PUBLIA HORTENSIA DE CASTRO, natural de Villa-Viçosa, e filha de Thomaz de Castro parente muito chegado do Illustrissimo Arcebispo de Evora D. Joaõ de Mello, filho de D. Pedro de Castro. Dezejosa de se instruir nas Sciencias, como lhe servisse de obstaculo o sexo para frequentar as escolas o desmentio estudando em traje de homem, juntamente com seu irmaõ Jeronymo de Castro em a Universidade de Coimbra, Humanidades, e depois Filosofia em que defendeo, quando contava desassete annos de idade Conclusoens publicas com admiraçaõ de todos os expectadores, respondendo promptamente aos mais nervosos argumentos, como testemunha o insigne André de Resende na Epist. ad Bartholam. Frias Albernotium, com estas elegantes palavras. Puella septemdecim annorum Publia Hortensia a Castro studiis Aristotelicis non vulgariter instructa publice disputans multis doctis viris, quae proposuerat convellentibus, cum summa dexteritate, nec minori lepore argumentorum cavillationes eluderet, tanta animam tuam perfudisset jucunditate, ut spectaculum pulchrius tu te non vidisse si adfuisses, utique fatereris. Naõ foraõ menores os progressos que fez a sua perspicaz comprehensaõ nas materias Theologicas penetrando os reconditos mysterios desta sublime Faculdade, de que deu hum claro testemunho sustentando em Elvas outras Conclusoens, das quaes mereceo ter por ouvinte a Filippe II. que lhe deu em aplauso deste acto litterario huma tensa de vinte mil reis. Entre as eruditas Damas que teve no seu Palacio a Serenissima Infanta Dona Maria, filha delRey D. Manoel conciliou distintas estimaçoens desta Senhora, como tambem do Cardeal D. Henrique, e o Duque de Bragança D. Joaõ. Falleceo piamente no anno de 1595, e jaz sepultada no Claustro do Convento dos Religiosos Agostinhos de Evora. Fazem della honorifica memoria Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. pag. 347. col. 2. Franc. Moraes Sardinha Parnas. de Villa-Viç. liv. 2. cap. 64 Fr. Luiz dos Anjos Jard. de Portug. pag. 401. Fonseca Evor. Glor. p. 415. Compoz por ordem da Infanta Dona Isabel mulher do Infante D. Duarte, quando seu filho D. Duarte partio para a Guerra de Africa.

Psalmos pela vitoria, e felicidade do Senhor D. Duarte, e declaraçaõ dos ditos Psalmos. 4. M. S. Conserva-se na Bibliotheca Real. A Dedicatoria á Senhora Infanta D. Isabel he a seguinte. Vossa Alteza me ha mandado tirar os Versos do Psalterio com que se pudessem pedir a Deos quatro cousas, vida, e victoria para o Principe D. Duarte seu carissimo filho, e Principe nosso. Item que Deos o livrasse dos perigos da terra, do mar, e dos inimigos, e Vossa Alteza como mais conversa com os Ceos, que com nós outros me deu a ordem como compuzesse o Psalmo, em o qual havia de pedir estas quatro cousas que me manda scilicet, que o Psalmo comece em louvores de Deos, o qual eu observey, porque no principio ponho hum, ou dous versos invitatorios, ou que nos convidaõ a louvar a Deos, e logo hum verso, com que Vossa Alteza louva a Deos. Depois dos louvores, que se sigaõ versos de esperanças: no terceiro lugar a petiçaõ, e que acabassem no fim com grandes confianças do Senhor, o qual trabalhey por fazer brevemente por satisfazer ao serviço de Vossa Alteza. Metera eu estas quatro petiçoens em hum Psalmo, mas sahira taõ comprido que causara fastio, e por tanto as destribui por seis Psalmos porque fossem mais breves. Os Psalmos que colhi do Psalterio saõ seis, e acrecento dous inteiros de David, porque taõ vivamente pedem a Deos a destruiçaõ dos Turcos, hereges, e mais infieis que naõ pude deixar de os tresladar, e juntar aos que V. Alteza pede. Em cada Psalmo puz o titulo do que pede, porque assim como serve a chave para abrir a porta cerrada, serve o titulo para declaraçaõ do seu Psalmo como diz S. Jeronymo. O 1. Psalmo he pela vida do Infante D. Duarte. 2. 3. 4. e 5. pelas suas victorias. 6. para que Deos o livre da terra. 7. para que Deos o livre do mar. 8. Para que Deos o livre de inimigos. Saõ compostos estes Psalmos de varios versos do Psalterio, e illustrados com breves, e eruditas annotaçoens.

Flosculus Theologicalis. 4. Constava de varias questoes Theologicas em Dialogo. M. S.

Poezias varias, Latinas, e Portuguezas. M. S.

Cartas Latinas, e Portuguezas a diversas Pessoas. 4. M. S.

Todas estas obras conservava no anno de 1614 em seu poder Fr. Jeronymo de Castro religioso da Ordem dos Prégadores irmaõ da Authora.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]