CRÓNICA

Há tanta ideia por pensar

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

Só uma filosofia do impuro interpreta o impensável

 

O que seria de uma vida inteira se, vivendo-a, não pensássemos? Algum estranho equilíbrio nos levaria de uma à outra ponta, do nascer ao partir, enchendo parte de nós com a vã impossibilidade de sermos nós. Pensar, mesmo assim, não seria suficiente. Seria exigível a importância de saber como fazê-lo. E ao sedimento de todos os dias a que chamamos memória e que mais não é do que a soma do que mais se evidencia no que acumulamos, qualquer coisa teria de juntar-se para fazer algum sentido.          Não tendo memórias não temos visões nem alucinações. Ou ambições. E desprovidos dessas transcendências não temos importância diante de nós. Aquele nada que se movimenta no reflexo do espelho é este nada que se movimenta sem saber o que é um espelho, ou o movimento, um reflexo, um corpo, um fato completo, uma maquilhagem, um esgar.     Não há angústia mais cavada do que essa: perdermos a importância diante de nós mesmos.

Uma das doenças do nosso século é o Alzheimer, um dos tipos de Demência. As pessoas com Doença de Alzheimer tornam-se confusas e acabam por não reconhecer os próprios familiares e até a si mesmas quando colocadas frente a um espelho. Mas para que assim seja, não teremos de pensar o que é angústia (com ou sem enquadramento clínico) e construir em redor alguma coisa sólida, mesmo intangível, capaz de identificar o que nos perturba? Sem essa percepção, consciência ou pensamento, não há sequer lugar ao reconhecimento. Não se poderá falar de angústia. Não há corpo, nem espelho. Nem angústia. É a última etapa, um reduto, do vazio: o não pensar.

O nem sequer poder pensar-se que não se pensa, por opção.

Houve um tempo, não muito distante deste, o de agora, em que, pelo menos aparentemente, vivíamos rodeados de pensamento. Tínhamos connosco e citávamos ideólogos que sentíamos como nossos; nutríamos paixões, até insanas, quando nos cruzávamos com os filósofos. Enchíamos a boca nas tertúlias e referíamos, de um modo muito aceso, entre muitos outros, Platão, Nietzsche, Marx, Haeckel, Jaspers, Beauvoir, Arendt, Sartre, Deleuze ou Foucault como parentes muito próximos. Não seria talvez um tempo em que pensávamos muito; aceite-se com leveza que era apenas um tempo em que o pensamento nos rodeava, como o andorinhão o faz ao beiral em altura certa. Ele lá sabe que a primavera o acolherá e não tem calendário ou professor que lhe fale de fenomenologia, sabe lá ele o que é isso, aliás preocupante, dos fenómenos da consciência e coisas aderentes a essa, dominando, talvez paradoxalmente, a intuição pura. Alexandre Honrado

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O sorriso do filósofo

Estou em acreditar que o filósofo René Descartes faria hoje um episódico sorrisinho ao ver a sociedade ocidental atrapalhada na ideia de que a expressão “Eu penso” é uma aquisição de todos e de cada um.

Não há dúvida de que temos todos essa ilusão, eu penso, e (para ser ainda mais próximo do filósofo), é por pensar que vamos existindo.

Eu penso, logo existo é dessas frases quase publicitárias que se tornaram um clássico no mundo da cultura.

O filósofo René Descartes, no entanto, deixaria murchar o sorrisinho, passaria a exibir uma ruga preocupada na sua testa aparentemente robusta e de homem inteligente, ao constatar que o que ele pretendia afirmar era um Eu penso todas as certezas mas…relacionando a verdade unicamente com as ideias claras do espírito.

Ora isso implicava mostrar que o método de pensar é a iniciativa fundamental da inteligência e que só a razão determina a ordem da matéria.

Nos dias de hoje, tal pensamento debate-se entre algumas verdade e uma produção desmesurada de inverdades. E deixa-nos às voltas com o que é realmente isso da razão, sabendo que outras coisas que não a são nem a comportam  – à razão, entenda-se – nos algemam e nos tolhem, sob o ponto de vista cultural, social, político e económico, apresentando-nos um mundo ilusório de não razão, como patamar de vida.

Perdeu-se, por assim dizer, no pensamento contemporâneo essa autoconfiança, que era quase ilimitada, no poder da sua atuação: a ideia precede as coisas ao ritmo do conhecimento.

Pelo menos este conceito estará tolhido: ao reduzirmos a produção de ideias, ao confundirmos o que é conhecimento com o caudal imenso da informação avulsa que nos invade e esmaga, estamos muito longe do que nos fará bem conhecer.

Ao trocarmos razão (no sentido mais profundo) pela convicção, andamos muitos séculos para trás. E traímos o sorriso de Descartes. Alexandre Honrado

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Pensar fora da caixa

Um colega e amigo pergunta-me porque fui a Paris ver e ouvir os coletes amarelos e se não houve nisso uma certa soberba, um desafiar da sorte, um tirar apontamentos para aplicá-los mais tarde numa experiência que surja mais perto de mim.

Depois de pensar um bocado – muito rápido, por sinal – disse-lhe que esta aparente curiosidade se resumia numa resposta breve: fui lá porque eles estavam lá.

Quando Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da  psicologia analítica propôs e desenvolveu os conceitos de personalidade extrovertida e introvertida, arquétipo e inconsciente coletivo, não o fez para traduzir grupos sociais mas indivíduos. Pegando nesta matriz, no entanto, transpondo-a para os universos culturais em que nos representamos e fazemos representar, notamos que há dois tipos de personalidade de grupo: a extrovertida e a introvertida.

Os coletes amarelos pertencem à segunda. Como os pequenos grupos de arruaceiros que queimam caixotes de lixo e automóveis pela calada da noite, ou os que danificam bens públicos a coberto das sombras.

Essa introversão nota-se bem no modo como se mobilizam – normalmente pelas redes sociais que permitem a convergência de muitos num único local de encontro num lapso de tempo muito breve e que transformam a notícia falsa num divertimento ocasional e mobilizador -, na forma como se apresentam – normalmente encapuzados, de rosto encoberto, num anonimato desejado –  e sobretudo na mais frugal das ideologias que os suportam: não brandem muitas ideias, não apresentam alternativas ao sufocante e impiedoso mundo em que vivemos, tomam por alvos os que mais frágeis possam surgir à sua frente e sucumbir depressa, e deitam mão dos recursos mais à vista, das pedras aos sprays, dos palavrões ao confronto físico.

Ir lá por estarem lá, não foi mais do que uma forma de extroversão.

Aliás, havendo causas, ideias, alternativas, estava já a ver-me de colete, eu que nem gosto de amarelo (e, já o escrevi, afinal são verdes, apesar do daltonismo noticioso que os promoveu).

Estas manifestações de rebeldia urbana são o oposto das revoluções que mudam a vida das urbes. São produto de introvertidos, a desafiarem o poder sem perceberem bem como o poderiam fazer com uma mobilização efetiva das capacidades de extroversão que os povos têm, motivadas pelo sentido de justiça e equidade, pela defesa das liberdades e dos seus diretos, pela reivindicação dura dos deveres daqueles que nos representam.

Fui lá porque estavam lá, e precisava disso na minha mundividência, na minha necessidade de entender o outro, no meu modo de celebrar os valores culturais dos extrovertidos que me deram lições de vida que não esquecerei. Alexandre Honrado

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Não há para onde fugir

Em sentido lato somos todos refugiados. Ou pelo menos os nossos antepassados o eram, deixando-nos a herança como um destino a cumprir sempre.

Fugidos de ataques climatéricos, da fome e do desconforto, todos os seres vivos tendem a procurar melhor abrigo e local onde ficar. Mas raramente se permanece – e o para sempre é, regra geral, uma etapa do provisório.

Com as tecnologias produziram-se muitos atalhos, chega-se mais depressa, sabe-se com maior rapidez, embora se chegue muitas vezes atrasado ao que realmente queremos ou devíamos querer e a pressa não conduza a finais de etapas à medida das nossas necessidades.

Tornámo-nos imediatistas, repentistas, e muito solitários.

Olhamos para pequenos ecrãs, cada vez mais pequenos – sem ver o poste onde, inevitavelmente, acabaremos por chocar.

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O lugar do livro no ensino: problemas e ideias, um subsídio

O pensamento ligado à palavra, a palavra em coerência com a acção, isso perdeu-se. A crise está, portanto, do lado da educação e da cultura.

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Epístola a Tiago e João: Os Maias, a língua e a literatura para os jovens

Não dar aos alunos a hipótese de ler a obra-prima de Eça de Queirós é impedir o acesso dos jovens a um monumento literário.

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Jorge de Sena, António Ramalho Eanes: cultura, educação e uma homenagem

Não obstante a obra e a figura humana de Jorge de Sena, como podemos querer que o seu pensamento e os seus livros sejam homenageados se hoje, nas escolas e nas universidades, não se lê o grande romancista de Sinais de Fogo?

 

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Deixemos as utopias

O século XX foi o século da morte – nunca houve tantas guerras, catástrofes e massacres na história do mundo e nunca as ideologias sucumbiram de maneira tão intensa, fazendo acreditar que os excessos cometidos eram a sua essência, louca visão.

Se o século que nos antecedeu foi o da morte, o  século XXI é um século de mortos. Não há cidade que se visite que não tenha os seus soldados desconhecidos aprisionados numa homenagem que da guerra, da derrota e da chacina conserva apenas o ar da matéria em decomposição e a vergonha pública da pedra a consumir-se com a poluição e a indiferença de quem passa: todos nós, com os nossos crepes de luto, com as nossas friezas, com a nossas tatuagens na memória (muito turisticamente ativos para não nos lembrarmos de nada).

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No adeus a João Bigotte Chorão

A Pedro Mexia

Vai a enterrar João Bigotte Chorão (Guarda, 1933), que faleceu anteontem, 23 de Fevereiro, em Lisboa. Despedimo-nos na igreja do Campo Grande; mas lembrarei, sempre, a tarde que Teresa e eu passámos em sua casa, em 20 de Dezembro, numa esperançosa conversa com a esforçada Mulher, Maria José Mexia.

João Bigotte Chorão é celebrado como camilianista. Com efeito, é exemplar a diligência do seu Camilo. Esboço de Um Retrato (1989), 2.ª edição revista de Camilo. A Obra e o Homem (1979). Propõe-se, no Prefácio, aproveitar da vida de Camilo «o que for indispensável ao conhecimento da obra». Recusando, por um lado, «o biografismo exaustivo e anedótico» e, por outro, «o texto completamente autonomizado do autor», reconhece que «Este livro não é uma biografia, nem um ensaio de interpretação literária, nem uma tese universitária», mas «uma síntese da vida e da obra de Camilo». Explicitamente, convoca «esse leitor, estudante ou homem da rua, tantas vezes perdido no labirinto camiliano». (mais…)

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Não somos grande coisa

O que somos não nos torna grande coisa mesmo depois de ensaiarmos as desculpas pelo que fazemos.

Ou somos monstros, ou somamos e comparamos arrepios sob o efeito da monstruosidade alheia, o que nos torna pequenos monstros, ou limitamo-nos à paciência de nos constituirmos como sentinelas impotentes à porta do nosso mundo contaminado onde a pandemia alastra e nos engole – o que faz de nós patéticos monstros sempre condenados.

Permitimos esta vergonha de sistema. (mais…)

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A perseguição de uma filosofia do impuro

Participei, há dias, num congresso em que fiz uma intervenção sobre a loucura na literatura, sabendo que a loucura é um não lugar de certezas e a literatura a forma com que nos enganamos, com prazer, rumo à liberdade. Na sequência desse episódio, académico e portanto de pouco significado, dei comigo a pensar o que se segue. É de grande inutilidade – mas faz-me bem, como uma lufada de ar à beira oceano, um dia de ócio ou um bocejo muito prolongado. Um beijo – o mais casto e inspirado.

Há uma profunda contradição em certas leituras que faço. Não pelo conteúdo que gentilmente me disponibilizam mas pela forma com que as escolho e o desacato com que as interpreto. Opto por elas com a fome do garoto que passou a manhã a tentar perceber para que serve a escola quando no pátio há tanto e tão mais divertido para fazer.

Quase obsessivamente, dou prioridade a ensaios e a ensaístas e a minha mesa de trabalho tem sempre, pelo menos dois, livros de filósofos. (mais…)

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Nos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos

A maior aniquilação pode ser desencadeada numa grande cultura – é o que justifica a queda de grandes edificações culturais de outrora, persas, gregos, romanos, outros que se reduziram a uma insignificância do que tinham sido, pelo simples erro de se autodestruírem.

Pensei nisto à saída do Museu do Oriente onde participei, com alegria, numa festa muito especial: a evocação do dia 10 de Dezembro, Dia dos Direitos Humanos, sessão comemorativa do 70º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Reuniu este acontecimento um punhado de gente boa, com princípios e ideias inflexíveis de equidade e proximidade entre os seres humanos; houve espetáculo e oradores, e foi com um especial carinho que ouvi o Presidente Jorge Sampaio e com muita saudade assisti à evocação-homenagem a António Arnaut, o Homem que levou a ideia dos Direitos Humanos ao coração de um dos mais preciosos direitos que nunca nos devia ser negado: a saúde – que hoje é cada vez mais um negócio e uma segregação, que se revela entre ricos e pobres, beneficiando de modo aviltante os primeiros e esquecendo miseravelmente, como sempre, os segundos.

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