CRÓNICA

Há tanta ideia por pensar (segunda parte)

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

Um andorinhão intui. O homem pensa. Ou será o contrário, neste tempo, o de agora, em que nos inquietamos tanto e, paradoxo!, nos aquietamos demasiado.

É um risco trazer nomes para um local onde o pensamento se quer resistente, acima de qualquer protagonista. Mas é irresistível. Por exemplo, Heidegger e Deleuze. Não importa nem biografá-los nem fazer-lhes a louvação. Limitemo-nos a explicar porque os requisitamos: não sendo parecidos no modo como pensam, ambos nos advertem de um problema impensável: nós não pensamos, asseguram.

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Há tanta ideia por pensar

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

Só uma filosofia do impuro interpreta o impensável

 

O que seria de uma vida inteira se, vivendo-a, não pensássemos? Algum estranho equilíbrio nos levaria de uma à outra ponta, do nascer ao partir, enchendo parte de nós com a vã impossibilidade de sermos nós. Pensar, mesmo assim, não seria suficiente. Seria exigível a importância de saber como fazê-lo. E ao sedimento de todos os dias a que chamamos memória e que mais não é do que a soma do que mais se evidencia no que acumulamos, qualquer coisa teria de juntar-se para fazer algum sentido.          Não tendo memórias não temos visões nem alucinações. Ou ambições. E desprovidos dessas transcendências não temos importância diante de nós. Aquele nada que se movimenta no reflexo do espelho é este nada que se movimenta sem saber o que é um espelho, ou o movimento, um reflexo, um corpo, um fato completo, uma maquilhagem, um esgar.     Não há angústia mais cavada do que essa: perdermos a importância diante de nós mesmos.

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O sorriso do filósofo

Estou em acreditar que o filósofo René Descartes faria hoje um episódico sorrisinho ao ver a sociedade ocidental atrapalhada na ideia de que a expressão “Eu penso” é uma aquisição de todos e de cada um.

Não há dúvida de que temos todos essa ilusão, eu penso, e (para ser ainda mais próximo do filósofo), é por pensar que vamos existindo.

Eu penso, logo existo é dessas frases quase publicitárias que se tornaram um clássico no mundo da cultura.

O filósofo René Descartes, no entanto, deixaria murchar o sorrisinho, passaria a exibir uma ruga preocupada na sua testa aparentemente robusta e de homem inteligente, ao constatar que o que ele pretendia afirmar era um Eu penso todas as certezas mas…relacionando a verdade unicamente com as ideias claras do espírito.

Ora isso implicava mostrar que o método de pensar é a iniciativa fundamental da inteligência e que só a razão determina a ordem da matéria.

Nos dias de hoje, tal pensamento debate-se entre algumas verdade e uma produção desmesurada de inverdades. E deixa-nos às voltas com o que é realmente isso da razão, sabendo que outras coisas que não a são nem a comportam  – à razão, entenda-se – nos algemam e nos tolhem, sob o ponto de vista cultural, social, político e económico, apresentando-nos um mundo ilusório de não razão, como patamar de vida.

Perdeu-se, por assim dizer, no pensamento contemporâneo essa autoconfiança, que era quase ilimitada, no poder da sua atuação: a ideia precede as coisas ao ritmo do conhecimento.

Pelo menos este conceito estará tolhido: ao reduzirmos a produção de ideias, ao confundirmos o que é conhecimento com o caudal imenso da informação avulsa que nos invade e esmaga, estamos muito longe do que nos fará bem conhecer.

Ao trocarmos razão (no sentido mais profundo) pela convicção, andamos muitos séculos para trás. E traímos o sorriso de Descartes. Alexandre Honrado

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Pensar fora da caixa

Um colega e amigo pergunta-me porque fui a Paris ver e ouvir os coletes amarelos e se não houve nisso uma certa soberba, um desafiar da sorte, um tirar apontamentos para aplicá-los mais tarde numa experiência que surja mais perto de mim.

Depois de pensar um bocado – muito rápido, por sinal – disse-lhe que esta aparente curiosidade se resumia numa resposta breve: fui lá porque eles estavam lá.

Quando Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da  psicologia analítica propôs e desenvolveu os conceitos de personalidade extrovertida e introvertida, arquétipo e inconsciente coletivo, não o fez para traduzir grupos sociais mas indivíduos. Pegando nesta matriz, no entanto, transpondo-a para os universos culturais em que nos representamos e fazemos representar, notamos que há dois tipos de personalidade de grupo: a extrovertida e a introvertida.

Os coletes amarelos pertencem à segunda. Como os pequenos grupos de arruaceiros que queimam caixotes de lixo e automóveis pela calada da noite, ou os que danificam bens públicos a coberto das sombras.

Essa introversão nota-se bem no modo como se mobilizam – normalmente pelas redes sociais que permitem a convergência de muitos num único local de encontro num lapso de tempo muito breve e que transformam a notícia falsa num divertimento ocasional e mobilizador -, na forma como se apresentam – normalmente encapuzados, de rosto encoberto, num anonimato desejado –  e sobretudo na mais frugal das ideologias que os suportam: não brandem muitas ideias, não apresentam alternativas ao sufocante e impiedoso mundo em que vivemos, tomam por alvos os que mais frágeis possam surgir à sua frente e sucumbir depressa, e deitam mão dos recursos mais à vista, das pedras aos sprays, dos palavrões ao confronto físico.

Ir lá por estarem lá, não foi mais do que uma forma de extroversão.

Aliás, havendo causas, ideias, alternativas, estava já a ver-me de colete, eu que nem gosto de amarelo (e, já o escrevi, afinal são verdes, apesar do daltonismo noticioso que os promoveu).

Estas manifestações de rebeldia urbana são o oposto das revoluções que mudam a vida das urbes. São produto de introvertidos, a desafiarem o poder sem perceberem bem como o poderiam fazer com uma mobilização efetiva das capacidades de extroversão que os povos têm, motivadas pelo sentido de justiça e equidade, pela defesa das liberdades e dos seus diretos, pela reivindicação dura dos deveres daqueles que nos representam.

Fui lá porque estavam lá, e precisava disso na minha mundividência, na minha necessidade de entender o outro, no meu modo de celebrar os valores culturais dos extrovertidos que me deram lições de vida que não esquecerei. Alexandre Honrado

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Não há para onde fugir

Em sentido lato somos todos refugiados. Ou pelo menos os nossos antepassados o eram, deixando-nos a herança como um destino a cumprir sempre.

Fugidos de ataques climatéricos, da fome e do desconforto, todos os seres vivos tendem a procurar melhor abrigo e local onde ficar. Mas raramente se permanece – e o para sempre é, regra geral, uma etapa do provisório.

Com as tecnologias produziram-se muitos atalhos, chega-se mais depressa, sabe-se com maior rapidez, embora se chegue muitas vezes atrasado ao que realmente queremos ou devíamos querer e a pressa não conduza a finais de etapas à medida das nossas necessidades.

Tornámo-nos imediatistas, repentistas, e muito solitários.

Olhamos para pequenos ecrãs, cada vez mais pequenos – sem ver o poste onde, inevitavelmente, acabaremos por chocar.

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O lugar do livro no ensino: problemas e ideias, um subsídio

O pensamento ligado à palavra, a palavra em coerência com a acção, isso perdeu-se. A crise está, portanto, do lado da educação e da cultura.

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Epístola a Tiago e João: Os Maias, a língua e a literatura para os jovens

Não dar aos alunos a hipótese de ler a obra-prima de Eça de Queirós é impedir o acesso dos jovens a um monumento literário.

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Jorge de Sena, António Ramalho Eanes: cultura, educação e uma homenagem

Não obstante a obra e a figura humana de Jorge de Sena, como podemos querer que o seu pensamento e os seus livros sejam homenageados se hoje, nas escolas e nas universidades, não se lê o grande romancista de Sinais de Fogo?

 

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Deixemos as utopias

O século XX foi o século da morte – nunca houve tantas guerras, catástrofes e massacres na história do mundo e nunca as ideologias sucumbiram de maneira tão intensa, fazendo acreditar que os excessos cometidos eram a sua essência, louca visão.

Se o século que nos antecedeu foi o da morte, o  século XXI é um século de mortos. Não há cidade que se visite que não tenha os seus soldados desconhecidos aprisionados numa homenagem que da guerra, da derrota e da chacina conserva apenas o ar da matéria em decomposição e a vergonha pública da pedra a consumir-se com a poluição e a indiferença de quem passa: todos nós, com os nossos crepes de luto, com as nossas friezas, com a nossas tatuagens na memória (muito turisticamente ativos para não nos lembrarmos de nada).

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No adeus a João Bigotte Chorão

A Pedro Mexia

Vai a enterrar João Bigotte Chorão (Guarda, 1933), que faleceu anteontem, 23 de Fevereiro, em Lisboa. Despedimo-nos na igreja do Campo Grande; mas lembrarei, sempre, a tarde que Teresa e eu passámos em sua casa, em 20 de Dezembro, numa esperançosa conversa com a esforçada Mulher, Maria José Mexia.

João Bigotte Chorão é celebrado como camilianista. Com efeito, é exemplar a diligência do seu Camilo. Esboço de Um Retrato (1989), 2.ª edição revista de Camilo. A Obra e o Homem (1979). Propõe-se, no Prefácio, aproveitar da vida de Camilo «o que for indispensável ao conhecimento da obra». Recusando, por um lado, «o biografismo exaustivo e anedótico» e, por outro, «o texto completamente autonomizado do autor», reconhece que «Este livro não é uma biografia, nem um ensaio de interpretação literária, nem uma tese universitária», mas «uma síntese da vida e da obra de Camilo». Explicitamente, convoca «esse leitor, estudante ou homem da rua, tantas vezes perdido no labirinto camiliano». (mais…)

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Não somos grande coisa

O que somos não nos torna grande coisa mesmo depois de ensaiarmos as desculpas pelo que fazemos.

Ou somos monstros, ou somamos e comparamos arrepios sob o efeito da monstruosidade alheia, o que nos torna pequenos monstros, ou limitamo-nos à paciência de nos constituirmos como sentinelas impotentes à porta do nosso mundo contaminado onde a pandemia alastra e nos engole – o que faz de nós patéticos monstros sempre condenados.

Permitimos esta vergonha de sistema. (mais…)

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A perseguição de uma filosofia do impuro

Participei, há dias, num congresso em que fiz uma intervenção sobre a loucura na literatura, sabendo que a loucura é um não lugar de certezas e a literatura a forma com que nos enganamos, com prazer, rumo à liberdade. Na sequência desse episódio, académico e portanto de pouco significado, dei comigo a pensar o que se segue. É de grande inutilidade – mas faz-me bem, como uma lufada de ar à beira oceano, um dia de ócio ou um bocejo muito prolongado. Um beijo – o mais casto e inspirado.

Há uma profunda contradição em certas leituras que faço. Não pelo conteúdo que gentilmente me disponibilizam mas pela forma com que as escolho e o desacato com que as interpreto. Opto por elas com a fome do garoto que passou a manhã a tentar perceber para que serve a escola quando no pátio há tanto e tão mais divertido para fazer.

Quase obsessivamente, dou prioridade a ensaios e a ensaístas e a minha mesa de trabalho tem sempre, pelo menos dois, livros de filósofos. (mais…)

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