PAYO PERES CORREA. Commendador de Alcacer do Sal da Ordem Militar de Saõ-Tiago, e decimo sexto Mestre da mesma Ordem nobilitou a Villa de Santarem com o seu nacimento, e augmentou o herdado explendor de seus Pays Pero Peres Correa, e D. Dordia Pires de Aguilar com as suas heroicas façanhas que lhe immortalisaraõ o nome na posteridade. Animado de belicosos impulsos declarou perpetua guerra aos sequazes de Mafoma que ocupavaõ grande parte de Hespanha coroando-se de vitoriosos louros em diversos combates, e conquistas. Ainda contava poucos annos de idade, quando militando debaixo das bandeiras do seu Principe D. Sancho II. rendeo com incrivel celeridade Aljustrel, Mertola, Alfajar de Pena, Cassala, e Ayamonte que por premio do seu intrepido valor os doou aquelle Monarcha á Ordem Militar de Saõ-Tiago. Com igual fortuna resgatou do infiel dominio dos Mouros Estombar, Alvor, Tavira, Sylves, e Paderne a cujas gloriosas Conquistas lhe serviraõ de preliminares troféos duas famosas batalhas em que foraõ despojos da sua fulminante espada os Reys Aben Falula, e Aben Afan. Eleito no anno de 1242 Mestre da Ordem Militar de Saõ-Tiago se lhe acendeo no peito taõ religioso zelo contra os inimigos da Cruz de Christo que fugitivos, e derrotados todos os que habitavaõ em Portugal pelo impulso do seu braço passou a Castella para o purificar de taõ nociva peste conquistando Xeres, Texeda, Arcos Nebrixa, Bejar, Medina-Sidonia, Saõ Lucar, Aracena, Lorea, Carthagena, Jaen, Cordova, e Sevilha. Mayor theatro lhe reservou a Providencia nos Campos de Lerena onde igualmente se admiraraõ o valor do seu espirito, como a piedade do seu animo. Para debellar hum formidavel Exercito de Mouros, que resistiaõ obstinados observou que declinava o dia, e receando prudentemente, que com as sombras nosturnas podiaõ salvar-se os barbaros do perigo a que estavaõ reduzidos, implorou com ardente affecto a Maria Santissima para que suspendesse o curso do Sol até que derrotasse totalmente aos idolatras da Lua. Promptamente foy deferida esta religiosa suplica renovando-se em obzequio da sua piedade o milagre sucedido no tempo de Josué. Agradecido a taõ grande favor erigio no sitio da Batalha junto de Serra Morena huma Igreja dedicada á sagrada Bellona, que lhe concedera taõ gloriosa Vitoria. Ja quando a idade o dispensava do exercicio das armas novamente as empunhou em obzequio de Affonso III. experimentando este Monarcha o seu valor triunfante no Algarve, e a sua prudencia pacificando-o com ElRey de Castella. Cumulado de troféos acabou a vida caduca para começar a eterna a 10 de Fevereiro de 1275 em o Convento de Veles cabeça do seu Mestrado, donde como dispuzera no Testamento, foraõ transferidos os seus ossos para a Igreja Matriz de Tavira, que dedicou á Virgem Santissima a 11 de Junho de 1242 na ocasiaõ em que conquistou aquella Cidade do poder Agareno. Ignorava-se o lugar que era deposito dos ossos deste insigne Heróe, até que por diligencia do Doutor Joaõ Leal da Gama Juiz de fóra de Tavira se descobrio no anno de 1724 ao lado do Evangelho do Altar mór da Igreja Matriz hum pequeno jazigo em huma casa com portal de pedra de favor antigo, e sobre elle huma inscripçaõ quasi imperceptivel, coroado de varios Castellos. Aberto o jazigo que era quadrado, foraõ achados os ossos do Mestre D. Payo Peres Correa claros, e incorruptos que mostravaõ ser de homem agigantado, como testemunhaõ muitas pessoas que assistiraõ a este acto. Fabricado hum caixaõ por ordem do dito Juiz de fóra se recolheraõ nelle com toda a decencia os ossos, e se collocou no jazigo, donde tinhaõ sido extrahidos. Com este facto fica desvanecida a tradiçaõ Castelhana, de estar este Heróe sepultado na Igreja de S. Vicente da Ordem de Saõ-Tiago nos arrabaldes de Talavera, ou como outros escreveraõ na Igreja de Santa MARIA de Tentudia situada ao pé de Serra Morena, que o mesmo Mestre edificara. Fazem illustre memoria do seu nome Brandaõ Mon. Lusit. Part. 3. liv. 16. e Part. 4. liv. 14. cap. 20. Bzovio Annal. Eccles. Tom. 13. ad an. Christ. 1275. n. 10. Faria Europ. Portug. Tom. 2. part. 1. cap. 8. §. 12. D. Nicol. de S. Maria Chron. dos Coneg. Reg. liv. 4. cap. 14. n. 6. e 7. Illustrissimo Cunha Hist. Eccles. de Lisboa Part. 2. Cap. 58. Mariana de reb. Hisp. Liv. 13. cap. 22. Leaõ Chron. de  Affonso III. fol. 100. vers. Rades Chron de Saõ-Tiago cap. 23. e 24. Moreno Hist. de Merida. liv. 4. cap. 13. Caro Cathal. de las Ord. Milit. liv. cap. 16. Ferreras Hist. de Hesp. Part. 6. al an. 1242. e 1248. Fr. Agost. de S. Maria Hist. Tripartit. pag. 240. Vasconc. Hist. de Santar. Part. 2. p. 436. Barbosa. Fast. Polit. e Milit. da Lusit. Tom. 1. p. 483. Compoz

Constituiçoens da Ordem de S. Tiago. Conserva-se M. S. no Real Convento de Palmella, Cabeça desta militar Ordem em Portugal.

Cartas a diversas Pessoas. M. S. Conservaõ-se na Livraria do Illustrissimo e Excellentissimo Conde do Vimieiro.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]