MARTIM AFFONSO DE SOUSA, Senhor do Prado, e Alcoentre, Alcaide mór de Bragança, e de Rio mayor naceo em VillaViçosa, Corte dos Serenissimos Duques de Bragança, sendo filho de Lopo de Sousa Senhor do Prado, Pavia, e Baltar, e de D. Brites de Albuquerque, filha de Joaõ Rodrigues de Sá Senhor de Sever, Alcaide mór, e Védor da Fazenda do Porto, e D. Joanna de Albuquerque. Formado pela natureza para Heróe começou desde a adolescencia a dar claros argumentos de generosos brios distinguindo-se entre elles quando naõ aceitou hum precioso collar de ouro, e pedraria que lhe offerecera o graõ Capitaõ Gonçalo Fernandes de Cordova sendo Hospede de seu Pay em a Cidade de Bragança. Admirado o graõ Capitaõ desta acçaõ praticada em taõ tenra idade lhe instou havia de ficar com huma sua prenda, e dando-lhe a propria espada a recebeo obsequioso, da qual fez taõ grande estimaçaõ, que usava della nas mayores funçoens. Por alguns annos assistio na Corte do Senhor D. Theodosio Duque de Bragança, donde passando á delRey D. Joaõ III. conciliou os affectos de D. Antonio de Ataide I. Conde da Castanheira seu Primo. Conhecendo ElRey os espiritos marciaes, que lhe animavaõ o peito o nomeou Capitaõ mór ao Rio da prata, em cuja jornada descobrio aquella nobre Colonia, á qual impoz o nome de Rio de Janeiro por nelle fazer a entrada ao 1 dia do anno de 1532. Por taõ feliz descobrimento se fez merecedor, de que no anno de 1534, fosse nomeado Capitaõ mór de huma Armada, composta de sinco naos, e guarnecida de dous mil soldados para a India Oriental, quando a governava o famoso Nuno da Cunha. A primeira acçaõ, com que fez celebre a fama do seu nome, foy o rendimento da Praça de Damaõ, onde desbaratou quinhentos Turcos, que a persidiavaõ, e a reduzio a lamentaveis cinzas. Sendo convidado por Sultaõ Badur Rey de Cambaya para se levantar Fortaleza em Dio, partio sem demora para ser glorioso instrumento desta Fundaçaõ. A Cidade de Repelim situada na Provincia do Malabar, ainda que estava defendida pelo seu Principe, com seis mil Soldados, foy entregue á voracidade das chamas. Com formidavel destroço fez retroceder a marcha delRey de Calicut em o passo de Cambalaõ, que capitaneava quarenta mil homens. Bastava o ecco do seu nome, para intimidar os mayores Potentados da Azia, pois para naõ ser despojo da sua fulminante espada levantou Madune Pandar Rey de Ceitavaca o sitio, que tinha posto a ElRey de Cotta seu irmaõ, e nosso confederado. Naõ pode escapar do seu furor a armada auxiliar do Samorim, a qual, precedendo hum porfiado combate, foy derrotada com a morte de mil e duzentos mouros. Resoluto Pate Marcar, poderoso mouro de Calicut vingar esta affronta sahio com huma armada de sincoenta navios, com doze mil homens e quatrocentas peças de artelharia, contra a qual se opoz o nosso Heróe, com vinte e tres navios de remo, e quatrocentos homens de peleija, e achando ao barbaro espalmando os seus navios em Beadala, ainda que juntou mais sete mil Soldados de terra ao grande poder maritimo que tinha, faltou em terra, e atacando a batalha entre numero taõ desigual, degolou mais de setecentos mouros, e reduzio aos outros a precepitada fugida recolhendo como vencedor os despojos que no mar, e terra tinha Pate Marcar. Todas estas gloriosas emprezas conseguidas pelo valor heroico do seu coraçaõ lhe serviraõ de degraos para subir ao honorifico lugar de Governador da India, para onde partio no anno de 1541, merecendo levar por companheiro em jornada taõ perigosa, e dilatada ao grande Xavier destinado Apostolo do Oriente, para com as luzes do Evangelho desterrar as sombras do Paganismo. Principiou o seu governo pela destruiçaõ da Cidade de Baticala, situada na Costa do Canará que por negar a obediencia jurada ao Estado, foy sumergida em hum mar de sangue, e reduzidas a cinzas todas as plantas que produziaõ os seus campos. Como era muito zeloso da Naçaõ Portugueza, e conhecesse que a India fatalmente declinava da gloria, que lhe adquiriraõ seus primeiros Conquistadores, jurou pela Hostia que se levantava na Missa de abrir as successoens, e entregar o governo a quem ellas nomeassem, pois naõ queria ser testemunha ocular da funesta decadencia do Estado, que tinha ennobrecido com os tributos dos Reys de Jafanapataõ, e Tranvacor. Da Fazenda Real teve taõ provida economia, que pagou trinta e sinco contos de dividas antigas, e tres quarteis cada anno a todos os Soldados, reservando sempre sincoenta mil pardaos para despezas extraordinarias. Sendo taõ vigilante dispensador da Fazenda Real, era prodigo da sua como mostrou, quando voltava para o Reino naõ consentindo que pessoa alguma levasse matalotagem, e dando a todos mesa abundantissima. Embarcado em a Nao S. Thomé chegou a Lisboa a 13 de Junho de 1546 havendo governado com igual prudencia, que desinteresse tres annos e quatro mezes. Ao tempo que estava pacificamente gozando na patria os aplausos adquiridos no Oriente, se lhe offereceo nova ocasiaõ de ostentar o seu valor, pois determinados os Turcos a invadir as Costas do Algarve, e Lisboa, propoz a ElRey no Concelho de Estado quem havia de ser o General desta expediçaõ, e votando Martim Affonso na sua pessoa foy celebrada universalmente esta nomeaçaõ. Cumulado de victorias, e acçoens religiosas falleceo em Lisboa a 21 de Julho de 1564. Jaz sepultado na Igreja do Convento de S. Francisco da Provincia de Portugal. Foy casado com D. Anna Pimentel filha de Arias Maldonado Senhor de Avedilho, Comendador de Elches, e Estriana, e Regedor de Salamanca, e Talavera, e de D. Joanna Pimentel Dama da Rainha Catholica, filha de D. Pedro Pimentel Senhor de Tavera, e irmãa do I. Marquez de Tavera de quem teve a Pedro Lopes de Sousa Senhor de Alcoentre, e Tagarro Alcaide mór de Rio-Mayor, Comendador de S. Maria de Mascarenhas da Ordem de Christo, Embaxador delRey D. Sebastiaõ a Castella, que casou com D. Anna da Guerra de quem teve a D. Mariana de Sousa da Guerra mulher de D. Francisco de Faro I. Conde de Vimieiro: Lopo Rodrigues de Sousa que morreo na jornada da India: D. Fr. Antonio de Sousa da preclarissima Ordem dos Prégadores, donde subio a Bispo de Viseu a 4 de Dezembro de 1595, e falleceo no anno de 1597: e D. Ignez Pimentel que se despozou com D. Antonio de Castro IV. Conde de Monsanto, de cujo consorcio naceo D. Martim Affonso de Casto Comendador das Alcaçovas de Santarem, General das Galés do Reino, e XIX. Vice-Rey da India. Celebraõ as acçoens politicas, e militares deste grande Heroe Joaõ de Barros Decad. da India. 4. liv. 4. cap. 27. liv. 6. cap. 16. liv. 8. cap. 12. cap. 13. 14. Couto Decad. da Ind. 5. liv. 1. cap. 6. e liv. 10. cap. 11. Andrade Chron. delRey D. Joaõ III. Part. 3. cap. 2. 3. 4. 11. 23. 25. 37. 38. 47. 48. 49. Maffeu. Hist. Ind. lib. 11. Macedo Prep. Lusit. Gallic. p. 123. Faria Asia Portug. Tom. 2. cap. 11. até 14. Par. 1. Maris Dial. De Var. Hist. Dial. 5. cap. 1. Barbuda Emprez. Milit. liv. 9. Fr. Joaõ Jozé de S. Ter. Hist. del Brasile Part. 1. liv. 1. p. 8. Vasc. Chron. da Prov. do Brasil. liv. 1. n. 63. Gabriel Pereir. Decis. Dec. 59. Sousa de Macedo Flor de Espan. cap. 7. excel. 5. Telles Chron. da Comp. de Jesus da Prov. de Portug. Part. 1. liv. 1. cap. 12. e liv. 3. cap. 3. Sousa Orient. Conq. Part. 1. Conq. 1. Divis. 1. n. 28. 29. e 30. Franc. de S. Maria Diar. Portug. Tom. 2. p. 588. Rocha Americ. Portug. liv. 2. n. 101. Brito Freire Nova Lusit. liv. 1. cap. 47. Camoens Lusiad. Cant. 10. Est. 67.

Este será Martinho, que de Marte

O nome co’ as obras derivado;

Tanto em armas illustre em toda a parte

Quanto em conselho sabio, e bem cuidado.

Teve profunda instruçaõ das disciplinas Mathematicas, como mostrou nas doutas observaçoens que fez na jornada do Sul primeira das suas navegaçoens que propoz ao mayor Mathematico do seu tempo Pedro Nunes Cosmografo delRey D. Joaõ III. o qual as expoz no livro que imprimio o mesmo Pedro Nunes em o anno de 1537. por Germaõ Galharde. Escreveo como outro Cesar

Epitome da sua Vida. M. S.

Conserva-se na Livraria do Excellentissimo Conde de Vimieiro, e nella a vio o Excellentissimo Conde da Ericeira D. Francisco Xavier de Menezes como affirma na Conferencia da Academia Real feita a 28 de Julho de 1724, que imprimio neste anno. Esta mesma empreza intentava fazer seu filho D. Fr. Antonio de Sousa Bispo de Viseu, para a qual tinha junto diversos documentos, como no seu lugar se disse.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]