D. MIGUEL DA SYLVA, augmentou novos tymbres á Cidade de Evora com o seu nacimento, e communicou immortal gloria a seus claros Progenitores Dom Diogo da Sylva, Ayo delRey D. Manoel, e I. Conde de Portalegre, e D. Maria de Ayala, filha de Diogo Ferreira Senhor das Ilhas Lancerote Forteventura, e Gomeira nas Canarias. A viveza do engenho, e facilidade de comprehensaõ, que manifestou na adolescencia, foraõ os estimulos que moveraõ a ElRey D. Manoel para o mandar á Universidade de Pariz, onde sahio eminente assim na lingoa Latina, e Grega, como nas Sciencias mayores, em que recebeo a borla doutoral. Naõ sómente foy Pariz theatro da sua grande literatura, mas Sena, Bolonha, e Roma, onde conciliou estreita amizade com os mayores professores da erudiçaõ sagrada, e profana quaes eraõ Jeronymo Osorio, Paulo Jovio, Pedro Bembo, e Jacobo Sadoleto. De Roma partio para Veneza, e depois de discorrer pelas mais illustres Provincias da Europa se restituhio á Patria cheyo de merecidos aplausos. Certificado ElRey D. Manoel do progresso dos estudos a que por sua ordem se aplicara, e muito mais da madureza do seu talento o nomeou Embaixador á Santidade de Leaõ X. para que em seu nome assistisse ao Concilio Lateranense principiado por Julio II. no anno 1512, e concluido no anno de 1517, conservando o caracter de Embaixador nos Pontificados de Adriano VI., e Clemente VIII. Concluidos felizmente os negocios da sua Embaixada voltou para o Reino, quando ja dominava D. Joaõ III. que imitando o alto conceito que seu augusto Pay sempre fizera de taõ grande Vassallo ,o nomeou Comendatario, e Prior perpetuo do Mosteiro de Landim de Conegos Regrantes, Abbade de S. Tyrso em Riba de Ave, e depois Bispo de Viseu, e Escrivaõ da Puridade, cujo Officio he o de mayor confiança na Casa Real, e o tinha servido seu Pay, e depois seu Cunhado o I. Conde de Linhares. Ao tempo que exercitava lugares taõ honorificos o creou Cardeal Paulo III. em 12 de Dezembro de 1539 por intervençaõ de seu Sobrinho André Farnese, com quem contrahira estreita amizade no tempo que assistio na Curia. Como esta dignidade fosse conferida sem beneplacito delRey D. Joaõ III. julgando injurioso á soberania da sua Pessoa este procedimento, representou ao Pontifice a offensa que lhe fizera promovendo ao Cardinalato hum seu Vassallo naõ lhe communicando anticipadamente esta resoluçaõ. Receando prudentemente o novo Cardeal experimentar os effeitos da indignaçaõ Real se ausentou ocultamente de Portugal, e chegando a Roma recebeo o Capello em 11 de Dezembro de 1541, com o titulo dos doze Apostolos, que depois passou para o de Santa Praxedes, Santos Marcelo, e Pancracio, e ultimamente de Santa MARIA Trans Tiberim. Foy Legado a Veneza, Marca de Ancona, e a Bolonha, e estando destinado para o ser a Carlos V. o naõ admitio o Emperador por naõ ser grato a seu Cunhado D. Joaõ III. o qual para testemunhar publicamente a paixaõ, que contra elle concebera o desnaturalizou por sentença proferida a 23 de Janeiro de 1542, privando-o de todas as rendas do Bispado de Viseu, e de todos os Beneficios, que possuia. Fundou hum magnifico Palacio junto da Basilica de Santa MARIA Trans Tiberim, Titulo do seu Cardinalato, para onde se recolheo nos ultimos annos de sua vida aplicado igualmente ao estudo das Sciencias, como aos exercicios da piedade. Falleceo em idade muito provecta 5 de Junho de 1556. Jaz sepultado na Basilica de Santa MARIA Trans Tiberim. Foy elegantissimo Poeta Latino, de cujos versos em que imitou a magestade de Virgilio, e agudeza de Marcial se podia formar hum volume, sendo o mais celebre monumento da sua fecunda veya o Epigrama gravado em hum Marmore no Capitolio por ordem do Senado Romano, que he o seguinte

Marmora praeclaros testantia fronte triumphos,

Atque Magistratus inclyta Roma tuos.

In medio mansere foro dum Roma manebas:

Postque Deos orbi jura secunda dabas.

Ast ubi te indignis fregit fortuna ruinis,

Obruerat titulos alta ruina tuos.

Tamque diu in tenebris tantis latuisse videntur

His veluti fato debita temporibus.

Quae modo Alexander patria te dignus Avoque

Paulo inventa tibi marmora restituit.

Tu Capitolinam meliori in sede reponis:

Et legeris Magni munere Farnesi.

Outro seu Epigramma em louvor de Camillo Vitellio se lê in Elog. vir bellic. virt. illustr. de Paulo Jovio pag. mihi 183.

Da lingoa Portugueza, que do Original Arabigo vertera o Arcebispo de Braga D. Pedro Galvaõ traduzio na Latina

Opera Gastonis Foxei Lusitani.

Esta traduçaõ a communicou em Roma a Flavio Jacobo Eborense como relata in Explic. Epigram. 8. Suor. Carmin. lib. 2. p. 126. Michael Sylvius Cardinalis barbara interpretatione a Petro Galvano facta non contentus, latinam addidit pure, sane, & ornate scriptam. Fecit ille quidem cum Romae essem ipsius libri legendi mihi potestatem; ut verò excriberem (non dum enim typis evulgatus est) non permisit, suas enim margaritas (nam eo verbo usus est) communicare se velle constantissime negabat.

De Aqueducto Eborensi, & de aqua argentea. Obra Poetica, da qual fazem memoria Nic. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. p. 116. col. 2. P. Ant. de Maced. Lusit. Insul. & Purp. p. 255. e Joan. Palat. Facti.Cardinal.Tom. 3. pag. 147. O sublime enthuhsiasmo, que teve para a Poesia he louvado por insignes professores desta divina Arte, como saõ Jano Vital.

Pierides vestro jam dudum assurgite vati

Ex Helicone Deae:

Et celebre insigni, & longe venerabile lauri

Cirgite honore Caput.

Non ille in Sylvis, & propter lustra feraru

Carmina culta canit.

Orbis at in medio circumplaudente theatro

Hic ubi fama viget,

Est illi sacra Sylva Deis, ubi Laurea scena

Delicias aperit.

Jam licet Aonios saltus, & barbara tesqua

Linquere, & omne nemus

Quod ibi habet Phaebus Parnasi in vertice quodque

Vos Heliconiades.

Nobilis hic Sylvae jam jam secessus amãdus

Civibus Ascra tuis.

Hic nullae insidiae; non hic immanis adunco

Dente timendus Aper.

Sed molles spirant Zephiri per veris apricas

Semper olentis opes.

Hic curvant plenos passim poma aurea ramos,

Dulcis, & halat odor.

Hic etiam ad liquidi dulcissima murmura fontis

Dulce queruntur aves.

Salve Sylva Deis cultoribus inclyta, salve

Vate superba tuo.

Resende Genetliac. Princip. Lusit.

Sylvi Castalii Chori Sacerdos

Qui nostros lepide loquutione

Fecisti Durium, Tagumque, Anamque

Grai non celebres minus Melete,

Et certe Tiberi pares Latino;

Jam tum quum numeris modo hoc modo illuc

Per gentes Italas vagatus olim

Raptam de Angoniis Iber tulisti

Palmam vatibus invidente Roma.

Hieron. Cardos. Eleg. 5.

Adde quod & Musas colis,& penetralia doctae

Palladis, & doctos qualibet arte viros.

Petrus Sanches Epist. ad Ignat. de Moraes.

Silvius illustri Regum quoque sanguine cretus,

Cujus, & antiquos ortus sibi concupit Alba,

Hac nostra natus, nostra hac nutritus in urbe,

Et Vidas, & Sinceros excelluit acri

Ingenio, missus Latias Legatus ad oras:

Sidonio hic ostro fulgens, rubro que Galero

Inter Pausilypi lauros, myrthetaque sacra

Saepe intermixtus Nymphis, placidisque Napaeis

Carmina personuit Musis, &Apolline digna.

Correspondem a estes Elogios metricos os Oratorios, que lhe dedicaraõ insignes Escritores. Resende in Orat. habita Acad. Ulyssip. Kaled. Octob. 1534. Non Michaelem Sylvium transibo Musae utriusque alumnum, & totius antiquitatis callentissimum, qui Italiam totam conditionis suae rumore complevit. Palat. Fasti Cardin. Tom. 3. p. 146. ingenium acutissimum lilberaliter subministrante natura Poeta nascitur. D. Manoel Caet. de Sousa Cathal. dos Pontif. e Card. Portug. p. 22. Foy de excelsa indole, e subblime engenho. Salazar Hist. Gen. de la Cas. de Sylva. liv. 6. cap. 14. En la Universidad de Paris,y de las Sena,y Boloña su perspicas, y agudo ingenio se extendio tanto en la amenidad de las humanas letras, Poesia,y Griego, que excediendo a los mas adelantados condiscipulos suyos supo grangearse con la admiracion de los Sabios la amistad de todos los Principes. Severim de Faria Not. de Portug. Disc. 8. §. 13. Sahio muy douto na sciencia, que aprendia, e muito mais nas humanidades, e elegancia da lingoa latina. Nic. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. p. 116. col. 2. Litteras coluit ardenter praesertim amaeniores, & Poeticam in qua aevo suo vix aliquos pares habuit. Fonseca Evor. Glor. p. 325. Foy hum dos mais Sabios, e eruditos homens de seu seculo, e por tal celebrado de Historiadores, e Poetas que nelle floreceraõ. Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 2. p. 761. no Comment. de 29 de Abril letr. D. Taõ erudito nas Humanidades, quam docto nas elegancias da Latinidade, insigne Poeta, e Mathematico celleberrimo, versado em diversas lingoas, e sciencias. P. Ant. de Maced. Lusit. Purpur. p. 243. Excelsa illi indoles erat, & felix ad omnia ingenium. Ad studium maxime litterarum natus videbatur. Telles Chron. da Comp. de Jes. da Prov. de Portug. Tom. 1 . liv. 1 . cap. 25 . n. 2. Por concorrerem álem de seu illustre, e antigo sangue grandes partes, e raros talentos em particular de seu muito saber, e superior engenho. Ciacon. Vit. Pontif. Rom. Tom. 3. p. mihi 675. In utroque dicendi genere versu scilicet, ac soluta Oratione elegans, ac facundus evasit. Andrade Chron. de D. Joaõ III. Part. I. cap. II. e Part. 3. cap. 82. Spondan. Annal. Eccles. Tom. 2. ad an. 1542. Ambery Hist. Gen. Cardin. Part. 4. p. 40. Orland. Hist. Societ. lib. 5. n. 27. Faria Epit. das Hist. Portug. Part. 4. cap. 18. Goes Chron. delRey D. Man. Part. 4. cap. 1. Sousa Flor. de Esp. cap. 23. excel. 3. Pallavic. Hist. Concil. Trid. lib. 5. cap. 2. n. 4. e 6. Mend. de Vasconc. De Antiquit. Lusit. p. 271. Balcarius Comment. rer. Gallic. lib. 23. ad an. 1543. n. 2. Ughelus Ital. Sacr. Tom. 3. p. 805. Joan. Soar. de Brito Theatr.Lusit. Litter. lit. M. n.36. Reverendissimo P. Joaõ Col Cathal. dos Bisp. de Viseu. §. 51.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]