PEDRO SANCHES, natural de Lisboa como elle confessa in Epist. ad Ignat. de Moraes fallando no Cardial D. Miguel da Sylva. Sylvius illustri Regum quoque sanguine cretus Hac nostra natus, nostra hac nutritus in urbe Foy filho de Luiz Sanches de naçaõ Castelhano que veyo acompanhando a Serenissima Infanta D. Catherina futura consorte delRey D. Joaõ o III. Aprendeo as letras humanas com o insigne Mestre Jeronymo Cardoso, de cuja disciplina sahio egregiamente instruido. Ainda naõ excedia a idade de dezaseis annos recebeo por morte delRey D. Joaõ o III. que lhe era muito affecto, o habito da Ordem Militar de Christo com a Comenda da Esgueira, e o nomeou Secretario do Dezembargo do Paço da repartiçaõ das Justiças. Tal era a inclinaçaõ que tinha para a Poesia assim Latina, como Vulgar que naõ eraõ poderoaas as graves ocupaçoens do seu officio para o separar do comercio das Musas, antes todo o tempo vago ocupava em ler os Versos dos Poetas mais insignes dos quaes era fiel imitador merecendo a antonomasia de Ovidio do seu seculo. Foy dotado de estylo claro, e perceptivel, sendo sublime, e elegante. Naõ sómente estimava a amizade dos homens eruditos, mas anciosamente procurava a sua comunicaçaõ valendo-se de Cartas que lhe escrevia para sustentar este comercio Litterario. Ao insigne Poeta Ignacio de Moraes seu cordial amigo lastimando-se da pobreza em que vivia o socorreo varias vezes com largos donativos mandando imprimir algumas das suas  obras para naõ serem consumidas pelo tempo. Naõ foy menos liberal com seu Mestre Jeronymo Cardoso publicando á sua custa as Cartas latinas de taõ egregio Grammatico. Assistindo em Evora no tempo que era Corte abrio em sua Casa huma Academia, onde em certos dias se juntavaõ os mais celebres professores da Poetica, e Oratoria, e recitavaõ as suas obras dignas de eterna duraçaõ. De D. Maria de Rosales sua Consorte que era de geraçaõ nobre, teve tres filhos, dos quaes o mais velho chamado Rodrigo Sanches Secretario das Justiças, e Commendador de Viana cazou com D. Luiza da Fonseca da qual teve D. Joanna da Fonseca que se despozou com Francisco de Faria Severim Executor mór do Reino, e Escrivaõ da Fazenda real: o segundo Athanasio Sanches Moço Fidalgo, e Cavalleiro da Ordem de Saõ-Tiago deixando o seculo abraçou o instituto da Religiaõ da Santissima Trindade, e no Convento de Santarem, e na idade de 73 annos falleceo com sospeita de veneno dado pelos sequazes da Sinagoga. O terceiro Luiz Sanches, que estudando Direito Civil em Coimbra imitou o furor poetico do seu Pay, e de ambos se fez mençaõ nos seus lugares. Falleceo Pedro Sanches em Lisboa no mesmo  anno, dia, e hora que sua consorte, e jazem no Convento da Santissima Trindade para o qual foraõ conduzidos com magnifica pompa por ordem do Senhor D. Antonio, filho do Serenissimo Infante D. Luiz. Fazem memoria do seu nome gravissimos Authores assim em proza, como em verso. Jeronymo Cardoso Epist. ad Lud. Pyrrhum. Petrus Sancius vir, ut scis, nullis non numeris absolutus, & nostrum utriusque amantissimus ad me versus quosdam, vel potius delicias meras dedit, quos cùm oppidò quam libens lectitarem, studiosiusque etiam retractarem videbar plane vel Nasonem quem piam in illis contemplari, vel Musas ipsas alternis concinentes audire. O mesmo lib. 1. Eleg.

Cum bis, terque tuos, Sãcti doctissime, versus

Perlegere est miris mes recreata modis;

Nãque voluptatis tantu, & dulcedinis hausi

Ebrius ut fierem, nec memor ipse mei. Jorge Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 3. no Comment. de 22 de Mayo letr. F. pag. 373. Nas letras humanas teve grande nome, e por isso o respeitava tanto M. Resende consultando-o muitas vezes como a Oraculo da Latinidade, e Poesia. Joaõ Franco Barreto Bib. Portug. M. S. Teve particular graça em os versos Latinos em que compoz muitas obras. Resende in Epist. ad Petrum Sancium data Eborae Nonis Maii 1542.

Nunc tua Musa potens, tua me facundia Petrei,

Non modo ad alterutrum, quod miteris ipse, reducit,

Verum etiam per utrumque rapit, quo dissita longe

Imo infesta sibi secum pugnantia credam.

Nam tua cum stupidus demiror carmina, melle

Inlita Musaeo, fatum, quibus adseris, omni

Contempta id ratione probo, tribuoque malignis

Syderibus patimur quaecumque incommoda vitae

Quum rursum expendo tua carmina, quaeque malorum

Exempla adduxti, qui nunc plerisque videntur

Vivere felices.

O Padre Antonio dos Reys da Congregaçaõ do Oratorio Academico da Academia real, e Collector dos Poetas Portuguezes que escreveraõ na lingoa Latina Tom. 1. impresso. Lisbonae Typis regalibus Sylvianis, Regiaeque Academiae 1745. 4. começa por Pedro Sanches, cuja vida lhe escreveo elegantemente em latim, e depois se segue a seguinte obra poetica deste insigne Varaõ.

Epistola ad Ignatium de Moraes. Consta de 592 versos heroicos em que louva os Poetas mais insignes que produzio Portugal no seu tempo.

Elegia in mortem Infantis Cardinalis Alphonsi.

Desta obra faz elle mençaõ na precedente a Ignacio de Moraes.

…. Nos te, & tua funera quondam

Flevimus Alphonse, & gemitu, lacrymisque profusis

Ad tumulum maesta ter voce vocavimus umbram.

Duas Cartas latinas escrita huma a Jeronymo Cardoso, e outra a Ignacio de Moraes. Sahiraõ nas Epistol. Hyeronimi Cardosi. a pag. 25. e 42. Olyssipone apud Joannem Barrerium Typ. Reg. 1565. 8.

Epigramma ad Hyeronimum Cardosum ne detractores timeat. Começa.

Ó cui Phaebeas licuit decerpere lauros.

Atque nova doctum cingere fronte caput &c.  Sahio no Libellus de Terremotu de Jeronymo Cardoso. Conimbricae apud Joannem Barrerium, & Joannem Alvarum Typ. Reg. 1550. 8.

Opera Poetica. 4. M. S. Conservavaõ-se em poder de Gaspar de Faria Severim, Commendador de Mora, bisneto do Author do qual se faz distincta memoria em seu lugar.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]