MANOEL THOMAZ, natural da Villa de Guimaraens, filho do Doutor Luiz Gomes de Medeiros professor de Medicina, e de sua mulher Gracia Vaz Barbosa pela qual era Primo do celebre Jurisconsulto Agostinho Barbosa, e quarto Neto de Manoel Thomaz, que de 22 mezes fallava a lingua Latina, como affirma com certeza de testemunha ocular Garcia de Resende na sua Miscellanea, dizendo Em Evora vi hum menino

Que a dous annos naõ chegava,

E entendia, e fallava,

E era já bom Latino.

Respondia, preguntava:

Era de maravilhar

Ver seu saber, e fallar,

Sendo de vinte e dous mezes,

Monstro entre Portuguezes

Para ver para notar.

Deixando a patria partio para a Ilha da Madeira, onde assistio a mayor parte da sua vida, de que foy violentamente privado por hum filho de hum Ferrador a 10 de Abril de 1665, quando contava 80 annos de idade. Jaz sepultado no Convento de S. Francisco do Funchal. Na florente idade da Adolescencia experimentou taõ propicias as Musas ao seu enthusiasmo que naõ excedendo de 17 annos compoz hum Poema em obsequio do Doutor Angelico, cujo nome tinha por Apelido. Neste poetico prologo da sua fecunda veya se ensayou para outros Poemas, e outras metrificaçoens assim Mysticas, como Heroicas com que deixou eternizado o seu nome que aplaude D. Francisco Manoel de Mello Obras Metric. Tuba de Calliope Soneto 77.

Ó duas vezes Cisne venerando

Dos olhos, dos ouvidos, que enriqueces

Naõ sey onde em mais credito floreces

Se no que vaz vivendo, ou vaz cantando.

Quando te vejo admirome, mas quando

Te escuto, em tanto aplauso, e fama creces

Que os dobrados affectos, que mereces,

A quaes subiraõ mais vem duvidando.

Pois que conta farey, se a urbanidade

Contar, e se contar quantas doutrinas

Repartes de hum riquissimo thesouro?

Ora vive, e da fama faze idade,

Que vivas nas idades peregrinas

Com idade de prata, e penna de ouro.

O mesmo D. Francisco Manoel na Cart. 1. da Cent. 4. das suas Cartas, escrita ao Doutor Themudo. Que fez passar as Musas as aguas do Oceano até á Ilha da Madeira. Joaõ Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. lit. E. n. 83. Vir diligens, & studiosus. Compoz

Vida de S. Thomaz de Aquino. Poema em 8. rima. Lisboa 1626. 8.

Insulana. Anveres por Joaõ Meursio. 1635. 4. Poema em 8. rima, que consta de 10. Cantos.

Rimas Sacras dedicadas a todos os Santos. ibi pelo dito Impressor 1635. 8.

O Phenix da Lusitania, ou Aclamaçaõ do Serenissmo Rey D. Joaõ IV. do nome. Ruan por Lourenço Maury 1649. 4. Poema de 10 Cantos.

Uniaõ Sacramental. ibi pelo dito Impressor. 1650. 8. Consta de 7 Romances.

Tesouro de Virtudes. Anveres por la Viuda de Juan Cnobbaro 1661. 8. Consta de 21 Romances, que intitula Hymnos.

Decimas a hum peccador arrependido. Consta de 22 Decimas impressas em huma folha ao alto, e na parte superior tem estampado a Christo Crucificado, a cujos pés está ajoelhado o peccador com as mãos levantadas. Sem anno da

Impressaõ, mas do caracter se conhece ser impresso em Flandes.

Obras M. S.

Panegyrico em louvor da Rainha de Suecia Christina Alexandra abraçando a Fé Catholica. Saõ Tercetos.

Solidaõ de N. Senhora, descrita em 650 interrogaciones philosophicas remetidas ao P. Antonio Correa Jesuita Lente de Filosofia no Collegio do Funchal.

Quatro Autos Sacramentaes.

Sinco Comedias.

Varias Loas, Glossas, Vilhancicos, Enigmas, Cançoens, e Romances, de que se podia formar dous volumes grandes.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]