Deixemos as utopias

O século XX foi o século da morte – nunca houve tantas guerras, catástrofes e massacres na história do mundo e nunca as ideologias sucumbiram de maneira tão intensa, fazendo acreditar que os excessos cometidos eram a sua essência, louca visão.

Se o século que nos antecedeu foi o da morte, o  século XXI é um século de mortos. Não há cidade que se visite que não tenha os seus soldados desconhecidos aprisionados numa homenagem que da guerra, da derrota e da chacina conserva apenas o ar da matéria em decomposição e a vergonha pública da pedra a consumir-se com a poluição e a indiferença de quem passa: todos nós, com os nossos crepes de luto, com as nossas friezas, com a nossas tatuagens na memória (muito turisticamente ativos para não nos lembrarmos de nada).

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No adeus a João Bigotte Chorão

A Pedro Mexia

Vai a enterrar João Bigotte Chorão (Guarda, 1933), que faleceu anteontem, 23 de Fevereiro, em Lisboa. Despedimo-nos na igreja do Campo Grande; mas lembrarei, sempre, a tarde que Teresa e eu passámos em sua casa, em 20 de Dezembro, numa esperançosa conversa com a esforçada Mulher, Maria José Mexia.

João Bigotte Chorão é celebrado como camilianista. Com efeito, é exemplar a diligência do seu Camilo. Esboço de Um Retrato (1989), 2.ª edição revista de Camilo. A Obra e o Homem (1979). Propõe-se, no Prefácio, aproveitar da vida de Camilo «o que for indispensável ao conhecimento da obra». Recusando, por um lado, «o biografismo exaustivo e anedótico» e, por outro, «o texto completamente autonomizado do autor», reconhece que «Este livro não é uma biografia, nem um ensaio de interpretação literária, nem uma tese universitária», mas «uma síntese da vida e da obra de Camilo». Explicitamente, convoca «esse leitor, estudante ou homem da rua, tantas vezes perdido no labirinto camiliano». (mais…)

Não somos grande coisa

O que somos não nos torna grande coisa mesmo depois de ensaiarmos as desculpas pelo que fazemos.

Ou somos monstros, ou somamos e comparamos arrepios sob o efeito da monstruosidade alheia, o que nos torna pequenos monstros, ou limitamo-nos à paciência de nos constituirmos como sentinelas impotentes à porta do nosso mundo contaminado onde a pandemia alastra e nos engole – o que faz de nós patéticos monstros sempre condenados.

Permitimos esta vergonha de sistema. (mais…)

A perseguição de uma filosofia do impuro

Participei, há dias, num congresso em que fiz uma intervenção sobre a loucura na literatura, sabendo que a loucura é um não lugar de certezas e a literatura a forma com que nos enganamos, com prazer, rumo à liberdade. Na sequência desse episódio, académico e portanto de pouco significado, dei comigo a pensar o que se segue. É de grande inutilidade – mas faz-me bem, como uma lufada de ar à beira oceano, um dia de ócio ou um bocejo muito prolongado. Um beijo – o mais casto e inspirado.

Há uma profunda contradição em certas leituras que faço. Não pelo conteúdo que gentilmente me disponibilizam mas pela forma com que as escolho e o desacato com que as interpreto. Opto por elas com a fome do garoto que passou a manhã a tentar perceber para que serve a escola quando no pátio há tanto e tão mais divertido para fazer.

Quase obsessivamente, dou prioridade a ensaios e a ensaístas e a minha mesa de trabalho tem sempre, pelo menos dois, livros de filósofos. (mais…)