PEDRO DE SANTA MARIA, natural da augusta Cidade de Braga, e filho de Pays honrados, e virtuosos. Na infancia descubrio tal agudeza para aprender os mysterios da Fé, que naõ tendo capacidade para os perceber ja tinha memoria para os decorar convocando muitos meninos da sua idade, aos quaes instruia no cathecismo como prognostico do copioso fruto que havia colher em idade mais adulta. A modestia do semblante, a compostura das açoens, e o exercicio das virtudes que em outros poderia ser affectado estudo eraõ nelle impulso natural. Diversas Religioens pertenderaõ adoptalo por alumno entre as quaes prevalecia a de S. Bento naõ sómente porque nella tinha hum Tio, mas porque seus Pays se inclinavaõ a que professasse aquelle monastico instituto porêm preferio a todas a Congregaçaõ dos Conegos Seculares do Evangelista recebendo a murça no Convento de Villar, onde como arvore tresplantada a novo terreno começou a produzir frutos de heroicas obras. Como era cordial amante da Rainha dos Anjos, tomou por apellido o seu Santissimo Nome para perpetuo despertador da sua devoçaõ. O Theatro das suas declamaçoens evangelicas foy a Corte de Lisboa, onde declarando guerra ao peccado alcançou do inferno repetidas vitorias. Igual era o fruto que colhia no Confissionario conduzindo com as suas direçoens a muitas almas ao exercicio pratico das virtudes. Tal era a fama que corria do seu apostolico ministerio que o Serenissimo Infante D. Luiz intentou que fosse seu Confessor, de cujo honorifico lugar humildemente se escuzou. De Lisboa passou á Cidade do Porto, onde com tanto zelo promoveo no Pulpito, e no Confissionario a salvaçaõ dos proximos, que mereceo ser chamado o Apostolo daquella Cidade pelo seu Bispo D. Rodrigo Pinheiro. Conhecendo pelas confissoens a ignorancia que muitos tinhaõ dos mysterios da Fé originada pela culpavel inercia dos Parochos sahia pelas praças, e ruas com os meninos das Escolas, e de hum lugar alto lhes explicava o que deviaõ crer, de cujo sagrado exercicio praticado pelo espaço de sinco annos adquirio a antonomasia do Padre da Doutrina compondo a primeira Cartilha que houve em Portugal para instruçaõ da puericia. Com semilhante zelo visitava os Carceres, e hospitaes libertando a huns, e consolando a outros que gemiaõ oprimidos. Naõ podia descuidar-se da salvaçaõ propria quem tanto se desvelava pela alhea, pois conhecendo por revelaçaõ divina que estava proximo o fim da sua vida, se exercitou em actos mais fervorosos para fazer certa a sua vocaçaõ. Recebidos os Sacramentos pedio que lhe recitassem a Ladainha de Nossa Senhora, e ao tempo que ouvio Mater admirabilis placidamente espirou em o Convento do Porto a 10 de Fevereiro de 1564. Delle fazem honorifica mençaõ Franc. de Santa Maria Chron. dos Coneg. Secul. liv. 2. cap. 39. e liv. 4. cap. 12. e 15. Jorge Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 1. p. 395. e pag. 402. col. 2. no Comment. de 10 de Fevereiro letr. E. D. Nicol. de Santa Mar. Chron. dos Coneg. Reg. liv. 4. cap. 6. n. 6.

Compoz

Confessionario, e Instruçaõ de Confessores, e Penitentes. 1553. 8.

Tratado, e Compendio muy proveitoso da doutrina, e Regimento da vida Christaã composto, e ordenado na Cidade do Porto por o Bacharel Pedro de Santa Maria Religioso da Congregaçaõ de S. Joaõ Evangelista que neste Reino chamaõ dos Azues ao muito Illustre e Reverendissimo Senhor D. Rodrigo Pinheiro Bispo do Porto Governador seu continuo. Em Coimbra em casa de Joaõ Alvares 1555. 8. Na Dedicatoria ao Illustrissimo Bispo lhe diz seu Author. Pela muita experiencia, que tenho de tratar, e uzar em negocios de almas desde vinte e seis annos que ha que uzo este officio, mayormente nesta taõ nobre Cidade de V. Reverendissima Senhoria, na qual ha doze annos, rezido uzando o officio de prégar, e confessar, e desde sinco annos a esta parte uzo, e me exercito e ocupo meu tempo alem do prégar, e ensinar a doutrina Chritaã muito necessaria a todo fiel Christaõ que se dezeja salvar: porque trata a sobredita doutrina do que havemos crer, e fazer, e de como cada hum se ha de aver para o Senhor Deos, e consigo, e com os proximos nesta vida mortal para que mereça alcançar a vida eterna: o qual exercicio quer Nosso Senhor que seja feito por mim o mais inutil, e desaproveitado jornaleiro da sua vinha, e isto foy assim para que toda a gloria seja sua, e naõ he maravilha, que o grande Deos quizesse fazer muito negocio com muy indigno instrumento &c. e assim pela divina bondade he feito com a sobredita doutrina tanto fruto, e proveito espiritual nas almas dos que a quizeraõ ouvir, e continuar que he cousa para dar muitos louvores ao divino Pastor dellas, que tal cuidado tem de seu aproveitamento, e salvaçaõ. Longe seja de mim que isto diga por jactancia, nem vaidade, mas por ser assim verdade, como está manifesto &c.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]