Sor MARIA DE JESUS, chamada no seculo D. Maria de Ataide, filha de Dom Nuno Manoel segundo Senhor de Atalaya, Tancos, e Sinceira, Alcaide mór de Marvaõ, e Embaixador extraordinario á Corte de Pariz, e de D. Joanna de Ataide, filha de D. Antonio de Ataide I. Conde da Castanheira, e D. Anna de Tavora. Com tal empenho se dedicou á cultura das Sciencias que sahio em todas eminente, como foraõ Filosofia, Theologia Escolastica, Mathematica, Arithmetica, e Musica augmentando-se esta erudiçaõ sagrada, e profana com discriçaõ aguda, e affabilidade natural. Ornada de tantos dotes foy pertencida para Esposa dos mayores Cavalheiros, porém como aborrecesse a vida conjugal fez voto de castidade perpetua cortando os cabellos, e convertendo a sua casa em Clausura, como religiosa. Recitava com devoçaõ o Officio Divino, e a affligia o corpo com asperas disciplinas. Naõ desistiraõ seus Pays de a persuadir ao estado matrimonial valendose humas vezes de industrias, e outras de violencias; porém armada de heroica constancia rebateo estes combates que duraraõ pelo espaço de vinte annos, até que por morte de seu Pay soube persuadir a sua Mãy que deixando o seculo se recolhesse com ella ao Serafico Convento de Santa Clara da Villa da Castanheira, fundado por seu Avô Materno. Effeituada esta resoluçaõ recebeo o habito, quando contava 50 annos de idade, onde foy exemplar da vida monastica principalmente no lugar de Abbadeça, que exercitou com oito annos de professa. Acometida da ultima enfermidade se preparou para a morte com aquelles actos que praticara toda a vida, fallecendo piamente no anno de 1603. Della fazem merecida memoria Fr. Fernando da Soled. Hist. Seraf. da Prov. de Portug. Part. 4. liv. 2. cap. 14. §. 305. E seg. e D. Anton. Caet. de Sousa Hist. Gen. da Cas. Real Portug. Tom. 2. liv. 12. p. 529. Compoz

Discurso sobre o Cometa, que apareceo no anno de 1578 antes da infeliz jornada delRey D. Sebastiaõ a Africa. O qual foy (como escreve o Padre Soledade no lugar assima allegado) o mais douto, e aplaudido entre todos os que se fizeraõ na Corte.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]