D. AFFONSO FURTADO DE MENDOÇA naceo em a Cidade de Lisboa como querem huns, ou em Monte Mór o Novo na Provincia do Alentejo, como escrevem outros no anno de 1561 sendo seus Pays Jorge Furtado de Mendoça Commendador das Entradas, Padroens, e Repreza da Ordem de S. Tiago, e D. Mecia Henriques filha de D. Pedro de Sousa Alcaide mór de Beja, Senhor de Beringel, e do Prado, e de D. Violante Henriques filha de Simão Freyre de Andrada Senhor de Bobadella. Principiou os primeiros estudos em Lisboa, e os consumou em Coimbra com geral admiração dos Mestres, e discípulos, pois como fosse dotado de subtil engenho, e fácil memoria assim para perceber, como para conservar, o que estudava, se adiantava a todos com admiráveis progressps. Graduado pella Universidade de Coimbra Doutor na faculdade dos Sagrados Canones, foy admitido por Collegial do Collegio de S. Pedro, a 10 de Mayo de 1592 donde passou a Reytor da mesma Universidade, em cujo lugar procedendo com summa inteireza, somense se declarou parcial dos mais estudiosos. Attendendo Filipe II aos seus merecimentos o nomeou Conselheiro de Estado no Conselho de Portugal mostrando nesta occupalão tanto zelo do serviço do Principe como severidade na observância da Justiça. Estas mesmas virtudes praticou no Tribunal das Ordens Militares, quando no anno de 1608 foy eleiro seu Presidente. Todas estas incumbências o foraõ habilitando para que em 13 de Fevereiro de 1610 subisse à Cadeira Episcopal da Guarda, onde como solicito Pastor arrancou as perniciosas raizess de muitos abusos, e introdusio as sagradas determinaçoens do Concilio de Trento. Desta Cathedral foy promovido por Bulla de Paulo V passada a 5 de Dezembro de 1615 para a de Coimbra, que vagara por morte do insigne Prelado D. Affonso de Castellobranco, cujos vestígios desejando ardentemente seguir, e pontualmente observar, encheo todas as partes constitutivas de hum verdadeiro Prelado. Como na sua Pessoa crecião os merecimentos, se augmentavão também as dignidades, pois vagando a Mitra primacial de Braga por morte do celebre varão D. Fr. Aleixo de Menezes, foy nomeado por seu sucessor no anno de 1618 onde obrou acçoens taõ heroicas em beneficio do seu rebanho, que veneravão nelle o seu antecessor renacido. Assistio nas Cortes, que ElRey Filipe II celebrou no anno de 1619 nas quaes com intrépido valor defendeo os privilégios da sua Igreja contra impugnadores assim domésticos como estranhos da sua primacial dignidade. Ultimamente foy eleito, e confirmado por Urbano VIII a 3 de Dezembro de 1626 Arcebispo de Lisboa, e hum dos Governadores do Reyno, cujos ministérios assim Sagrados, como políticos desempenhou com ardente zelo, e manifesto desinteresse. Estas continuas occupaçoens lhe forão de tal modo atenuando as forças, que rendidas à violência dos achaques o privarão da vida digna de mayor duração em 2 de Julho de 1630 quando contava 69 annos de idade; dos quaes foy cinco Bispo da Guarda dous Bispo de Coimbra, sette Arcebispo de Braga, e quatro de Lisboa, em cuja Cathedral na Capella mór foy sepultado o seu cadáver. De taõ insigne Prelado faz este elogio o grande Agostinho Barboza de Potest. Episcop., part. 1, tit. 3, cap. 8 n 84. Unus totius Lusitaniae nobilitatis instar illustrissimor~u Primatu~u excellentissimus Princeps, Illustrissimus Primas, qui ob admirabilem utriusque Juris Scientiam, & rerum gerendarum peritiam, aliosque insignes animi dotes intra brevem temporis cursum Conimbricae Academiae Rector, inde ad supremum regij Senatus concilium adscitum. Não são menores os louvores, que delle escrevem D. Franc. Man. nas Epanaphor., p. 185. Varaõ de grande peito, onde mal podia cobrir com o roquete pacifico o ardor do animo bellicoso. Fr. Man. da Esp. Hist. Seraf. da Prov. de Port., part. 1, lib. 2, cap. 23 n 4 e liv. 4, cap. 17 n 2 famoso por muitos títulos, Fr. Fernando da Soled. Hist. Seraf., part. 4, liv. 3, cap. 19 n 586. Hum dos Prelados insignes, que a Igreja logrou no Seculo passado. Telles Chron. da Comp. de Jes. da Prov. de Port., part. 2, liv. 4, cap. 53 n 4. Hum dos mais perfeitos, e cabaes sogeitos que deo o nosso Reyno de Portugal. D. Nic. de Santa Maria Chron. dos Coneg. Regul., part. 2, liv. 10, cap. 19 n 8. João Salgado de Araujo na Ley Reg. de Port., part. 1, fol. 38 v.º n 108. Franc. Leyt. Ferr. e o D. Man. Per. da Syl. Leal Acad. da Acad. Real, o 1 no Cathal. dos Bisp. de Coimbra & 72 e o 2 no Cathal. dos Bisp. da Guard. & 35. Compoz: Constituiçoens do Bispado da Guarda reduzidas a melhor methodo, que lhe tina dado seu Antecessor D. Jorge de Mello. Em cujo trabalho consumio cinco anos assistindo sempre a ellas com engenho, cabedal de letras, e experiencia, como diz o Illustrissimo D. Rodrigo da Cunha na Histor. Eccl. de Brag., part. 2, cap. 102 n 14 escrevendo a sua vida. Para que sahissem a publico com toda a perfeição, as mandou examinar pelo Doutor Eximio o Padre Francisco Soares Granatense, e depois de aprovadas por taõ insigne Letrado, convocou Synodo a 29 de Junho e 1614 em que foraõ com summo aplauso recebidas. Por ser assumpto ao Bispado de Coimbra as não pode imprimir, o que executou D. Francisco de Castro seu sucessor no Bispado da Guarda. Sendo Arcebispo Primáz fez hum Tratado no anno de 1625 que remeteo ao Summo Pontifice Urbano VIII o qual intitulou: Ad Limina Apostolorum. Nelle tratava dos Santos do Arcebispado de Braga, e de outras matérias Ecclesiasticas pertencentes a esta Diocese, da qual obra se lembra com naõ pequeno louvor Jorge Cardoso no Agiol. Lusit., tom. 1, pag. 124, col. 1 no Coment. de 12 de Janeiro letra B.

 

[Bibliotheca Lusitana, Historica, Critica e Chronologica, vol. 1]

 

D. AFFONSO FURTADO DE MENDONÇA, Dr. em Canones e Reitor da Univ. de Coimbra, Conselheiro d’Estado de Philippe II, Presidente da Meza da Consciencia, elevado successivamente ás cadeiras episcopaes da Guarda e Coimbra, e ás metropolitanas de Braga e Lisboa. Barbosa tratando d’elle largamente, deixa incerta a sua patria, que uns dizem ser Lisboa, e outros Montemór o novo. – M. de 69 annos a 2 de Julho de 1630. V. Constituições do Bispado da Guarda.

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]