NUNO DA CUNHA, Senhor de Gestaço, e Panoyas, Comendador de Fonte Arcada, Védor da Fazenda delRey D. Joaõ III. e décimo Governador da India, teve por claros Progenitores a Tristaõ da Cunha Camareiro mór do Duque de Viseu D. Diogo, filho do Infante D. Fernando, Embaixador extraordinario delRey D. Manoel á Santidade de Leaõ X., e D. Antonia de Albuquerque. Como se criava para Heróe, deixadas as delicias da patria passou a Africa, quando contava poucos annos de idade, e na escola marcial do grande Nuno Fernandes de Ataide aprendeo os primeiros documentos com que fez memoravel eternamente o seu nome. Anhelando a mais dilatada esfera em que brilhasse o valor de seu heroico braço navegou para o Oriente juntamente com seu Pay, onde nas expugnaçoens da Cidade de Oja, com morte do seu Governador, e da Cidade de Brava entregue á voracidade do fogo levantou gloriosos trofeos á sua heroicidade merecendo em premio de façanhas taõ illustres ser armado Cavalleiro pelo Marte Lusitano Affonso de Albuquerque. Restituido a Portugal com tanta gloria a dilatou com mayor excesso, sendo eleito por Dom Joaõ III. Governador do Estado da India, em cujo governo unio as militares emprezas, com direçoens prudentes. Acompanhado de seus irmãos Simaõ da Cunha, e Pedro Vaz da Cunha sahio da barra de Lisboa a 18 de Abril de 1528, e antes de chegar a Goa, destruio a Cidade de Mombaça, cujo Principe vexava a outros da Costa de Moçambique nossos aliados, servindo-lhe o seu Palacio de Quartel á nossa gente militar. Vencidos diversos infortunios na jornada em que deo claros argumentos da sua heroica tolerancia, entrou em Goa, onde foy recebido com aquelles applausos que vaticinaraõ gloriosos successos, sendo os principaes a assolaçaõ da Ilha de Beth, a morte de Sultaõ Badur Rey de Cambaya jurado inimigo do Estado, e a Fundaçaõ das Fortalezas de Dio, Chale, e Baçaim solidos fundamentos, em que estabeleceo a magestade do Imperio Asiatico. Contra taõ qualificados merecimentos se armou a malevolencia de seus emulos, e achando promptos os ouvidos delRey D.Joaõ III. a huma acusaçaõ indigna da sua soberania, ordenou precipitadamente que fosse conduzido a Lisboa prezo. Partindo de Cochim no anno de 1539 chegou a Cananor igualmente offendido das desatençoens do seu sucessor D. Garcia de Noronha, como molestado da enfermidade que brevemente o privou da vida, e continuando a jornada, como ao dobrar o Cabo da Boa Esperança conhecesse ser chegada a ultima hora, escreveo pela sua maõ huma carta, na qual para eterna recomendaçaõ do seu desinteresse com que governara o Estado, jurava naõ possuir da Fazenda Real, mais que sinco moedas tomadas nos despojos de Soldaõ Badur, para as offerecer a ElRey. Preguntado pelo seu Capellaõ se havia o seu cadaver ser transferido ao Reino, onde se lhe desse decente sepultura, respondeo: Que pois Deos havia por bem de o levar no mar, que o mar fosse a sua sepultura, pois a terra o naõ quisera. E se ella taõ mal recebia seus sereviços, naõ Ihe queria entregar seus ossos. Recebidos os Sacramentos com grande piedade, e implorando de Christo Crucificado perdaõ dos feus pecados expirou placidamente a 5 de Março de 1539, quando contava 52 annos de idade, e 10 de Governador da India. O corpo foy lançado ao mar, como dispuzera, sendo o ambito das suas agoas pequeno mausoleo para Heroe taõ insigne. Teve a estatura corpulenta, e o aspecto magestoso naõ lhe causando defeito a falta de hum olho, que perdera em hum jogo de Canas em que entrara D. Joaõ III. Foy suave na conversaçaõ, que muitas vezes fazia plausivel cõ jocosos apothemas. No mandar era circunspecto, e muito humano em admitir á sua amizade aquelles que eraõ mayores fiscaes das suas acçoens. Dissimulava ingratidoens com beneficios, sendo o seu mayor capricho conciliar os animos que lhe eraõ mais adversos. Observou rectamente a justiça, sem ser acusado de rigoroso. Foy muito amante do desinterese, como inimigo da cobiça. Soube perfeitamente a lingoa latina, e das letras humanas, como da Historia teve sufficiente instruçaõ, naõ deixando de cultivar a Poezia vulgar com aguda discriçaõ. Promoveo nos déz annos do seu governo com igual actividade, e zelo o augmento da Religiaõ, e extensaõ do Estado unindo ao mesmo tempo a Fé para com Deos, e a fidelidade para com o Principe. Foy duas vezes casado: a 1. com D. Maria da Sylveira, filha de Martim da Sylveira, e D. Catherina da Azambuja, filha de D. Diogo de Azambuja, Capitaõ de Safim, de quem teve a D. Pedro da Cunha sucessor da Casa, e a D. Antonio que naõ casou: D. Maria da Cunha que se desposou, com D. Alvaro da Sylva III. Conde de Portalegre Mordomo mór da Casa Real, e do Conselho de Estado, da qual naõ teve sucessaõ, e fallecendo no anno de 1580, jaz sepultada no Convento de S. Eloy de Lisboa. Passou a segundas vodas, com Dona Isabel de Vilhena, filha de Nuno Martins da Sylveira, Senhor dos Morgados da Sylveira e Lemos, de quem teve a Joaõ Nunes da Cunha, e D. Antonia.

Celebraõ o seu Nome, Barros Decad. da Ind. 4. desde o liv. 3. até 10. Couto Decad. 5. da Ind. desde o liv. 1. até 5. Faria Asia Portug. Tom. 1. Part. 2. cap. 1. e Part. 4. cap. 3. até 10. Maffeus Hist. Indic. lib. 10. &I 1. Barbuda Emprez. Milit. de Lusit. liv. 9. Castanhed. Histor. do Descub. da India. liv. 8. cap. 30. 31. 32. 33. e 34. Franc. de S. Maria Diar. Portug. Tom. 1. p. 293. e na Chron. dos Coneg. Secul. liv. 2. cap. 22. Mariz Dialog. de Var. Hist. Dialog. 5. cap. 10. Corte Real Poem. Do Cerco de Dio. Cant. 21. Salazar Hist. Gen. da Casa de Sylva. liv. 6. cap. 16. Medeiros Perfeito Soldad. cap. 26. Andrade Chron. delRey D. Joaõ III. Part. 2. cap. 48. e 78. e Part. 3. cap. 2. 17. 40. 42. 46. 50. e 57. Fonseca Evor. Glorios. p. 135.Compoz

Carta escrita de Cananor a ElRey Dom Joaõ III. do que tinha obrado na India no anno de 1530. Foy vertida em Latim pelo insigne André de Resende, e sahio com o seguinte titulo

Narratio rerum gestarum in India a Lusitanis anno Christi 1530 juxta exemplum Epistolae quam Nonius Cugna Dux Indiae maximus designatus ad Regem misit ex urbe Cananario 4. Idus Octobris ejudem anni. Coloniae Agripinae ex Officina Birckmanica 15 8. e no Tom. 2. Hispaniae Illustratae a p. 1372. Francforti apud Claudium Marnium 1603. fol.

Carta escrita da Nao S. Matheus em 10 de Dezembro de 1537 a Fernaõ Alvares de Andrade Thesoureiro mór do Reino. Começa. Naõ vos deveis espantar, &c. Nella relata quanto tinha obrado no Oriente, e o pouco premio que tinha recebido.

Cartas escritas a seu sucessor Garcia de Noronha. Sahiraõ na Decad. 4. Da India de Joaõ de Barros liv. 10. cap. 20. e 21. Foraõ traduzidas em Castelhano, por Manoel de Faria e Sousa na Asia Portug. Tom. 1. no apendix cap. 9. Dellas faz memoria o addicionador da Bib. Orient. de Antonio de Leaõ Tom. 1. Tit. 3. col. 56.

Pratica que fez aos Capitaens depois de rendida a Praça de Dio. Sahio na 4. Decad. da Ind. de Joaõ de Barros liv. 8. cap. 7.

Poesias Varias. No Cancioneiro de Garcia de Resende. Lisboa por Hermaõ de Campos 1516. fol. a fol. 148. 177. vers. e 180.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]