“Eu sou Povo; não sou senão Povo e nada mais quero ser. Vivo a vida, não com optimismo, não: mas com simpatia; com simpatia e comoção; com a comoção, a ternura, a simpatia que só no Povo há. Mesmo os meus devaneios de aristocrata são Povo; meus requintes – de ingénuos – são Povo; meu cachimbo e meu gosto de viagens são Povo.”

Por: Teresa Martins Marques

A província das suas raízes familiares, o Alentejo e a cidade que lhe foi berço são lugares selectos da obra davidiana, que por esta forma lhes presta a devida homenagem. O nome do bairro de Lisboa em que nasceu simboliza a própria essência protectora da imagem materna da cidade, a que para sempre ficaria umbilicalmente enlaçado. “Lapa” é a concha univalve dos gastrópodes de que nos alimentamos, mas é também a cavidade de um rochedo, a pedra que serve de abrigo. Alimentação e protecção, duas palavras indissoluvelmente ligadas à função materna, que um acaso toponímico viria a inscrever no início da viagem do futuro escritor. Lapa da cidade feita de arcadas, que são regaço, mas que foram também palco do regicídio, de revoluções, lugar do sangue, de vida e morte como nos mostra o poema «Certidão de Nascimento» (VC:402):

Tão regaço estas arcadas / Tão de brinquedo os eléctricos / Vejo a cidade parada / no ano de vinte e sete / Dela por vezes me evado / mas sempre a ela regresso / Bem sei eu que não desato / o cordão com que me aperta / Vejo seus gestos de grávida / medidos cautos imersos / nessa jovem gravidade / que só grávidas conhecem / Que frescor de madrugada / no terror com que me espera / Mães têm sempre a idade / que em sonho os filhos decretam / Recordo melhor a data / Até mesmo a atmosfera / É o dia vinte e quatro / de um mês a tremer de febre / com armas grades e o rasto / de um sangue que nunca seca / Só seis decénios passaram / rápidos como seis séculos / Tão pouco  Mas neles cabem / cidade arcadas eléctricos / nesta imensa claridade / irmã gémea do mistério

A cidade funciona como metonímia da própria mãe, de quem não desata os laços, mesmo quando o tempo passou, mas não mudou a essência da ligação. As mães são jovens por decreto dos filhos que não querem que elas envelheçam, nem eles mesmos querem envelhecer. A sua juventude é feita da resistência de quem se deseja eterno Peter Pan. Esse o mistério do tempo que passa e não passa. O sangue que não seca é o da Revolução de Fevereiro de 1927, a primeira, em vão, levada a cabo contra o golpe de 28 de Maio de 1926, ocorrida menos de um mês antes de David nascer. E se, neste poema, a mãe representa a doçura, a ternura, o regaço da cidade, o pai representará o sangue, a luta, a coragem, a resistência à opressão.

Em 1993, cinco anos depois da publicação deste poema, a presidência da Junta de Freguesia da Lapa solicita-lhe um depoimento sobre o bairro que o viu nascer, e o escritor corresponde-lhe com o texto, que a seguir se transcreve, o qual viria a ler perante uma assistência comovida, aquando do lançamento do Guia da Lapa, que teve lugar nesta freguesia, nas instalações do Grupo de Teatro O Bando  Estrela 60 e se publicou, posteriormente, com o título «O Bairro da Lapa»[1]:

Nasci no esporão mais ocidental da Lapa, exactamente a pique sobre o que então se chamava a Cova da Moura e por onde actualmente corre o asfalto da Avenida Infante Santo. Trata-se de uma zona de quase fronteira (da outra margem do desfiladeiro ergue-se o morro das Necessidades) ou, melhor dizendo, de uma espécie de finisterra em relação ao bairro propriamente dito; e, segundo penso, o mais relevante do seu traçado urbanístico datará tão-só dos finais da Primeira Guerra. O certo é que ainda tinha a designação de Bairro Novo da Lapa quando minha avó materna, em 1921, se tornou a primeira locatária desse prédio da Rua Joaquim Casimiro onde viriam a decorrer os primeiros quinze anos da minha vida. E quando eu lá nasci, seis anos depois, continuavam a ver-se, tanto na rua mencionada como na Maestro António Taborda, lotes de terreno por construir, aos quais se dava o nome de “terras” para onde os ganapos mais livres iam “reinar” e onde, em certos anos, por altura dos Santos Populares, se improvisavam arraiais, verbenas, bailaricos.

O prédio em cujo bojo vim ao mundo ainda hoje lá está: sóbrio, discreto e ao que presumo sem grandes maleitas, mau grado a certidão de idade que já o dá como septuagenário. O que todavia entretanto perdeu, em virtude das alentadas empenas que do fundo da Infante Santo desataram a crescer, foi o assombroso panorama que dos terraços das suas traseiras se desfrutava: nada menos que toda a líquida extensão do Tejo, desde o cais de Alcântara até ao Bugio, bem como, à direita, na retroterra. A mágica sucessão de palácios, torres, oficinas, vivendas, casebres e fabriquetas, até ao denso arvoredo da tapada da Ajuda (do da tapada das Necessidades só se enxergavam algumas copas) e, mais a norte e ao fundo, já mesmo as primeiras encostas, então de todo peladas, daquilo que nós, lisboetas, persistimos em designar (ou não tivéssemos apenas a prática de colinas em matéria de orografia) como sendo, pomposamente, a “serra” de Monsanto.

Mas foi esse terraço, em cujos horizontes se me espraiaram os mais luminosos dias da infância, o grande responsável, afinal, por só pouco a pouco, e um tanto tardiamente (aí pelos oito, nove anos), me começar apercebendo do bairro a que os prédios daquela rua como avançadas guardas ainda pertenciam, e que protectoramente me espaldava, por mais que sem querer eu lhe voltasse as costas; e, sobretudo, de que esse bairro se chamava a Lapa. Era como se o tal terraço, até aí, em termos de mundo externo, me tivesse confusamente feito as vezes de rua, de bairro, de cidade, de país, quem sabe se de continente, talvez mesmo de planeta.

Pela posição do galo da igreja das Necessidades aprendera eu a saber – a supor que sabia – se era chuva ou bom tempo o que se anunciava. Pelas bandeiras hasteadas nos grandes paquetes que entravam a barra – e cuja aproximação se espiava através de binóculos – comecei conhecendo pelo menos os nomes de muitos países. E através de súbitas ou suspeitas movimentações no velho quartel, mesmo ali em baixo, à distância de um grito, e que ostentava o nome patusco de Batalhão Hipo-Móvel da Cova da Moura, adivinhava-se ou julgava adivinhar-se (estariam de prevenção simples? ou de prevenção rigorosa?) que alguma coisa iria mal no execrado regime que nos regia. Enfim, as primeiras e vagas noções acerca do tempo e do espaço, acerca do Mundo, acerca da História, foi lá, naquele terraço, que principiaram a aflorar-me. Mas faltava-me enfim, ser iniciado, toscamente que fosse nos mistérios da vida de relação; e semelhante experiência ficá-la-ia devendo, já para além do restrito círculo familiar, a três sucessivas realidades de âmbito crescente: a do prédio, a da rua, a do bairro. A do bairro da Lapa. […]

A casa da infância ficará para David, ou para Gabriel, como memória de “alma alongada”, nas palavras de José Rodrigues Miguéis em A Escola do Paraíso, referindo-se ao imaginário da Lisboa ribeirinha, do lado oriental: “Os paquetes atracam logo em baixo, no cais, e a rua deve talvez o nome à saudade que para sempre ficou flutuando no sítio: a saudade dos que ficam e a dos que partem e querem prender-se à terra, de braços, olhos e almas alongadas.”[2]  O menino Gabriel contempla o espectáculo dos barcos e, pelo olhar, descobre o rio-mundo do alto da mansarda na Rua da Saudade, que encerra no nome a luz radiante da chegada, mas também a sombra triste da partida dos navios ancorados no rio, que dela se avistam. Ao olhar de Gabriel na parte oriental da cidade corresponde o olhar do pequeno David na parte ocidental: “Pelas bandeiras hasteadas nos grandes paquetes que entravam a barra – e cuja aproximação se espiava através de binóculos – comecei conhecendo pelo menos os nomes de muitos países.” É ainda o universo visto da Lisboa de Cesário – Paris, São Petersburgo, o Mundo – de «O Sentimento de Um Ocidental», que paira nesse olhar retrospecto da infância, “[…] luminoso aro mediterrâneo, quase levantino, e como que já a caminho entre Roma e Nova Iorque, Londres e Rio de Janeiro, Paris e Toronto”. Ainda neste mesmo ano de 1993, voltará a referir-se à água matricial de Lisboa, na abertura da segunda parte de Jogo de Espelhos –  «Auto-Retrato- Primeiros Traços»: “Nasceu Sob o signo dos Peixes, / numa casa de onde se avistava até à barra, todo o estuário do Tejo. / Nos olhos sobretudo lhe ficou o espectáculo dos barcos que partiam.” (JE II:I)

Pelo mesmo bairro deambulou o angustiado narrador do conto «A Tua Véspera de Natal» (DHL), bem como Sertório, personagem de «Casal Venha a Lisboa» (GT), no seu regresso das partes de África. É ainda José Rodrigues Miguéis, o de Saudades para a Dona Genciana, que perpassa na Avenida “novinha em folha”, comum aos dois textos, significando em JRM a Avenida Almirante Reis e em DMF a Avenida Infante Santo. Em ambos, as mesmas “terras” onde os ganapos iam reinar. A mesma nostalgia do tempo que passa, da infância irrepetível. Neste bairro vai nascer Leonardo Luna – personagem central do romance inconcluso A Lua da Lapa, no qual o escritor trabalhou nos últimos anos de vida. Leonardo fora professor numa universidade americana, regressa a Lisboa, à Lapa que o viu nascer, e é o “autor” dos cinco sonetos que DMF acabaria a publicar, em seu próprio nome, intitulados Rime Petrose.[3] Se tivermos em conta que a díade “pedra / nuvem” é fundamental na arquitectura de Rime Petrose, observe-se como é justamente esta díade que alicerça o décimo oitavo poema de Lisboa Luzes e Sombras, aludindo à Torre de Belém, cuja foto se encontra na página contígua e, muito particularmente, no último dístico do poema: “Torre nas nuvens colocada / mas que das águas nasce ainda // Assim também esta cidade / no que empreende e realiza // Com pedras de água se prepara / Nuvens de pedra o que edifica.”São particularmente visíveis os vasos comunicantes que o tema da Lapa e da lua estabelecem com o álbum Lisboa Luzes e Sombras[4], publicado em 1992, um ano antes de Jogo de Espelhos e da crónica «O Bairro da Lapa». A décima nona poesia – «Não há Lua mais lunática» –, constitui o melhor exemplo daqueles vasos comunicantes e da interacção feliz entre texto e imagem. Em duas fotos contíguas da página 80 vemos, numa delas, a partir do Miradouro de Santa Luzia, a Lua Cheia a romper de um céu muito nublado. Na outra, em fundo, o rio, as luzes da Outra Banda, e, em primeiro plano, o casario da cidade. E é como se fora Leonardo Luna a escrever estes versos:

Não há Lua mais lunática / do que a Lua de Lisboa / Nem tão-pouco mais extáticas / muralhas que a bebam toda / É uma espécie de poalha / mas que líquida se escoa / sobre os telhados das casas / e nas almas das pessoas / Tudo dilui tudo alaga / tudo às vezes enevoa / Mas nada tem de abstracta / só um pouco de barroca // E muito muito lunática / esta Lua de Lisboa

Sol e lua, dia e noite, luz e sombra, celebração e melancolia, nas casas e nas almas de Lisboa, e particularmente na alma de Fernão, narrador de Um Amor Feliz, que já em criança via também o mundo, a partir de um terraço de Lisboa cheio de sol, a braços com a angústia da perda do pai, herói morto, e da perda da mãe para os braços imperdoáveis do padrasto. Terraço Aberto é o título escolhido pelo autor, neste ano de 1992, para o volume que reúne crónicas e ensaios, onde não poderiam faltar «Saudades de Lisboa» e o «Privilégio do Tejo», «Lisboa Docas e Cais», como retorno iniludível ao espaço-berço.

Um interessante retrato da capital-mulher, na tradição literária da Lisboa feminina de Raul Brandão, que DMF reactualizou na personificação que faz das cidades[5], encontramo-lo bem patente em crónica[6] de Memórias de Lisboa[7]A contenção do texto é um dos factores que contribuem para a sua expressividade:

«Lisboa-Mulher»:

De manhã cedo, sobretudo em dia de névoa, Lisboa continua a ser a rapariguinha de quinze anos de quem há meio século me enamorei.

Esgaivotada e precoce, maliciosa, furtiva, imprevisível, vem lá do lado oriental da cidade, não sei se de Alfama se do Castelo, talvez da Graça, agora mesmo saindo de umas águas-furtadas onde ninguém mora.

Na líquida superfície de umas quantas fachadas de azulejo, o seu vulto desdobra-se em arbustos, em pássaros, em conchas, em açafates de flores. Ao chegar às ruas da Baixa agrada-me ver-se reflectida, em corpo inteiro, nas montras de lojas que desapareceram, nas portas giratórias de cafés que já não existem.

Depois, ao longo do Tejo, como que aí tenta reencontrar a imagem remota de um irmão que morreu. Quando enfim sobe, cerca do meio-dia, pelo túnel de escombros do Chiado, até ao Alto de Santa Catarina, ou a São Pedro de Alcântara, ei-la já mulher feita, com todos os sinais de uma rosada plenitude. Mostra-se todavia menos segura da sua força que receosa da sua graça.

Mal o dia começa a declinar, detém-se no centro de pequenas ou grandes praças onde o Sol, segundo julga, lhe terá marcado encontro; mas muita vez é antes o vento que comparece à entrevista.

Sente-se então arrastada para ofegantes avenidas em que um tráfego pegajoso e espesso a deixa exausta; para afogueados subúrbios que num instante se tornam lívidos; para azinhagas de má fama onde corpos e drogas se traficam; para esquinas agudas como egoísmos que lá se cruzam ou as solidões que lá se defrontam. É este o momento em que toda se espanta de ter envelhecido tão depressa.

Pior ainda em noites de Inverno. Tarde ou cedo que recolha a casa, jamais consegue dar com o prédio que de manhã a viu sair.

E tem, de repente, a idade que eu tenho agora[8].

A névoa que paira nas manhãs da cidade é a mesma do passado, memória difusa do tempo que já não existe. É uma cidade metonímica da mulher, mas também do sujeito, como se vê na última frase. Sujeito que já fora anunciado na referência autobiográfica do irmão que morreu. A cidade-mulher que não encontra a casa, o prédio de onde saiu de manhã, apontam para dois tipos de decadência: a embriaguez de quem perdeu o norte e quer esquecer; a deriva de quem dorme ao deus-dará, que viaja com qualquer vento de proa. A conotação sexual da adjectivação, faz pressupor que o tráfego é outro, que o escape é outro – o vento, a variância, a mutabilidade, a  deriva como retrato psicológico do sujeito e retrato social da cidade. Marginalidade, abandono, solidão de quem perdeu as coordenadas da vida.

A preocupação com a investigação das suas raízes é revelada logo aos 16 anos numa aturada pesquisa que leva a cabo junto dos pais, tios e outros familiares, no sentido de averiguar as suas origens materna e paterna. De tal pesquisa ficaram «Apontamentos para uma árvore genealógica» (Setembro de 1943), um conjunto de sete páginas, justamente tratadas em árvore, tendo conseguido apurar do lado materno cinco gerações,[9] bem como colaterais e também do lado paterno, três gerações e colaterais[10]. As raízes são, pelo lado materno, de lavradores e pequenos agricultores. Pelo lado paterno, de militares e de comerciantes. Reconhece-as como populares, [11]  neste excerto do DI, datado de 21 de Dezembro de 1947.

Eu sou Povo; não sou senão Povo e nada mais quero ser. Vivo a vida, não com optimismo, não: mas com simpatia; com simpatia e comoção; com a comoção, a ternura, a simpatia que só no Povo há. Mesmo os meus devaneios de aristocrata são Povo; meus requintes – de ingénuos – são Povo; meu cachimbo e meu gosto de viagens são Povo. Meu avô […] homem dos sete ofícios; um dia arranjou dinheiro e veio de abalada até Lisboa. De outra vez foi ao Algarve; só; aí, soube-o depois minha avó, andava de carruagem, a espalhar dinheiro pelos miúdos – dinheiro que, entretanto, fazia falta a minha avó e meus tios. Povo! Sou Povo, Sou esse meu avô. Eu, poeta, a ele o devo. Quando namorava minha avó, mandou-lhe a seguinte quadra: «Tenho dentro do meu peito / ginja, laranja, limão; / para ter os frutos todos / falta-me o teu coração.»

– “Que valem, ao lado disto, todos os versos que tenho feito?” – pergunta o jovem poeta, com evidente orgulho, referindo-se à poesia popular desse mítico avô de quem se considera duplamente herdeiro. As raízes familiares serão transformadas em matéria poética na «Xácara dos Campos de Elvas» (QCT: 106-107), a qual, conforme observou Fernando J. B. Martinho, se define como “radical ausência dos mortos, que, no entanto, pela memória e pela continuidade das gerações, junto dos vivos permanecem”[12]. São cinco as gerações ali referenciadas: a primeira a do trisavô dos Açores que teria acompanhado o Rei libertador D. Pedro IV, e que numa aliança terramar viria a deitar raízes no Alentejo; “Mas aqui veio ancorar, aqui raízes deitou / esse soldado do mar”. A última geração é representada pelo filho David João, único à data da escrita do poema (9/5/1956). A alusão é, por vezes, implícita, como no caso de Santa Eulália, topónimo alentejano, mas também ao nome da mãe dos seus filhos, “santa em sua vida”:“Perto fica Santa Eulália, / que é santa na minha vida! / Do outro lado é a estrada / que vai dar à Andaluzia / e que trouxe de Granada / a bisavó granadina…/ – Há cinquent’anos, compacta, / hoje dispersa a família..!” A santidade que lhe é atribuída vai servir de contraponto, num tom que nada tem de penitencial, ao estatuto de pecador, que assim se regozija de pertencer a uma linhagem, também ele alferes de Caçadores, na senda do avô: “sobretudo de mulheres foste grande caçador!”Refere-se, uma vez mais, a este seu avô, em carta inédita dirigida a Maria Adelaide Lima Barreto, datada de 15 de Abril de 1949, após visita ao cemitério de Elvas:

[…] confesso o meu especial fraquinho por meu bisavô que se chamava David Ferreira, e por seu filho, o meu avô José Mariano, que morreu há perto de cinquenta anos, tuberculoso e com 36 anos (uma riquíssima idade para se morrer!): era grande amador de Amor e grande amador de teatro. E, ou porque representasse muito bem ou porque amasse menos mal, o certo é que ele simples alferes de Caçadores 4, razoavelmente pelintra, segundo creio, veio a casar com minha avó Adelaide Sofia, bonita e rica. Tudo me leva a crer que ele prestou o devido culto a ambos os dotes da minha avó. A verdade é que, enquanto casados, se foram vendendo umas casas, e, depois da morte dele, olivais e terras de semeadura lá foram por água abaixo. Hoje, ao passar por olivais que pertenceram a minha avó, penso: “Isto podia ser meu…culpa de quem? De meu avô que não teve juízo…” Mas sinto-me feliz: prefiro não ter aquelas árvores, aqueles campos, mas ter tido um avô que não teve juízo. Um avô assim é uma grande coisa: que mais não seja, será sempre uma desculpa, uma atenuante para os possíveis desvarios do neto… (EDMF)

A procura da justificação de um destino inscrito na continuidade geracional, e até mesmo a imagem dos “olivais que foram da avó”, que encontrámos no poema, está já, sete anos antes, formulada nesta carta. Assim como está lá também a figura do alferes de Caçadores, sobretudo de mulheres. Assim transitam os temas e as imagens no discurso davidiano, independentemente dos géneros que o configuram, tecendo uma memória interna, um sistema de vasos comunicantes, sem que necessariamente o aumento de uma imagem contribua para fazer baixar outra, como  nas leis da Física. A referenciação da origem da “avó granadina” da «Xácara» será sujeita a várias oscilações. Virá a sofrer rectificação num texto de 1970, intitulado «Caleidoscópio Espanhol»[13], que a apresenta como sendo originária de Córdova:

E Córdova, por fim. Córdova, de onde, afinal de contas, era natural a minha bisavó que durante anos e anos supus que fosse granadina. Córdova, «romana y mora» onde, vendo bem, tenho ainda outros parentes, mais distantes no tempo, mais próximos contudo pelas linhas do coração e da cabeça. Sei mais a respeito de Góngora que da vida obscura da minha bisavó; e Córdova como pátria de Gôngora, de Lucano e dois Sénecas, não tem menos a ver comigo, com a minha verdadeira «ascendência», que essa modesta oitava parte das minhas raízes meramente biológicas. E com o resto da Espanha passa-se exactamente o mesmo: os seus poetas, os seus prosadores, os seus pensadores pertencem igualmente à minha «família». (TA: 27)

Todavia, no «Romance de Granada», publicado dez anos mais tarde (1980), volta a ambiguidade a instalar-se, no final do poema: “Quem sabe se noutros tempos / me foram berço ou sepulcro / Quem sabe se hoje o dizendo / revelo um ontem oculto / Granada já mal te lembro / Só assim te redescubro. “Ambiguidade que resulta da dupla interpretação como alusão à família biológica, ou como alusão à família do espírito, que o final de «Caleidoscópio Espanhol» enaltece. Esta família espiritual leva-o à solidariedade no luto diferido no tempo, criando laços culturais e intelectuais que, afinal, se sobrepõem aos laços de sangue, tecendo outras genealogias do espírito. É a solidariedade com Lorca que ressalta do «Romance de Granada», o poeta que se sobrepõe ao espaço, que agora nobilita a cidade, que o fez perecer: “Ó carpideiras do vento / com Sol também à mistura / por Federico tecendo / a vossa teia soturna / dançai antes o flamenco / a ver se muda a fortuna / Mas basta a sombra de um lenço / fala-se logo em conjura / Mas basta a graça de uns dentes / que mordem a terra nua / logo se vêem crescendo / ciladas e sepulturas” (ORO: 290) Não se deduza, todavia, por interpretação literal, a partir daquele excerto de «Caleidoscópio Espanhol», que os laços de sangue são menos importantes do que os laços do espírito. Desde a mais tenra infância eles foram cultivados no seio familiar, muito particularmente sob a forma de cultualização da memória dos mortos. Na mais antiga das agendas que me foi dado encontrar, e que se reporta a 1938, isto é, aos onze anos do pequeno David, leio uma referência, com data de 22 de Janeiro, ao “8º aniversário da morte da avozinha Mariana”, e uma outra, de 26 de Março, ao “1º aniversário da morte do tio Francisco Rita (tenente-coronel reformado)”. Se pensarmos que a morte deste tio era recente e, por isso, estaria ainda na sua memória, tal não poderemos concluir sobre o outro caso, atendendo a que a morte da avó Mariana ocorrera quando a criança não completara ainda três anos. Fica bem claro que, mais do que uma possível e improvável memória experienciada do ocorrido, é antes uma tradição familiar de cultualização da memória dos mortos. Em 1963, escreve o poema «A Outra Noite de Natal» (CN: 223)[14], de inspiração brandoniana, em homenagem aos que partiram, numa linha ritualizada desde a mais remota infância, subvertendo, porém, o ponto de vista tradicional em que os vivos choram os mortos, já que são estes que choram os vivos, lendo-se em filigrana outro tema muito do seu agrado –  o da  comunhão, sincera ou insincera, que o Natal potencia e que atinge o auge negativo na peça O Irmão, como adiante veremos. Estes mortos sabem que os vivos voltarão e que a linha que separa a vida e a morte não passa de curto interregno entre dois modos de existência:

Juntam-se os mortos hoje à noite, / juntam-se à roda de uma árvore, / ainda verde ou já em fogo, / para chorar a nossa falta. // Ainda verde? Ou já em fogo? / Fraternidade: ó flor, ó cinza! /Juntam-se os mortos hoje à noite / para fingir que são felizes. // Sopram a neve. Acendem velas. / Rompem de súbito a cantar: / Dizem que estão à nossa espera. / Sabem que havemos de voltar.

A família alargada aos tios e primos é interiorizada como um valor a respeitar. Por isso, o pequeno David diz-nos na mesma agenda, com data de 7 de Maio: “Apanhei duas reguadas por desobedecer à tia Bia”. Castigo bem maior foi-lhe infligido pela prima Helena, na véspera de outra data para ele memorável – o aniversário dela –, comemorado com cinema em casa do pai da jovem, o seu tio Inácio. A prima Helena é a figura real sobre a qual construiu a personagem Maria Antónia, protagonista de «Tal e Qual o Que Era», a primeira narrativa de Gaivotas em Terra. Lembremos o que o autor nos diz sobre o modelo real, como ponto de partida e sobre a criatura ficta, como ponto de chegada – o trânsito entre a realidade e a ficção:

Em 1957 iniciei a segunda novela, que está em primeiro lugar no livro, «Tal e Qual o Que Era». Iniciei-a na noite do dia em que foi enterrada uma amiga minha, muito mais do que amiga. Ao contrário da novela «E aos costumes disse Nada», que é trabalhada com uma certa sabedoria, porque se vão acumulando muitos indícios que depois eclodem no final, esta foi uma coisa muito mais autobiográfica, que saiu muito mais de dentro de mim. A outra é um pouco mais anedótica, embora sejam as duas de que mais gosto. A escrita desta novela foi de facto uma experiência de catarse, porque se tratava de uma amiga e companheira de infância – na vida real era até mais do que isso, era minha prima direita –, que teve uma morte inesperada, mais prematura ainda que a da Maria Antónia. A Maria Antónia morre com trinta e três anos, esta morreu com vinte e oito. É claro que há esse modelo, mas depois tudo o resto é muito diferente. A figura real, quando morreu, já era casada, já tinha um filho e – ao contrário do que a sua infância e adolescência podiam fazer prever – tinha-se encaminhado para uma vida burguesa. Estava completamente rangée, já estava ordenada dentro da sociedade, o que não é o caso da Maria Antónia. A Maria Antónia está muito mais fora de todos esses padrões. A figura real que lhe serviu de modelo teve, por consequência, uma evolução diferente e eu não aproveitei esse aspecto, quer dizer, o que imaginei foi que a evolução fosse aquela que na história se relata. (Somai, 1997: 38-39)

A preciosa agenda de 1938 mostra-nos a experiência do ciúme sentido pela criança de 11 anos, o qual estará na base da transposição ficcional que o futuro escritor virá a fazer. Poucas vezes teremos acesso a um documento de infância que nos mostra que na vida do adulto nem tudo é história, parafraseando o conhecido título de Os Amantes e Outros Contos. São laços de família que cercam, que prendem, que amarram, os que cedo amaram. É na entrada de 9 de Maio que o pequeno David nos diz: “O coração da… fez lágrimas”, mantendo o anonimato, mantendo os seus amores a recato de outros olhos. A ilustração de uma cara chorosa, colocada na mesma agenda, no dia anterior, reforça aquele conteúdo, que só virá a ser completamente descodificado no final da referida agenda, através de um texto intitulado «Um amor atraiçoado», tendo o jovem autor o cuidado de dizer que tal texto se reporta ao sucedido a 9 de Maio, com o subtítulo «Um amor vivido»: “Aquela que na minha cara disse num sorriso: «Amo outro rapaz» espero que me peça perdão, até me perdia de riso e perguntava a mim em vão: «Ela disto foi capaz?»”. Lemos na página seguinte: “ À louca, mas bela paixão que me traz atormentado eu lhe digo: «Ela ama-me» e de dentro do coração uma voz que é o amor responde-me: «Os descendentes de Cupido têm muito que sofrer; a ALMA tem que comer os amores do coração, tem de devorar sofregamente os tormentos da paixão, esse pequenino ente que faz tam (sic) grande sofrer.»” Com esta profecia encerra o jovem a agenda do glorioso ano de 1938, em que foi picado pelo aguilhão do ciúme, picada de que porventura nunca chegaria a curar-se, mas esses são outros contos e recantos, que não cabem nesta história, que volta ao lugar de onde saíram os antepassados dos protagonistas desse episódio da infância.

O Alentejo como terrunho de onde brotam as suas raízes familiares ver-se-á reforçado no imaginário poético davidiano pela permanência do autor, entre 2 de Março e 9 de Agosto de 1952, cumprindo o serviço militar em Portalegre, no mesmo Batalhão de Caçadores 1, já aludido na «Xácara» relativamente a seu avô. «Nocturno de um Comboio no Alentejo»[15] (TV: 75) foi escrito em Dezembro do mesmo ano, terminada que era aquela experiência, constituindo-se o poema em eco duplamente vivencial. É a extrema violência do comboio “turbulento” que ressalta no poema, máquina que “vai espedaçando a terra nua”, com uma força impetuosa: “nada o detém: nem mesmo o vento, / Nada o confrange: / como um alfange / corta, impiedoso à luz da Lua.”

Atentemos na expressão “nem mesmo o vento”. Numa primeira leitura, este vento é lido, paradoxalmente, como mais forte do que a máquina. Ora o vento é frágil, face à força bruta, que nem mesmo um tufão deteria. Mas o que parece paradoxal, na realidade não o é, lido em contexto mais vasto, já que o vento funciona, no conjunto da obra davidiana, como força de bloqueio, adquirindo uma significação complexa que não pode ser deduzida nem explicada apenas a partir deste poema. O que parece paradoxal num poema adquire significância noutros poemas e permite um esclarecimento mais vasto e mais preciso ao nível da memória interna dos textos. Assim é, com efeito, ao nível da alusão. A poesia davidiana em geral não possui um fundo político expresso, todavia pode revelá-lo  implicitamente, como é o caso deste poema. É a terra alentejana que sofre, numa alusão à violência das lutas sociais, que virão a tomar forma de extrema crueldade, aquando do assassinato de Catarina Eufémia, que virá a ocorrer um ano e meio mais tarde, a 19 de Maio de 1954. Assim sendo, a violência do comboio metaforiza o clima de insegurança que se vivia no Alentejo: “ Ó Alentejo, ó corpo ardente, / como o comboio te esfacela! / Sofres o golpe serenamente: nem te perturba / a sombra turva / que se debruça da janela… // Depressa vem a cicatriz. / Sobre essa chaga desmedida, / ficam apenas os carris, /num brilho de aço, / lívido, baço / – como a costura duma ferida!” Observe-se como o motivo dos carris, no poema décimo quarto de Lisboa Luzes e Sombras, apresenta uma simbologia nos antípodas da violência do poema «Nocturno de um Comboio no Alentejo». Lemos em Lisboa Luzes e Sombra: “Sobre a ardósia do empedrado / curvas e rectas feitas a giz // problema simples e complicado / a geometria destes carris”. São estes os carris da curva do eléctrico, no Largo do Corpo Santo, ao fundo da Rua de São Paulo, no final da Rua do Arsenal. Se nos ativermos apenas ao que sabemos da história da cidade, lembramo-nos de um cenário nas proximidades do local do regicídio, o que não joga com o tom da poesia a evocar problemas de aritmética, num quadro de ardósia. Estes carris não são já cicatrizes, como no «Nocturno do Comboio no Alentejo». São linhas de um problema de geometria, simples e complicadas, como a infância, desenhadas numa imaginária ardósia, suspensa nas brumas da memória. E é justamente aqui que nos facilitam a compreensão alguns dados da infância do autor, para nos mostrarem como Lisboa Luzes e Sombras é ainda um regresso às origens, como o inconcluso romance A Lua da Lapa. A Rua de São Paulo, o Largo do Corpo Santo, a Rua do Alecrim, em direcção ao Chiado, são percursos habituais dos passeios infantis do pequeno David, das suas idas ao Cinema Promotora. Reparemos neste trecho da agenda de 1940, com data de 13 de Fevereiro, ainda não completara 14 anos, no regresso da casa do seu professor particular:“Quando saí do snr. dr. fui com o Gaspar até ao Chiado e daí desci pela Rua do Alecrim até S. Paulo. Já ando só com os amigos. Já sou quási um homem. “ Cinquenta e três anos mais tarde, ao escrever o poema sobre estes lugares, assoma-lhe nos dedos, que escrevem a cidade, o traçado geométrico das linhas da ardósia da infância, a pasta carregada das memórias do tempo em que já era “quási um homem.” O coração da criação literária tem muitas outras razões que só a infância conhece. Será ainda uma homenagem aos lugares das suas raízes a escolha de uma herdade no Alentejo para situar o lugar onde decorreu a inesperada infância da enigmática estrangeira Y, como processo da recordação associada ao pai, em contexto igualmente relacionado com Lisboa, ou seja, com os dois primordiais espaços radiculares do autor do romance: “ […] E a discreta saudade com que amiúde fala do pai; e o fugidio colorido com que às vezes evoca a sua infância, quase toda passada numa grande herdade do Alentejo; ou de modo ainda mais esquivo, a adolescência repartida entre o Liceu Francês de Lisboa e um colégio de freiras em Inglaterra. “(AF: 41)

A escrita do volume de poesias Os Ramos Os Remos coexiste com a redacção de Um Amor Feliz, entre 1982 e 1986. O tema da terra dos seus avós surge naquela colectânea poética representado no poema «Campos do Alentejo», já não no tom violento que vimos no comboio que revolve a terra, mas em tom melancólico, que despedaça a alma:

Áreas que só na alma / encontram suas árias // mas não virão guitarras / à noite acompanhá-las // Nem o voo das harpas / Nem da neve os fantasmas // Um coro de chaparros / em brados abafados // é sempre o que lhes cabe / é sempre o que lhes basta // Ó crua luz da tarde / logo que a manhã nasce // Por mais que a noite caia / na cal tudo ressalta // E a sombra de um arado / como um A muito amargo // ao qual se limitasse / todo o abecedário // De guerras tantas grades / de fomes tantas pragas // nas lavras destas áreas / os tempos semearam // Abre-me ó terra os braços / como só tu os abres / / até mais graves / sabem tornar-se aqui as aves (RR: 351)

Este poema foi escrito em 1984. Se contarmos as vezes que neste poema comparece a letra “a”, chegamos à conclusão de que são exactamente oitenta e quatro vezes, tantas quantas os dois dígitos finais do ano em que foi escrito. Poderá tratar-se de um acaso, todavia não esqueçamos que o nosso poeta é meticuloso e ardiloso. A letra é duplamente simbólica, por ser a inicial do nome da província das raízes familiares e por ser a primeira letra da palavra “Amor”, lido como manifestação de amor à terra dos seus avós: “E a sombra de um arado / como um A muito amargo”, simbolizando a amargura da vida  dura de quem lá vive. Espaço-gente lido em metonímia – “O coro de chaparros em brados abafados”. Espaço desolado nesta música, em aliteração de “áreas / árias”. A tristeza invade a voz das aves, numa simbolização dolente de míngua, de escassez, de fome. A intervenção social que poderíamos ver de forma implícita no poema do comboio mantém-se agora numa linha de trânsito dolente e melancólico que nem por isso é linha de via reduzida de simbolização poética de vida e morte nesta terra-mãe: “Abre-me ó terra os braços / como só tu os abres”.

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© Teresa Martins Marques

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[1] In Boletim da Junta de Freguesia da Lapa, nº 21-10/1993. Edição da Junta de Freguesia da Lapa, Lisboa, 1993, p. 10-12.

[2] MIGUÉIS, José Rodrigues, A Escola do Paraíso, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1960.

[3] Escritos em Cascais, em Agosto de 1994. Publicados na  Colóquio/Letras, nº 135/136, Janeiro-Junho de 1995, p. 27-31.

[4] Lisboa Luzes e Sombras. Fotografia de Pepe Dinis. Edição do Metropolitano de Lisboa, 1992.

[5] Cf. Discurso Directo em «Setembro em Itália» (Roma, Nápoles, Ravena,Veneza, Ferrara).

[6] A crónica havia comparecido na agenda cultural da CML (S/d), conforme indicação no final do texto.

[7] Catálogo da exposição com o mesmo nome, no qual colaboram além de DMF, António Alçada Batista, António Valdemar, Carlos Pinto Coelho, Maria Rosa Colaço, Urbano Tavares Rodrigues.

[8] SIMÕES, Francisco, et aliiMemórias de Lisboa, Convosco − Galeria de Arte, 1995, p. 10.

[9]   Segundo a referida árvore, na linha materna: mãe – Teresa de Jesus Ferro Mourão; avó – Mariana Rita Ferro; avô – [sem indicação]; bisavó – Maria Filipina Rita; bisavô – João Guerreiro Ferro; trisavô – Inácio José dos Santos; trisavó – Rita [sem indicação de apelido]; tetravô – João Inácio dos Santos; tetravó – Joana [sem indicação de apelido].

[10] Segundo a referida árvore, na linha paterna: pai – David José da Silva Ferreira; avó – Adelaide Sofia [sem indicação de apelido]; avô – José Mariano Ferreira; bisavó – Maria José da Tenda; bisavô – José Germano da Silva.

[11] Sente-se orgulhoso das raízes populares, o que nem sempre acontecerá ao longo do DI.

[12] MARTINHO, Fernando J. B., «O ‘romance’ na poesia de David Mourão-Ferreira e o romance tradicional». Separata de A Cidade – Revista Cultural de Portalegre, nº 1 (Nova Série), Janeiro-Junho de 1988, p. 55-62.

[13] «Caleidoscópio Espanhol», Panorama, nº 35/36, IV Série, Setembro-Dezembro de 1970, presentemente inserto em Terraço Aberto.

[14] Diário de Notícias, 25 de Dezembro de 1963.

[15] Publicado também em Poesia MCMLIV, org. de Campos Figueiredo, Coimbra, 1954.