PEDRO MARGALHO, natural da Cidade de Elvas situada na Provincia Transtagana, donde passando á Universidade de Pariz com o nobre desejo de aprender as Sciencias para que o convidavaõ seu grande talento, e perspicaz comprehensaõ fez taes progressos na Filosofia, e Theologia que recebeo nesta Faculdade as insignias doutoraes. Assistindo em Salamanca no anno de 1520, foy eleito Collegial do Collegio de S. Bartholomeu, e nella regentou de propriedade a Cadeira de Filosofia Moral com geral satisfaçaõ, e sendo opositor á Cadeira de Prima de Theologia com o celebre Letrado Fr. Francisco Victoria, immortal credito da Ordem dos Prégadores, e naõ a podendo obter se aplicou a estudar Direito Pontificio em que recebeo o grao de Bacharel, mostrando que o seu talento era capaz para diversas Faculdades. Tendo fundado na Cidade de Cuenca D. Diogo Ramires de Villa Escusa de Haro Bispo desta Cidade hum Collegio com o titulo de S. Tiago, pedio ao Reitor do de S. Bartholomeu permitir ao Mestre Margalho fosse instruir aos novos Collegiaes, e nelle residio tres annos com o lugar de Reitor, e neste tempo estudou Direito Cesareo, sahindo grande Jurisconsulto. A fama da litteratura com que tinha illustrado a Universidade de Pariz, e Salamanca moveo a ElRey D. Joaõ III. para que viesse a ennobrecer com o seu magisterio a Athenas Conimbricense, da qual este Principe tinha sido augusto restaurador, e obedecendo ao preceito do seu Soberano, subio a Cathedratico de Prima de Theologia a 2 de Mayo de 1530, e o elegeo Mestre de seu irmaõ o Infante D. Affonso, e de seu filho natural D. Duarte. Foy Conego da Cathedral de Evora, de que tomou posse no anno de 1534 Prégador delRey, com ordenado de sincoenta mil reis, Desembargador do Paço, e Prior de S. Pedro de Veiros do Bispado de Viseu. Falleceo no anno de 1556. Jaz sepultado na Cathedral de Evora defronte do Altar de S. Sebastiaõ, e naõ em a Igreja do Convento de S. Joaõ de Xabregas situada no suburbio de Lisboa Cabeça da Congregaçaõ dos Conegos Seculares do Evangelista, como escreve o P. Francisco de Santa Maria na Chronica liv. 2. cap. 31. Estabeleceo com sinco Capitulares da Cathedral de Evora a Confraria do Santissimo Sacramento, para a qual alcançou os privilegios, que logra a Archiconfraria instituida no Convento de Santa MARIA super Minervam. Deixou a Herdade de Ferreiros a seus descendentes, e na falta delles ao seu Cabido, que hoje a possue com obrigaçaõ de Missa quotidiana, e dous Anniversarios. Fazem delle honorifica memoria Joaõ Vaseo Chron. Hisp. cap. 6. n. 8. M. Petrus Margallus Lusitanus Philosophiae, Juris Pontificii, Theologiae consultissimus, & olim Salmanticensis Academiae professor celeberrimus. Nicol. Clenard. Epistol. ad Joan. Parvi Episcop. Capit. virid. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. pag. 170. col. 2. Sousa Hist. Gen. da Cas. Real Portug. Tom. 3. p. 419. D. Francisco Luiz de Vergara Cathal. dos Colleg. de S. Barth. de Salam. p. 186. n. 255. Gil Gonçalves de Avila Theatr. das Grand. de Madrid. liv. 3. cap. 13. Fonseca Evor. Glorios. p. 719. Henau de Sacrif. Missae. Part. 1. disp. 27. sect 12. n. 115. Antonio Gomes Explic. Bullae Cruciatae. fol. 57. Vivaldo Candelab. aureo. fol. 125. Henriques Summa. lib. 9. cap. 30. fol. 559. Fernand. De Concert. Praedicat. pag. 491. Quetif. Script. Ord. Praed. Tom. 2. p. 129. col. 1. Illustris. Cunha Hist. Eccles. de Brag. Part. 2. cap. 77. n. 2. Leitaõ Not. Chronol. Da Univ. de Coimb. p. 489. e seguintes. Compoz

Phisices compendium Clementissimo in Christo JESU Patri Domino Jacobo So: Bracharensi Archiepiscopo, ac Hispaniarum optimo jure Patriarchae Margallus Doctor Theologus, atque insignis Collegii Divi Bartholamaei Collega S. P. D. Salmanticae 1520 sem nome do Impressor. O Arcebispo a quem he dedicado este livro foy D. Diogo de Sousa, que possuio esta Mitra desde o anno de 1505, em que nelle a renunciou o Cardeal D. Jorge da Costa até o anno de 1532 em que falleceo. A prefaçaõ desta obra transcreveo por ser muito rara o Beneficiado Francisco Leitaõ Ferreira em as Not. Chronol. da Univ. de Coimb. p. 482. §. 1038, e certamente está escrita com summa elegancia. Em aplauso da dita obra lhe fez o seguinte Epigramma o insigne Ayres Barbosa

En opus hoc Physicum promit Margallus in ora

Hac doctus nostra, Parisià que simul.

Ingenio clarus doctrina clarus utraqua,

Quae à rebus nomen, nominibusque trahit.

Qui reru causas possent cognoscere, sumus

Dixit felices esse Poeta viros.

Has hic cu doceat, jam nunc felicibus ergo,

Ó juvenes vobis omnibus esse licet.

Depois deste Epigramma está huma Carta Latina escrita por Pedro Margalho, e Ayres Barbosa, com reposta deste as quaes ambas se pódem ler nas Not. Chron. da Univ. de Coimb. ja allegadas pag. 485. §. 1044.

Collectoriu omnibus scholasticis de horis Canonicis, Cesuris Ecclesiasticis, & indulgenciis: cum expositione tituli de celebratione Missar. Quod nuper edidit magister Margallus: Doctor Theologus, & Canonici juris professor. Et Sancti Jacobi Colega. No fim tem estas palavras. Salmãtice impressum. Anno Dñi M.D.XXVIII. Die uõ VIII. mesis Septebris. Regnàte eqssimo Joañe Lusitanie rege. 8. Impresso em letra gothica, e com a ortografia cheya de abreviaturas, como se vê no titulo que fielmente transcrevemos. Conclue esta obra com huma Ode Safica ao Apostolo Saõ-Tiago por ser ao tempo que a escreveo Collegial do Collegio de Cuenca do qual he tutelar este Santo, e nella mostra que alêm de cultivar as letras severas com tanta profundidade lhe naõ eraõ alheas as amenas. O titulo da Ode escrito com a sua ortografia he o seguinte Margallus Sanctu Jacobu precatur quo perégrinos domus suae perpetuet.

Consta de sinco ramos, sendo o primeiro.

Numinis maius revoco juvamen

Rite Galecis Jacobus arvis

Presidet terre tremebundus alme

Corpore sacro.

Declaraçaõ espiritual dos Mysterios da Missa. Evora por André de Burgos. 16. & ibi por Martinho de Burgos 1589. & ibi por Manoel de Lira 1597. com o titulo de Tratado dos Mysterios da Missa muito devoto, e proveitoso para todo o fiel Christaõ. Sahio sem o nome do Author.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]