PAULO DE PORTALEGRE, naceo nesta Cidade Episcopal, entaõ Villa, que tomou por apellido. Desde os primeiros annos mostrou tal modestia no semblante, e gravidade nas palavras que vaticinaraõ com assombro da natureza haver de ser por indulgencia da graça Varaõ consumado em todo o genero de virtudes. Quando contava oito annos de idade elegeraõ seus Pays para director das suas acçoens a Fr. Joaõ de Santa Maria religioso de S. Jeronymo, de cuja doutrina frequentada pelo espaço de nove annos sahio taõ erudito nas Sciencias, como pratico nas virtudes. Querendo fogir do tumulto do mundo buscou como tranquillo centro da sua conciencia a Congregaçaõ dos Conegos Seculares do Evangelista, recebendo a murça em o Convento de Santo Eloy de Lisboa a 24 de Junho de 1449, onde se constituhio idéa da perfeiçaõ religiosa. Para conservar illeza a flor da pureza se armava de espinhos nos rigorosos cilicios, e asperas disciplinas com que macerava o corpo. Na Oraçaõ vocal gastava muitas horas recitando quotidianamente álem do Officio Divino, o de N. Senhora de quem era cordial devoto, como tambem o dos Defuntos. Naõ era menos fervoroso na Mental contemplando desde o fim das Matinas até a hora de Prima a excellecia dos divinos atributos. Todas estas virtuosas acçoens o elevaraõ tres vezes á dignidade de Geral da Congregaçaõ, quatro a  Reitor do Convento de Villar, duas do Convento de S. Eloy de Lisboa, huma do Convento de Reciaõ, e outra do Porto conservando em todos estes lugares amor de Pay, e zelo de Prelado. Sendo eleito Procurador a Roma de negocios importantes á sua Congregaçaõ conciliou na Curia as estimaçoens do Summo Pontifice, e muitos Cardeaes principalmente do nosso D. Jorge da Costa que o conhecia por douto, e Santo. Voltando para o Reino com a feliz conclusaõ dos negocios a que fora mandado se foy augmentando a sua fama, sendo chamado muitas vezes ao Paço por ElRey D. Joaõ II. para o consultar em materias pertencentes á quietaçaõ da sua conciencia, como ao governo da Républica. O Duque de Bragança D. Fernando II. o elegeo por seu Confessor, e lhe assistio na fatal hora em que foy degolado na Praça de Evora a 22 de Junho de 1483 pela culpa de inconfidente á Magestade de D. Joaõ II. em cuja execuçaõ deixou este Principe mais suspeitosa, que qualificada a sua rectidaõ. Certificado este Monarcha de seu grande talento o mandou a Roma para serenar alguns escrupulos em que fluctuava a sua conciencia, cuja incumbencia concluio felizmente. Ao tempo que estava para partir recebeo huma carta delRey em que o fazia Bispo de Lamego, cuja dignidade como repugnante ao seu espirito regeitou, e partindo para Jerusalem venerou devotamente os lugares santificados com a presença do Divino Verbo. Restituido a Portugal recebeo particulares favores delRey D. Joaõ II., e retirando-se ao Convento de Villar, como mais solitario para ter comercio mais livre com Deos foy obrigado pelo mesmo Principe a assistir na Corte, onde dirigia muitas almas ao caminho do Ceo. Contava 80 annos de idade, e 60 de Religiaõ dedicados todos em obsequio da salvaçaõ dos proximos, quando se sentio acometido da ultima enfermidade, e conhecendo ser a porta para entrar na Bem-aventurança se alegrou com excessivo jubilo de tal forte, que recitandolhe os assistentes o Psalmo Miserere mei Deus, chegando áquellas palavras Redde mihi laetitiam salutaris tui. Voou o seu espirito a lograr o premio devido aos seus trabalhos em o Convento de Santo Eloy de Lisboa a 5 de Agosto de 1510. Celebraõ o seu nome Jorge Cardoso Agiol. Lusitan. Tom. 1. pag. 124. e no Coment. de 12. de Jan. col. 2. Fr. Luiz de Sousa Hist. de S. Doming. da Prov. de Portug. Part. 2. liv. 2. cap. 7. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Vet. liv. 10. cap. 6. §. 253. e difusamente o P. Franc. de S. Maria Chron. da Congreg. dos Coneg. Secular. do Evang. Liv. 3. Cap. 68. Até 71. Compoz

Novo Memorial do Estado Apostolico dividido em 2. Partes. A primeira trata como a vida dos da dita Congregaçaõ teve principio nos Apostolos de Jesus restauradores em Italia, e em Portugal. Segunda do que sucedeo aos da dita Congregaçaõ, desde o tempo do Arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra; do que adquirio de seus Varoens illustres, e outros sucessos.

Esta obra foy composta por ordem do Padre Joaõ de Nazareth Reitor de Villar, a qual principiou a 15 de Agosto de 1468, como escreve o P. Francisco de S. Maria Chron. dos Coneg. Secul. liv. 3. cap. 61. Della faz repetida mençaõ Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 2. p. 150. col. 2. e p. 208. col. 1. e p. 631. col. 1.

Flos Sanctorum. Dividido em 4. Tomos grandes, que cada hum comprehende tres mezes do Anno. fol. M. S. O estylo he puro (este he o juizo que fez desta obra o Padre Francisco de S. Maria Cron. dos Con. Secul. liv. 3. cap. 71.) e para aquelle tempo elegante, e summamente devoto, cada palavra he huma faisca despedida do fogo do amor de Deos, que ardia no coraçaõ do seu Author; assim expoem as acçoens, e virtudes dos Santos, que igualmente as refere, e as persuade: conta muitas particularidades que fugiraõ á noticia dos modernos mais diligentes, e apurados. Foy escrito no anno de 1484.

Itinerario da Jornada á Terra 4. M. S.

Breve Tratado sobre a morte do Duque de Bragança D. Fernando II. Enviado á Serenissima Duqueza sua mulher D. Isabel. Sahio impresso no Tom. 3 das Prov. da Hist. Gen. da Cas. Real Portug. do P. D. Antonio Caetano de Sousa a pag. 775.

Carta escrita a hum religioso tratando da morte do Duque D. Fernando II. do nome. Sahio impressa no dito Tom. 3. das Provas a p. 791. Nesta Carta he intitulado Paulo de Santa Maria, sendo Paulo de Portalegre.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]