MARIA DA CRUZ, sahio á luz do mundo na Provincia de Entre Douro, e Minho para ser huma das mais favorecidas esposas de Christo, a quem no estado secular lhe dedicou a sua virgindade. Praticou exactamente as virtudes que brilharaõ nas Heroinas mais celebres da santidade, merecendo pela tolerancia com que padeceo affrontas, o rigor com que macerava o corpo abstendo-se de todo o genero de alimento, desde Quinta feira mayor até Domingo de Paschoa em memoria do Triduo em que Christo esteve sepultado, o fervor com que na Oraçaõ pedia a conversaõ dos peccadores receber de seu divino Esposo singulares favores, revelandolhe claramente os Mysterios de sua Vida, e morte, como tambem o inescrutavel arcano da Santissima Trindade, de que se seguia fallar, e discorrer taõ profundamente nestas sublimes materias, que assombrava aos mais famosos Theologos. Das suas virtuosas acçoens, foraõ testemunhas o Convento de Lorvaõ, onde assistio algum tempo, e o Convento de Viseu, que lhe servio de tumulo. Tolerada com heroica constancia huma penosa enfermidade, depois de receber os Sacramentos espirou placidamente a 24 de Mayo de 1654, quando contava 50 annos de idade. Foraõ directores da sua consciencia os Padres Francisco Cabral, e Antonio Leite, Jesuitas, Fr. Pedro Thomaz, Carmelita Descalso, e Fr. Francisco de Lisboa da Provincia de Santo Antonio, os quaes lhe ordenaraõ escrevesse a sua vida, o que executou, na qual se relataõ os raros favores, acompanhados de admiraveis extasis, e celestiaes visoens que recebeo de seu divino Esposo. Esta vida firmada pela maõ do P. Fernaõ Paes Cura da Cathedral de Viseu, que assistio à sua morte, teve o Licenciado Jorge Cardoso, donde extrahio o que escreveo desta Serva de Deos no Tom. 3. do Agiol. Lusit. pag. 392., e no Comment. de 24. de Mayo letr. P.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]