CRÓNICA

O Baile do Medo

(título retirado do poema ”O medo” de Carlos Drummond de Andrade, in A Rosa do Povo).

 

Amanhã, o que irá acontecer se alguém deixar de ter medo?

O que irá acontecer ao mar, se o mar deixar de ter medo?

Há um número considerável de perspectivas, a partir das quais o medo e o tempo se conjugam.

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Um novo PEN Clube Português

O PEN Clube Português recuperou, com a direcção eleita em Fevereiro de 2019, a sua matriz. Integrado no PEN Internacional – «a maior e a mais importante organização mundial de escritores empenhada na defesa da liberdade de expressão, bem como de direitos e valores humanistas», como se lê na Carta fundadora –, propõe-se celebrar a criação literária dos seus membros, em intercâmbio com os 145 centros PEN e intervindo nos quatro comités da instituição: Mulheres Escritoras, Tradução e Direitos Linguísticos, Escritores para a Paz, Escritores na Prisão. (mais…)

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Não há quem nos defenda (de nós)

Atento como era, o professor, historiador e filósofo, Michel Foucault teria publicado hoje as suas aulas  no colégio de França, as de 1976, não com o título É Preciso Defender a Sociedade, como aliás o fez e com grande êxito, mas com uma atualização. É provável que intitulasse a reunião daqueles seus pensamentos sob um título novo e mais contemporâneo de todos nós: É preciso Defender a Sociedade de si mesma.

Já nessa altura, nos anos 70 do séc. XX., Foucault preocupava-se com aquilo a que chamava o bio-poder, força de poder exercida sobre a vida e os vivos, capaz de reprimir populações inteiras e negar-lhes a sua parcela de mundo e de futuro. (mais…)

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Nos 23 anos da morte de David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira deixou expresso, no fragmento CVIII da segunda parte de , o seguinte desejo: «Gostaria de morrer de repente: / a meio de uma frase que nesse instante / estivesse a ler; ou a escrever.»

A terceira Parca – Atropos – a que tem por mister cortar o fio da vida, não atendeu o desejo do poeta, que lhe havia prestado a sua última homenagem no final da Obra Poética (1948- 1988) :  “ Só comigo me encontro enquanto me concentro / nas ancas de Afrodite ou nos olhos das Parcas / Mas sei que sou assim desde há imenso tempo / mal fora iniciada a secreta viagem.” (mais…)

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NA MORTE DE AGUSTINA BESSA-LUÍS

Agustina Bessa-Luís (15 de Outubro de 1922), que lembramos na sua jamais temida morte (3 de Junho de 2019), mostrou como as mulheres da região Norte lutam contra os valores patriarcais, se define a arrogância de burgueses endinheirados, enquanto reflecte sobre o poder (O comum dos mortais, 1998) e não evita um olhar conservador sobre a emancipação feminina (Jóia de família, 2001). Gerações de estudantes conheceram-na em A Sibila (1954), mas, entre as dezenas de títulos desde 1948, salientaríamos O mosteiro (1980), em que se coroa a sua «agressividade de imaginação», incomum no meio português. (mais…)

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Nada se compara com o meu cantinho

Ganhei o (estranho) hábito de me sentar em cantinhos bem iluminados. É fundamental que sejam bem iluminados, esses cantinhos, e a razão para essa exigência é muito simples: regra geral faço-me acompanhar de livros, artigos de revistas, fotocópias e apesar de ler bem sem óculos, a luz devida tem de acompanhar-nos.

A esse hábito acresce a sua motivação: é em cantinhos iluminados que as ideias se revelam e da escuridão – zona habitada pela profundidade – pode muito bem nascer a luz, como a sabedoria popular há muito dita.

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Há tanta ideia por pensar (quinta parte)

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

Volte-se então a essa simplicidade que opõe o mal ao bem. Os deuses aos demoníacos, os indiferentes aos imbecis que são piores do que os indiferentes. Ambos são de grande utilidade. Dão-nos a sentir, por vezes ao espelho, que estamos mais perto de nós do que queremos.

Os deuses precisam desesperadamente de nós.

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Há tanta ideia por pensar (quarta parte)

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

A arte pretendeu dar-nos um lado cromático e volumétrico, sensual do pensamento. Por vezes é a vida tal como a vida era ou pensava ser. Outras vezes, distorção. Mais tarde, a exaltação da fealdade. Hoje, a pele e as paredes são telas. A arte fica nelas. Alguns de nós ainda reparam nisso.

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Há tanta ideia por pensar (terceira parte)

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

O ato de nascer é uma impureza.

No momento inicial, somos seres muito próximos da natureza, é certo, pelo que nenhum ato cultural nos pode ser exigido como atividade consciente.

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Há tanta ideia por pensar (segunda parte)

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

Um andorinhão intui. O homem pensa. Ou será o contrário, neste tempo, o de agora, em que nos inquietamos tanto e, paradoxo!, nos aquietamos demasiado.

É um risco trazer nomes para um local onde o pensamento se quer resistente, acima de qualquer protagonista. Mas é irresistível. Por exemplo, Heidegger e Deleuze. Não importa nem biografá-los nem fazer-lhes a louvação. Limitemo-nos a explicar porque os requisitamos: não sendo parecidos no modo como pensam, ambos nos advertem de um problema impensável: nós não pensamos, asseguram.

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Há tanta ideia por pensar

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

Só uma filosofia do impuro interpreta o impensável

 

O que seria de uma vida inteira se, vivendo-a, não pensássemos? Algum estranho equilíbrio nos levaria de uma à outra ponta, do nascer ao partir, enchendo parte de nós com a vã impossibilidade de sermos nós. Pensar, mesmo assim, não seria suficiente. Seria exigível a importância de saber como fazê-lo. E ao sedimento de todos os dias a que chamamos memória e que mais não é do que a soma do que mais se evidencia no que acumulamos, qualquer coisa teria de juntar-se para fazer algum sentido.          Não tendo memórias não temos visões nem alucinações. Ou ambições. E desprovidos dessas transcendências não temos importância diante de nós. Aquele nada que se movimenta no reflexo do espelho é este nada que se movimenta sem saber o que é um espelho, ou o movimento, um reflexo, um corpo, um fato completo, uma maquilhagem, um esgar.     Não há angústia mais cavada do que essa: perdermos a importância diante de nós mesmos.

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O sorriso do filósofo

Estou em acreditar que o filósofo René Descartes faria hoje um episódico sorrisinho ao ver a sociedade ocidental atrapalhada na ideia de que a expressão “Eu penso” é uma aquisição de todos e de cada um.

Não há dúvida de que temos todos essa ilusão, eu penso, e (para ser ainda mais próximo do filósofo), é por pensar que vamos existindo.

Eu penso, logo existo é dessas frases quase publicitárias que se tornaram um clássico no mundo da cultura.

O filósofo René Descartes, no entanto, deixaria murchar o sorrisinho, passaria a exibir uma ruga preocupada na sua testa aparentemente robusta e de homem inteligente, ao constatar que o que ele pretendia afirmar era um Eu penso todas as certezas mas…relacionando a verdade unicamente com as ideias claras do espírito.

Ora isso implicava mostrar que o método de pensar é a iniciativa fundamental da inteligência e que só a razão determina a ordem da matéria.

Nos dias de hoje, tal pensamento debate-se entre algumas verdade e uma produção desmesurada de inverdades. E deixa-nos às voltas com o que é realmente isso da razão, sabendo que outras coisas que não a são nem a comportam  – à razão, entenda-se – nos algemam e nos tolhem, sob o ponto de vista cultural, social, político e económico, apresentando-nos um mundo ilusório de não razão, como patamar de vida.

Perdeu-se, por assim dizer, no pensamento contemporâneo essa autoconfiança, que era quase ilimitada, no poder da sua atuação: a ideia precede as coisas ao ritmo do conhecimento.

Pelo menos este conceito estará tolhido: ao reduzirmos a produção de ideias, ao confundirmos o que é conhecimento com o caudal imenso da informação avulsa que nos invade e esmaga, estamos muito longe do que nos fará bem conhecer.

Ao trocarmos razão (no sentido mais profundo) pela convicção, andamos muitos séculos para trás. E traímos o sorriso de Descartes. Alexandre Honrado

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