido de algumas moléstias, que atormentandolhe o corpo lhe penetravaõ mais o espirito, de que se segui cahir gravemente enfermo, e conhecendo ser chagada a ultima hora, recebidos com grande piedade os Sacramentos espirou em Cintra na mesma Casa onde nascera a 28 de Agosto de 1481 quando contava 49 annos 7 mezes, e 13 dias de idade, dos quaes reynou 42 annos, onze mezes, e 19 dias. Casou com a Infanta D. Izabel filha de seu Tio, o Infante D. Pedro Duque de Coibra, e da Infanta D. Izabel filha de D. Jayme II Conde de Urgel, de quem teve três filhos aos quaes pela grande devoção, que a Rainha sua Mãy tinha ao Apostolo S. Joaõ lhes impoz a todos o nome deste amado Evangelista; sendo o primeyro o Principe D. João; o segundo a Infanta D. Joanna, que desprezando o thalamo de três Monarchas se desposou com Christo no Religioso Convento das Dominicas de Aveyro, a qual pelas suas virtudes, e milagre se venera Beatificada nos altares; e o terceiro o Principe D. João, que herdou a Coroa. Por morte da Rainha D. Izabel sucedida a 2 de Dezembro de 1455 passou a segundas vodas no anno de 1475 com a Princeza D. Joanna sua sobrinha filha de Henrique IV e herdeira da Coroa de Castella sendo por esta causa aclamado o nosso Principe por Monarcha daquele Trono. Teve o corpo grande, e rebusto; a presença magestosa, e agradável; o rosto redondo, cabelo castanho, e o da barba comprido, que sempre trazia muito composto. Foy dotado de memoria admirável, e engenho agudo. Fallou a língua materna com tanta pureza e elegância, que pareciaõ as suas palavras estudadas antes de proferidas. Teve natural inclinação às letras, e com particular affecto estimava aos homens eruditos, com os quaes tinha familiar comercio. Foy o primeiro dos nossos Principes, que juntou Livraria, e que ordenou se escrevessem na língua latina as Historias do Reyno, para cujo efeito mandou vir de Italia a Fr. Justo Baldino Religioso Dominico, a quem fez Bispo de Ceuta. Igualmente foy perito na Mathematica, que na Musica, de cuja suavidade sumamente se deleitava. Foy acérrimo defensor da Fé Catholica, insigne venerador do culto divino; de animo compassivo para com os pobres, de caraçaõ generoso para os Fidalgos enobrecendo o Reyno com muitos Titulos, com que premiou os merecimentos de seus antepassados. Jaz sepultado no Real Convento da Batalha. Como tinha passado a mayor parte do seu Reynado na Campanha, escreveo: Tratado da Milicia conforme o costume de batalhar nos antigos Portuguezes. Para mostrar quanto era sciente na Mathematica escreveo: Discurso em que se mostra, que a constellaçaõ chamada Caõ celeste constava de vinte e ove estrelas, e a menor de duas. De cuja obra se lembra com grandes elogios Zacuto Lusit. in Princip. Mend. Histor. lib. 4, hist. 2. Carta escrita da própria maõ a Gomez Anes de Zurara seu hronista mòr, e Guarda mÒr da Torre do Tombo, quando assistia em Alcacer com o Conde D. Duarte de Menezes, para escrever os feitos daquela Villa M. S. Acaba. O meu vulto pintado o non tenho para volo agora lá poder enciar: mas o próprio prazerá a Deos, que o vereis lá em algum tempo, com que vos lá mais deve prazer. Carta escrita da própria maõ a 5 de Agosto de 1461 a Diogo Lopes Lobo, Senhor de Aluito satisfazendo-o de alguns agravos, que lhe fizera. M. S. Deste Principe trataõ Manoel de Faria, e Sous. Europ. Portug. Tom 2, part. 3, cap. 3 e no Epit. das Hist. Port. part. 3, cap. 13, Marian de reb. Hispan. lib 14 à cap. 6 usque ad 21, Brito Elog. dos Reys de Port. pag. 13, Maris Dial. de Var. Hist. Dialog. 4 cap. 7, Oliveir. Grand. de Lisb. Trat. 3, Tit. 13, Fons. Evor. glorios. pag. 84. Sousa Hist. Geneal. da Casa Real Portug. Tom 3, liv. 4, cap. 1. Vasconcel. Anaceph. Reg. Lusit. pag. 199. Orleans Hist. des Revolut. d’Espagne Tom 3, pag. 187. Fr. Fernand. da Soled. Hist. Seraf. da Prov. de Portug. part. 3, liv. 16, cap. 1 da segnda impressão.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. 1]

 

AFFONSO V. (Tom. 1. pag. 17. col 2.) compoz alem das obras impressas Regimento para os Officiaes, e Officios de guerra da Casa Real. M. S.

Conserva-se no Archivo Real. Desta obra fazem mençaõ Cabedo Decis. Part. 2. Decis. 48, e Alvia de Castro, Paneg. ao Duque de Bragança, fol. 21. vers.

[Bibliotheca Lusitana, vol. IV]