Fr. PAULO DA CRUZ, natural de Lisboa, chamado no seculo Jorge Fernandes o qual desde a primeira idade deu taõ claros argumentos de grande talento, e habilidade que o mandou a Rainha D. Catherina vestido de religioso Franciscano estudar letras humanas, por cuja causa era chamado o Fradinho da Rainha. Correspondeo a aplicaçaõ á capacidade, de que o ornara a natureza sahindo insigne na lingoa Latina, na qual poetizou, como na materna com afluencia, e elegancia. Sucedendo a morte da Rainha D. Catherina, e a perdiçaõ delRey D. Sebastiaõ nos campos de Alcacer passou a Castella, onde pela sciencia do idioma latino, foy admitido a religioso Menor em a Provincia da Conceiçaõ, com o nome de Fr. Paulo da Cruz. Nesta sagrada palestra aprendeo, e ensinou as Sciencias severas até jubilar no anno de 1613, e voltando para a patria assistio algum tempo no Convento de S. Francisco da Cidade. Celebrando o Senado de Lisboa em 13 de Setembro de 1614 com huma solemne procissaõ, a tresladaçaõ do invicto Martyr S. Vicente Tutelar da mesma Cidade, e compondo varios engenhos a este assumpto diversas Poesias, levou elle o primeiro premio no verso latino. Para satisfazer á instancia de pessoas eruditas fez huma colleçaõ dos seus versos para os imprimir, com o nome de Jorge Fernandes Fradinho da Rainha, porém sendolhe negada a faculdade passou segunda vez a Castella, e residindo no Mosteiro de Medina del Campo até o anno de 1631 nelle falleceo.

Compoz

Centilloquio de Encomios de los Santos, sacado de los Evangelios, que se cantan en sus Festividades. Valladolid, por Diogo Francisco de Cordova 1612. 4.

Sermones de Santos. ibi 1612. 4.

Tardes de Quaresma. Dedicadas ao Correyo mór Antonio da Mata. 1614. 4.

Outavas ao Invicto Martyr S. Vicente. Consta de 5. Cantos. Sahiraõ na Vid. Martyrio, e ultima Tresladaçaõ do Martyr S. Vicente. Composta por Diogo Pires Cinza. Lisboa por Pedro Crasbeeck 1620. 8. desde fol. 115 até 142.

Marial dividido em 13 Tratados, do qual se lembra no Centilloquio, &c.

Louvores a S. Joaõ Evangelista. Tercetos.

Juizo Astronomico do Amor. Começa.Ouvime ó largo Tejo, ou fundo Douro, &c.

Da vida solitaria do Campo.

Elegia a trama Despedida.

Elegia á morte de Diogo de Paiva.

Elegia consolatoria á Rainha D. Catherina em a morte da Princeza D. Joanna Mãy delRey D. Sebastiaõ. Começa.

Naõ mais ó implacavel dura sorte, &c. Fazem delle memoria Wadingo Script. Ord. Min. p. 272. col. 2. Marracio Bib. Marian. Part. 2. p. 208. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. p. 127. col. 2. e Fr. Joan. Á D. Ant. Bib. Franc. Tom. 2. p. 419. col. 1. Estes dous ultimos Authores fazem de hum Author dous, sendo o mesmo o que era Poeta, e Prégador.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]