LOURENÇO BOTELHO SOTOMAYOR Moço Fidalgo da Casa Real, e Caualleiro professo da Ordem Militar de Christo nasceo em Lisboa a 25. de Março de 1671. Foraõ seus Pays o Doutor Affonso Botelho Sotomayor Dezembargador do Paço, e Chanceller das Ordens Militares e Dona Francisca Thereza de Almeyda igual nos dotes da piedade e nobreza a seu consorte. Aprendeo os primeiros rudimentos na Patria em que logo descubrio capacidade de talento, e felicidade de memoria. Passando com seu Pay nomeado Dezembargador da Relaçaõ do Porto para esta Cidade nella estudou a lingua Latina, e letras humanas, como tambem a Oratoria e Poetica de cujas Artes exercitou elegantemente os preceitos. Promovido seu Pay para Dezembargador da Casa da Supplicaçaõ a 29 de Agosto de 1686. se restituhio a Lisboa onde ouvio Filosofia dictada pelo Padre Sebastiaõ Ribeiro da Congregaçaõ do Oratorio, cuja memoria será sempre veneravel para todos os professores das Sciencias, podendo virtuosamente jactarme de ser nesta palestra seu condiscipulo. Dos progressos que fez a sua penetraçaõ foy evidente prova o certame litterario que sustentou publicamente em humas Conclusoens de toda a Filosofia conciliando tal aplauzo dos espectadores que o julgaraõ ser mais capaz de prezidir, que defender. Da Filosofia passou á Theologia comprehendendo com rara facilidade as mayores dificuldades. Instruido nas Sciencias severas se dedicou totalmente á amenidade de outros estudos em que achava mayor deleitaçaõ o seu genio. Sendo eleito Mestre da Rhetorica na Academia dos Anonymos instituida em casa de Ignacio de Carvalho, e Sousa de quem se fez memoria distinta em seu lugar, compoz das exposiçoens que nella recitou huma Arte que publicou com o titulo seguinte.

Systema Rhetorico, causas da eloquencia dictadas, e dedicadas a Academia dos Anonymos de Lisboa. Lisboa por Mathias Pereira da Sylva, e Joaõ Antunes Pedrozo. 1719. 8.

Naõ mereceo menor aplauzo o seu talento quando frequentou a Academia, que no seu Palacio erigira o Excellentissimo Conde da Ericeira D. Francisco Xavier de Menezes na qual foy Mestre da Mythologia distinguindo judiciosamente as sombras das luzes, e revindicando as verdades que dos livros Sagrados extrahiraõ os Gentios envoltas nas suas fabulas. Entre os primeiros cincoenta Academicos de que se formou a Real Academia da Historia Portugueza foy eleito Collega cometendo-se á sua penna as Antiguidades de Portugal até a Conquista dos Romanos, e as MS Memorias Historicas delRey D. Affonso V. Dezempenhou o primeiro Assumpto regeitando com judiciosa critica aquelles Reys, que a excessiva lizonja de alguns authores, ou a nimia credulidade de outros introduziraõ na Lusitania. Do segundo deixou diversos materiaes promptos para a construçaõ da Historia daquelle Principe, que pelas açoens militares alcançou a antonomasia de Africano. Da Poesia penetrou os mais reconditos mysterios como manifestavaõ as suas produçoens metricas, elegantes, cadentes, e conceituosas. Sendo grandes os dotes de que era ornado o seu entendimento foraõ mayores os que illustraraõ o seu espirito. Nunca o fumo da vaidade lhe ofuscou o juizo para se desvanecer com a nobreza herdada de seus progenitores, de cujo achaque enfermaõ aquelles, que a naõ possuem. Semelhante desprezo observou nas materias scientificas afectando muitas vezes ser ignorante para naõ alcançar a fama de sabio. Superior a toda a ambiçaõ, nunca requereo despacho merecido aos serviços de seu Pay que foy dos integerrimos Ministros, que vio a sua idade, antes com summa liberalidade dava tudo quanto tinha sentindo com excesso naõ possuir mais para dar. Tolerou com heroica constancia as molestias da ultima enfermidade, e recebidos os sacramentos, passou de mortal a eterno a 30. de Abril de 1738. quando contava 67. annos e 36. dias de idade. Foy cazado com Dona Joanna Jozefa de Lima, a qual fallecendo antes que elle, naõ deixou sucessaõ. Compoz.

Conta dos seus Estudos Academicos dada na Academia a 15. de Julho de 1722. Sahio no Tom. 2. da Collec. dos Document.

Conta dos seus Estudos Academicos dada no Paço a 22. de Outubro de 1722. Sahio no 2. Tom. da Collec. dos Docum. da Academia Real. Lisboa por Paschoal da Silva Impressor de Sua Magestade. 1722. fol.

Conta dos seus Estudos Academicos, dada no Paço a 7. de Setembro de 1724. No Tom. 4. da Collec. dos Docum. Lisboa por Paschoal da Silva 1724. fol.

Ao recolherse no Convento da Madre de Deos para Religiosa a Excellentissima Senhora D. Luiza Maria do Pilar, filha dos Condes de Assumar, Endechas Hendecasyllabas. Lisboa por Antonio Isidoro da Fonseca 1737. 4.

Nos Progressos Academicos dos Anonymos de Lisboa I. Part. Lisboa por Jozé Lopes Ferreira Impressor da Serenissma Rainha 1718. 4. estaõ as seguintes Poesias discretos partos da sua Musa. Epigrama Portuguez pag. 13. Romance heroico pag. 28. Decima pag. 67. 2. Decimas pag. 77. Soneto pag. 89. Decima p. 90. Silva p. 90. Soneto p. 110. Soneto p. 126. Oraçaõ Academica p. 129. Ode Pastoril. p. 166. Romance Heroico pag. 182. Soneto pag. 211. Soneto de Arte menor pag. 261. Coplas de pé quebrado p. 268. Epigrama Portuguez p. 282. Soneto p. 302. Soneto p. 310. Endechas p. 312. Copias de pé quebrado p. 328. Epigramma Portuguez p. 348. Soneto p. 350.

Obras M. S.

Mythologia explicada. 4.

Orador de repente. 4.

Tratado do Estylo Academico. 4.

Tratado do Estylo Epistolar. 4.

Facecias Urbanas. 4.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]