D. Fr. MARCOS DE LISBOA, ou de BETHANIA, como o intitula o doutissimo Gaspar Barreiros na Dedicatoria escrita em Evora a 8 de Abril de 1557 que lhe fez das Censuras de Porcio Cataõ, Beroso Caldeo, Manethon Egypcio, e Q. Fabio Pictor Romano. Teve por patria a Cidade de Lisboa, e por Pay a Salvador Luiz da Sylva, que vendo lhe negava a fortuna os bens com que alimentasse seus filhos, que liberal lhe concedera a natureza, se embarcou para a India com intento de lucrar cabedal para sua sustentaçaõ; porèm experimentou a ultima infelicidade morrendo naufragante cõ quatro navios na passagem, que fazia para a China. Chegando este tragico successo á noticia de sua mulher, que virtuosamente educava seus filhos persuadio ao mais velho, qual era Marcos recebesse o habito de S. Francisco, ao qual foy admittido no Convento de Santa Cristina da Provincia de Portugal, onde logo deu a conhecer capacidade de talento para todo o genero de estudos. Feita a profissaõ solemne sendo muito perito na lingoa Latina se fez igualmente douto na Grega, e Hebraica, donde passou a cultivar as Sciencias severas no Collegio de S. Boaventura de Coimbra, em que sahio eminente. Dezejoso de instruir aos proximos preferio á Cadeira o pulpito dirigindo muitas almas ao caminho da perfeiçaõ Evangelica. Eleito Chronista Geral da Ordem Serafica, para desempenhar taõ laboriosa incumbencia discorreo, como rigido cultor do instituto Franciscano a pé por Hespanha, França, e Italia, de cuja larga peregrinaçaõ adquirio hum grande thesouro de noticias pertencentes ao argumento da Historia, que meditava de que se seguio escrever as Chronicas da sua Ordem com estylo sincero, e verdade summa merecendo que fossem traduzidas nas lingoas mais polidas da Europa. Tendo exercitado algumas Prelasias com prudencia, e affabilidade ambicioso o seu espirito de vida mais mortificada passou para a Provincia reformada de Santo Antonio, que de Custodia erecta em o anno de 1565, foy confirmada Provincia em o de 1568, onde foy o segundo Provincial, excedendo a todos os subditos na modestia do semblante, abstinencia do comer, assistencia do Coro, observancia do silencio, e mortificaçaõ dos sentidos. Estas heroicas virtudes moveraõ a ElRey D. Sebastiaõ quando o acompanhou na primeira expediçaõ de Africa, executada no anno de 1574 para o nomear Bispo de Miranda por renuncia de D. Antonio Pinheiro, e como esta nomeaçaõ se naõ executasse, foy eleito por Filippe I. em o anno de 1581 Bispo do Porto, sendo sagrado no Convento de S. Francisco da Cidade em 21 de Janeiro de 1582, pelo Capellaõ mòr D. Jorge de Ataide, e Assistentes D. Fr. Amador Arraes Bispo de Portalegre, e D. Antonio Telles de Menezes Bispo de Lamego. Fez a publica entrada na sua Diecese a 8 de Abril de 1582, que cahio na Dominga de Palmas, sendo recebido do seu rebanho com as mesmas vozes, com que foy aplaudido o Redemptor do mundo na occasiaõ em que entrou triunfante em Jerusalem. Praticou em beneficio das suas ovelhas todas as acçoens de zeloso Pastor, e dotou a sua Esposa com generosos donativos mandando conduzir de Flandes huma preciosa armaçaõ para cubertura das paredes, e juntamente livros de grande caracter para serviço do Coro. Edificou a Quinta do Prado para innocente recreaçaõ de seus successores; a Capella a Nossa Senhora da Saude para deposito das suas cinzas situada na Claustra da Sé, e junto della a Casa do Cabbido. Para mais prompta administraçaõ dos Sacramentos dividio a unica Parochia da Sé em quatro. Convocou Synodo Diecesano a 3 de Fevereiro de 1585, e reformou conforme os Decretos do Concilio Tridentino as Constituiçoens do Bispado, que tinha feito seu antecessor D. Fr. Balthezar Limpo. A pobreza observada no estado religioso conservou no episcopal com mayor excesso permittindo que o vestido fosse roto, e a meza parca. Na ultima idade tolerou com paciencia heroica diversos achaques até que chegado o tempo de serem premiados seus merecimentos passou de mortal a eterno a 3 de Setembro de 1591, quando contava 80 annos de idade, e 10 de Bispo. Foy sepultado na Capella de N. Senhora da Saude situada na Claustra da Cathedral. Fazem do seu nome merecida memoria celebres Escritores, distinguindose entre elles o Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha Cathal. dos Bisp. do Port. Part. 2. cap. 39. o seu Paço era hum Convento de religiosos, o tratamento da sua Pessoa o do mais pobre Frade da sua Religiaõ; só para os pobres era, e folgava de ser rico gastando com elles as rendas da sua Igreja; em que tambem fez algumas obras, que pudessem mudas conservar sua memoria assim como a conservaõ fallando seus escritos. Nicol. Anton. Bib. Hisp. Tom. 2. pag. 69. col. 1. & 2. religiosae paupertatis, et parsimoniae antiquom, atque illibatum undequaque tenorem servans. & Tom. 1. pag. 398. col. 1. Chronographo famigeratissimo. Joan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. letr. M. n. 1. Vir pius, diligens, et eloquens. D. Francisco Manoel Cart. 1. da Cent. 4. o Religioso, e muito eloquente Fr. Marcos de Lisboa, Bispo Portuense. Miranda Manual. Praelat. Tom. 1. quaest. 4. art. 4. gravissimus, ac religiosissimos Pater noster religionis decus, et ornamentum. Fr. Joan. a D. Anton. Bib. Hisp. Tom. 2. pag. 320. col. 2. Celeberrimus Historicus. Wadingo Annal. Ord. Min. Tom. 5. ad an. 1408. e Tom. 8. ad an. 1588. e nos Script. Ord. pag. 248. Artur Martyr. Franc. p. 443. eruditione, pietate, et vitae Sanctitate spectabilis. Gonzaga de Orig. Seraph. Relig. Part. 3. pag. mihi 1160. qui incredibili studio animarum flagrans celebres ad populum habuit conciones. Willot Athen. Franc. lit. M. Fr. Fernando da Soled. Hist. Seraf. da Prov. de Portug. Tom. 5. liv. 2. cap. 16. n. 368. insigne Prelado, e veneravel Religioso. Manoel de Faria, e Sousa Fuent. de Aganip. Part. 2. Poem. 8. Estanc. 40.

El cayado empuño deste rebaño

Un candido Varon, que professava

Del Serafim terreno el tosco pano

Del Escritor Sagrado el nombre usava,

De cuyo lado el animal fue digno

Que de gras es Rey, de Apollo Signo:

Na livraria do Convento Serafico de N. S. de Salceda, está o seu Retrato com esta inscripçaõ.

Mas parece de Francisco

Su Marcos Evangelista

Que su Marcos Coronista.

Compoz

Primeira Parte das Chronicas da Ordem dos Frades Menores do Serafico P. S. Francisco seu instituidor, e primeiro Ministro geral, que se póde chamar Vitas Patrum dos Menores, copilada, e tomada dos antigos livros, e memorial da Ordem. Lisboa, por Antonio Ribeiro. 1556. fol. Dedicada a ElRey D. Joaõ. III.

Segunda Padre das Chronicas, etc Lisboa por Joaõ Blavio 1562. fol. Dedicada á Rainha D. Catherina.

Terceira Parte de las Chronicas de S. Francisco, etc. Salamanca, por Alexandre de Canova 1570. fol. Dedicada á Infanta D. Maria. Estes tres volumes sahiraõ novamente impressos, e emendados por Fr. Luiz dos Anjos da Provincia dos Algarves Qualificador do Santo Officio. Lisboa por Pedro Crasbeeck. 1615. fol. 3. Tom. Sahio a 1. Parte traduzida em lingoa Castelhana, por Fr. Diogo Navarro Franciscano. Alcala, por Athanasio Salcedo. 1559. fol. A 2. Parte em a mesma lingoa, por Fr. Filippe de Sousa Franciscano. Alcala, por André de Angulo 1566. fol. & ibi pelo mesmo Impressor 1577. fol. Ambas estas partes traduzio na lingoa Castelhana Fr. Joanetino Niño Religioso Menor. Salamanca por Antonio Ramires 1626. fol. Dedicadas a Serenissima Margarida de Austria, aliás da Cruz Religiosa no Convento das Descalsas de Madrid da qual era Confessor. Foraõ vertidas em Francez, por Fr. Joaõ Blancona Franciscano. Pariz, por Roberto Fovet. 1601. 1625, e em Italiano por Fr. Horacio Diola Bolonhes. Parma, por Erasmo Viotti 1566. 4. 2. Tom. e Brixia 1582. 4. e Veneza, por Antonio Ferrari 1582. 4. & ibi por Giliotti 1582. 4. & ibi apresso la minima Compagnia 1593. 2. Tom. & ibi por Pedro Ricciardi 1600. 4. Roma por Barezzio Barezzi 1551. 4.

Livro insigne das perfeiçoens das vidas dos gloriosos Santos do velho, e novo Testamento ordenado para as illustrissimas virtudes Christãs; para mostra da gloria de Nosso Senhor, e seus Santos, e para grande consolaçaõ, e doutrina de todos os Christãos; por Marcos Marulo Spalatense de Dalmacia: novamente traduzido em lingoagem por Fr. Marcos de Lisboa frade Menor, por o grande fruto, que fará em todas as almas, que o lerem. Oferecido ao P. Hieronimo Cipico, em o divino, e humano direito doctissimo, Conego, e Arcediago da Igreja Metropolitana Palatense. Lisboa, por Francisco Correa. 1579. fol.

Exercicios, e muito devota meditaçaõ da Vida, e Paixaõ de N. S. Jesu Christo . A este Tratado, que he traduçaõ de Joaõ Thaulero acrecentou estes tres Tratados de S. Boaventura. Da Arvore da Vida, em que se contém os Mysterios da Vida de Christo. Fórma breve para ensino dos Noviços na Religiaõ. Abecedario espiritual Dedicados à Madre Sor. Ignez do Espirito Santo Abbadessa do Convento da Esperança de Lisboa, da Ordem de Santa Clara. Lisboa por Joaõ Blavio 1562. 8. Foraõ examinados por D. Jeronymo Osorio Bispo do Algarve.

Constituiçoens Synodaes do Bispado do Porto. Coimbra, por Antonio de Mariz. 1585. fol. e Porto, por Giraldo Mendes. 1590. fol.

Vida da V. Sor. Collecta de Borgonha, traduzida em Portuguez. M. S.  Conservase na Livraria do Excellentissimo Duque de Lafoens, que foy do Emminentissimo Cardeal de Sousa. Desta obra dá noticia o Licenciado Jorge Cardoso Autor do Agiologio Lusitano, em huma Carta escrita a Fr. Francisco Haroldo Franciscano assistente em Roma, como affirma Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. p. 69. col. 2.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]