THOMÉ PINHEIRO DA VEIGA. Cavalleiro professo da Ordem de Christo, naceo em Coimbra no anno de 1571, para augmento dos antigos brasoens de taõ illustre Cidade, e honorifico ornato da doutissima Familia de que procedia, pois foy filho de Ruy Lopes da Veiga, e Neto de Thomaz Rodrigues da Veiga ambos Cathedraticos de Prima da Athenas de Portugal; o primeiro da faculdade da Jurisprudencia Cesarea, e o segundo da Medicina. Teve por Mãy a D. Helena Pinheiro descendente da Casa de Aboim taõ antiga, como illustre, e com a educaçaõ desta Matrona sahio instruido nas maximas Christãs, e politicas. Seguindo os litterarios vestigios de seu Pay estudou Direito Civil, e recebido o grao de Bacharel no anno de 1593, com tal excesso se distinguio dos seus condiscipulos que substituhio a cadeira de Prima que regentava seu Pay em quanto naõ voltava de Castella. O primeiro lugar que servio foy de Ouvidor da Esgueira Comarca de Coimbra, onde mostrou a summa integridade exactamente observada em toda a sua vida defendendo a jurisdiçaõ real contra a Casa de Aveiro donataria da Ouvidoria que possuia, cuja controversia o obrigou com dispendio da propria fazenda passar duas vezes a Valhadolid, onde estava a Corte, a primeira no anno de 1603, e a segunda no anno de 1605, e conseguio triunfar de todos os obstaculos maquinados contra a jurisdiçaõ real. De Ouvidor de Alanquer passou a Desembargador do Porto, e da Casa da Suplicaçaõ, de que tomou posse a 7 de Junho de 1617, e dos aggravos a 14 de Dezembro de 1620, Procurador da Coroa a 4 de Novembro de 1627, Chanceller da Casa da Suplicaçaõ, Védor da Fazenda da Rainha, Desembargador do Paço, e Chanceller mór do Reino, cujo lugar servio duas vezes regeitando a propriedade por querer estar mais expedito em beneficio commum. Em tantos, e taõ diversos lugares he impossivel a diligencia que aplicou, o desinteresse que observou, e o trabalho que padeceo revolvendo todo o Archivo da Torre do Tombo para augmentar o patrimonio Real, ordenando a todos os Provedores, e Corregedores que declarassem quaes eraõ os Senhores dos Padroados das Igrejas, para se saber os que estavaõ usurpados á Coroa, de cuja investigaçaõ se seguio o augmento de duzentos que lhe pertencia. Nas sinco vezes que ElRey D. Joaõ IV. celebrou Cortes, elle foy o unico que examinou, e aprovou as Procuraçoens de 18 Cidades, e 75 Villas que compoem o Reino, resolvendo as duvidas que se moviaõ, e o que parece superior ás forças humanas respondendo a mil e oitocentos Capitulos dos Tres Estados do Reino, para cuja expediçaõ trabalhavaõ tres Escreventes de dia, e noite. A fidelidade, que sempre constantemente observou para com a sua patria se admirou na intrepida liberdade com que resistia aos decretos delRey de Castella derigidos a vexar os Portuguezes com imposiçaõ de novos tributos, e outras idéas injuriosas á isençaõ dos seus privilegios, por cuja oposiçaõ foy sinco vezes reprehendido, e suspenso dos lugares, que administrava, com ponto nos salarios que percebia, e como estivesse inflexivel no seu dictame quizeraõ os Ministros de Castella atrahirlhe a vontade com a promessa de merces igualmente honorificas, que rendosas, porém se desenganaraõ conhecendo que o seu coraçaõ era taõ impenetravel ás caricias, como aos rigores. Os seus votos foraõ sempre regulados pelas maximas do Evangelho, e naõ pelos aforismos de Tacito, aconselhando o despacho dos benemeritos, principalmente sendo Soldados; o alivio dos povos na extraçaõ dos tributos, e a eleiçaõ dos Ministros mais doutos, e menos ambiciosos. Fez sempre brio de merecer tudo, e pedir nada, de tal modo que recebendo delRey D. Joaõ IV. as mais distintas honras, e com quem sempre conversava familiarmente todos os dias, dizendo-lhe em huma ocasiaõ este Principe: Vede o que quereis? Respondeo. Senhor servir a minha patria, e a meu Rey, que eu hey de acabar como tragedia, como acabaõ os homens grandes, e notaveis. Constando-lhe, que o mesmo Monarca dissera em sua ausencia. Thomé Pinheiro quer que o roguem, naõ quer pedir? respondeo á pessoa que lho disse. Thomé Pinheiro naõ ha de chegar a pedir, que quem serve como Thomé Pinheiro ha de ElRey rogar, e elle naõ ha de querer pedir. Juntou huma numerosa livraria, e nella recolhido lhe servia a liçaõ dos livros de deleitavel parentezis das suas grandes ocupaçoens. Na Jurisprudencia especulativa, e pratica foy oraculo, em cujas profundas Decisoens, e maduros conselhos se admiravaõ renacidos os Bartolos, Baldos, Sempronios, e Papinianos. Foy dotado de graça natural, e judiciosa deixando na posteridade eternizadas as suas festivas repostas, e discretos apothemas. Foy casado com D. Catherina de Oliveira, de quem teve a Luiz Pinheiro Desembargador da Relaçaõ do Porto, o qual com heroica resoluçaõ deixou a Toga pelo sayal do Serafim humano chamando-se Fr. Luiz de S. Francisco de quem se fez larga memoria em seu lugar. Assistindo deste Apostolico Varaõ se preparou para a eternidade e depois de receber os Sacramentos com summa piedade expirou placidamente a 29 de Julho de 1656, quando contava a idade provecta de 85 annos posto que o epitafio da sua sepultura diga ser de 90. Acompanhado das Communidades  religiosas, foy a sepultar na Casa de S. Antonio, onde naceo este grande Thaumaturgo, e duvidando o Presidente do Senado de Lisboa, que em tal lugar se lhe desse sepultura por nelle se naõ enterrar pessoa alguma, mandou ElRey D. Joaõ IV. que esta Real Casa fosse jazigo de taõ benemerito Vassallo. Na parede que está junto da sua sepultura se lê a seguinte inscripçaõ que igualmente relata os lugares que possuio, como os legados pios que deixou.

Ao pé deste Epitafio jaz sepultado o Doutor Thomé Pinheiro da Veiga do Conselho de Sua Magestade seu Desembargador do Paço, Procurador da Coroa, Juiz das Capellas, Ouvidor de Fazenda da Rainha N. Senhora, e como Vedor della: de idade de 90 annos de perpetua memoria por suas letras, inteireza, e experiencia, e exemplar erudiçaõ. Deixou na sua Capella de S. Joaõ de Coimbra seis Mercieiras, e Capellaõ; e em esta Santa Casa dous Capellaens com Missa Quotidiana para sempre pela sua alma: deu de esmola á Confraria de Santo Antonio quatrocentos mil reis por esta sepultura. Falleceo em 29 de Agosto de 1656.

Requiescat in pace.

A fama do seu nome se extendeo com tanta gloria pela Europa, que em hum livro de Retratos de Varoens insignes impresso em 1650 se ve o deste grande Jurisconsulto. O Senado de Olanda por carta escrita em Haya no anno de 1651 ao seu Residente em Lisboa, mandou que lhe remetesse o retrato natural de Varaõ taõ insigne, e o collocaraõ no Senado entre os homens famosos da sua Naçaõ. Ignacio Pereira de Revisionib. Cap. 10. n. 22. e Simaõ de Oliveira da Costa de Munere Provisoris. cap. 2. §. 20. o intitulaõ insignis. Compoz

Carta escrita em o anno de 1656 sobre se levar salario de todos os legados cumpridos, e por cumprir. Sahio no Tom. 1. Decis. de Manoel Themudo da Fonseca Decis. 16. n. 9. p. 73. Ulyssipone apud Dominicum Lopes Rosa. 1643. fol.

Repostas como Procurador da Coroa. ibi Decis. 98. n. 32. Decis. 100. n. 5. No Tom. 2. Decis. 102. n. 11. p. 238. Tom. 3. Decis. 151. n. 2. p. 2.

Epitome da Vida do Doutor Gabriel Pereira de Castro Corregedor do Crime da Corte. O Original conservava meu irmaõ D. Jozé Barbosa Chronista da Serenissima Casa de Bragança, o qual he escrito com summa elegancia. Começa. Tiveraõ entre si contenda muitas Cidades em Grecia, &c. Acaba. Vivirá todos os seculos futuros. Nesta obra declara ter composto.

Discurso de Ministros de Justiça.

Dos Varoens illustres do Reino de Portugal. Fallando nesta mesma obra de Duarte Pacheco Governador da India, de cujos gloriosos feitos rezervo a historia para meus melhores, o mais descançados annos.

Fastigenea, ou Fastos geneaes tirados da tumba de Merlin, onde foraõ achados, e publicados pelo famoso Lusitano Panteleaõ, que os achou em hum Mosteiro de Calouros repartidos em duas Partes; a primeira das festas que se fizeraõ pelo nacimento do Principe Filippe, depois Rey quarto, ao qual poz o titulo de Philistrea. A segunda Pralogia em que trata do entretenimento do Prado de Madrid, e boa conservaçaõ das Damas, por outro nome baratilho quotidiano. Vay acrecentada nesta Impressaõ a Pincigraphia, ou discriçaõ, e historia natural de Valhadolid. Sub signo Cornucopiae in foro Boario. Excudebat Cornelius Cornelli ex genere Corneliorum. Á custa de Jaime de Temps perdut comprador de livros de Cavallarias. Repostas de palavra, e por escrito a ElRey, e aos Tribunaes. 4. M. S. 4.

Pareceres, e Tençoens na lingoa Latina. fol. 2. M. S.

Regimentos para diversos Tribunaes feitos por ordem delRey D. Joaõ IV. fol. M. S.

Poezias varias. 8. M. S.

Discretos, e elegantes Apothemas. M. S.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]