V. P. Fr. THOMÉ DE JESUS, naceo em Lisboa, sendo filho de Fernaõ Alvares de Andrade Thezoureiro mór delRey D. Joaõ III, e do seu Conselho, e de D. Izabel de Payva; e irmaõ do famoso Theologo Diogo de Payva de Andrade, e de Fr. Cosme da Prezentaçaõ Erimita Augustiniano dos quais se fez memoria em seus lugares. Desde a infancia deu manifestos indicios da inclinaçaõ, que tinha para a virtude, e anhelando a pratica-la com mayor observancia buscou o claustro dos Erimitas de Santo Agostinho professando o seu sagrado instituto no Convento de Lisboa a 27 de Março de 1544. Com tal excesso se distinguio no exercicio das virtudes religiosas que admirado o V. Fr. Luiz de Montoya da velocidade com que voava ao cume da perfeiçaõ evangelica, lhe comete o a cultura das novas plantas, que haviaõ de frutificar para beneficio da Religiaõ, de cujo ministerio exercitado por muitos annos deixou multiplicados herdeiros do seu apostolico espirito. Inimigo do tumulto da Corte, e amante da tranquillidade da solidaõ alcançou faculdade dos Superiores para se retirar ao Convento de Penhafirme, onde passava dias, e noites contemplando em os divinos atributos, de cuja suave meditaçaõ o suspendia o zelo com que sahia a prégar pelas aldeyas, e lugares circumvesinhos á sua habitaçaõ colhendo copiosos frutos daquelles que anciosamente concorriaõ a ouvir os seus Sermoens. Deste evangelico exercicio passou constrangido a ser Visitador da Provincia, em cujo lugar mostrou a constancia de animo, e prudencia de juizo de que era summamente dotado triunfando de grandes contrariedades sem offensa da justiça, e com gloria da observancia. Foy o primeiro Fundador da Reforma descalsa da sua Ordem Augustiniana executada no anno de 1574 com aprovaçaõ do V. P. Montoya a qual introduzio em Espanha Fr. André Dias no anno de 1594, e se propagou por Italia em 1659, e por França em 1610. Resoluto ElRey D. Sebastiaõ a executar a infeliz jornada de Africa em o anno de 1578 o nomeou para o acompanhar com a incumbencia de assistir aos infermos, em cujo exercicio deu os mais claros argumentos da sua ardente charidade, e natural comiseraçaõ. No infausto dia do combate, quando discorria pelo campo animando aos nossos soldados com hum Crucifixo arvorado foy ferido em hum hombro com huma lança por hum mouro, de cujo golpe cahindo por terra o cativou outro barbaro, e o conduzio á Cidade de Maquinés. Intentou este como acerrimo sequaz de Mafoma persuadir-lhe que abjurasse a Ley de Christo prometendo-lhe para este effeito as mayores honras, e riquezas, e sobre tudo o valimento para com o seu Principe; porêm o Varaõ apostolico desprezadas estas promessas lhe mostrou ser a sua crença falsa, e a que elle professava verdadeira, e infallivel. Dezenganado o barbaro de ver frustrada a sua deligencia o fechou em huma horrivel masmorra, onde padeceo por largo tempo fomes, sedes, e ludibrios. Para suavizar as affliçoens, que tolerava em taõ horrorosa habitaçaõ, e consolar aos Cativos que gemiaõ tyranizados escreveo nas horas que lhe permetia a luz que escassamente entrava pelas fendas da porta do carcere o admiravel livro que intitulou Trabalhos de JESUS, onde se relataõ os tormentos que o Verbo Divino padeceo em sua vida até consumar no Calvario a Redempçaõ do genero humano. Informado o nosso Embaxador D. Francisco da Costa (que neste tempo tratava em Marrocos do resgate dos cativos) do miseravel estado a que estava reduzido o V. Padre, alcançou de Xarife ordem para que o Governador de Maquinés o remetesse. Sahio da prizaõ taõ desfigurado, que mais parecia cadaver, do que homem, e querendo o Embaxador que assistisse em sua casa a deixou pelo carcere, onde servia aos cativos com excessiva comiseraçaõ compondo discordias, extinguindo odios, e ministrando Sacramentos. Tal era a charidade em que ardia o seu coraçaõ em beneficio dos Cativos que querendo restituilo á liberdade a Condessa de Linhares sua irmã nunca quiz assentir a este intento, querendo antes sacrificar a vida entre os cativos, que voltar para a sua patria. Cumulado de obras taõ heroicas, e chegado o tempo de serem eternamente premiadas recebeo os Sacramentos com summa piedade, e havendo vaticinado o dia da sua morte passou de caduco a eterno a 17 de Abril de 1582, quando contava 53 annos de idade, e 38 de Religioso, dos quaes quatro esteve cativo. Fazem deste aposcolico Varaõ memoria o Licenciado Jorge Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 2. p. 610. e no Comento de 27 de 17 de Abril letr. D. Fr. Bernardo a D. Ant. Epit. Redempt. lib. 2. cap. 10. §. 5. Rhó Var. virt. hist. lib. 1. cap. 3. n. 23. Herrera Alphab. August. lit. T. Fr. Anton á Purif. Chronol. Monast. p. 49. e de Vir illustr. Ord. Erimit. D. Aug. lib. 3. cap. 14. e na Chron. da Prov. de Portug. Part. 2. liv. 5. Tit. 3. §. 22. Thomaz Gracian. de Script. Ord. Erim. D. Aug. p. 172. Elssio Encom. p. 657. Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. p. 246. col. 1. Joan. Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. lit. T. n. 11. Magna Bib. Eccles. Tom. T. pag. 436. col. 1. Faria Europ. Portug. Tom. 3. Part. 1. cap. 2. n. 13. Camargo Chron. Sacr. al año de 1582. Fr. Maurit. Sacr. Erem. Aug. liv. 1. cap. 2. §. 10. Franc. de S. Maria Diar. Portug. Tom. 1. p. 636. da 2. ediçaõ. Compoz

Trabalhos de JESUS. Primeira Parte. Lisboa por Pedro Crasbeeck. 1602. 8.

Segunda Parte. ibi pelo dito Impressor. 1609. 8.

Sahiraõ ambas estas Partes em hum Tomo. Lisboa por Domingos Carneiro 1666. 4. & ibi na Officina Augustiniana 1733. 4. 2. Tomos. Vertido em a lingoa Castelhana por Christovaõ Ferreira de Sampayo. Çaragoça por Juan de Lanaya 1631. 4. com a vida do Author, escrita por D. Fr. Aleixo de Menezes, e Barcelona por Jozé Texidó. 1724. 4. 2. Tomos. Na lingoa Latina com o Titulo Aerumnae J. C. Monachii. 1676. 4. em a Italiana pelo P. Luiz Flori Jesuita. Roma por Hermano Schices 1644. 4. Na Franceza pelo P. Gilles Alcaume. Pariz. 1693. 8. Em diversos Metros Latinos. Verteo esta obra Salvador de Mesquita insigne Poeta, e sahio Romae Typis Philippi Mariae Mansini 1665. 4.

Oratorio Sacro de soliloquios do amor divino, e varias devoçoens a Nossa Senhora. Madrid por los herderos de Madrigal. 1628. 8. e Lisboa na Officina Augustiniana 1734. 12.

Carta derigida á Naçaõ Portugueza escrita do cativeiro de Marrocos a 8 de Novembro de 1581. Sahio impressa no principio dos Trabalhos de JESUS. Lisboa por Domingos Carneiro 1666. 4.

Praxis verae fidei qua Justus vivit. Coloniae 1629. 12.

De Oratione Dominica. Antuerpiae 1623. 8.

Vida do Ven. P. Luiz de Montoya. grande parte della sahio na que publicou Fr. Jeronymo Roman Erimita de Santo Agostinho, que sahio em Lisboa 1588. 12. como confessa no Prologo, dizendo: Mas porque en ningun tiempo fue licito quitar la gloria a quien se deve, es justo que se encomiende a la memoria quien tomo primero este travajo, y se dè a cada uno lo que es suo. El Autor, y quien puso màs diligencia en esta vida fue el Religioso Padre Fray Thomaz de JESU o Andrada, cuya fee, y verdad está bien confirmada con su observante vida, y obras pias, y muy catholicas, que obrò en Africa, &c.

Quarta Parte da Vida de Christo, que deixou por compor o Ven. P. Fr. Luiz de Montoya. M. S. Equivocou-se Nicol. Ant. Bib. Hisp. Tom. 2. pag. 247. col. 2. escrevendo que Fr. Jeronymo Roman acabara a 4. Parte dos Trabalhos de JESUS do V. Fr. Thomé, quando nunca houve mais que duas partes, devendo dizer, que Fr. Thomé escrevera a 4. Parte da Vida de Christo, que deixara por compor Fr. Luiz de Montoya Author das tres partes.

Costumes do Noviciado. M. S. Por esta instruçaõ se educavaõ os Noviços.

Comedia do grande Padre S. Agostinho. Representou-se em Marrocos comfaculdade do Xarife. Affirma Jorge Cardoso no Agiolog. Lusit. Tom. 2. p. 620. col. 2. que a vira em poder dos Religiosos desta Provincia de Santo Agostinho.

Carta escrita de Lisboa a 14 de Julho de 1557 aos seus Religiosos em que lhe dá conta da doença, morte, e enterro delRey D. Joaõ III. Começa. O Espirito Santo consolador, e amparo dos atribulados condole suas almas, &c. O Original conservo em meu poder.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]