Há tanta ideia por pensar (quinta parte)

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

Volte-se então a essa simplicidade que opõe o mal ao bem. Os deuses aos demoníacos, os indiferentes aos imbecis que são piores do que os indiferentes. Ambos são de grande utilidade. Dão-nos a sentir, por vezes ao espelho, que estamos mais perto de nós do que queremos.

Os deuses precisam desesperadamente de nós.

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Há tanta ideia por pensar (quarta parte)

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

A arte pretendeu dar-nos um lado cromático e volumétrico, sensual do pensamento. Por vezes é a vida tal como a vida era ou pensava ser. Outras vezes, distorção. Mais tarde, a exaltação da fealdade. Hoje, a pele e as paredes são telas. A arte fica nelas. Alguns de nós ainda reparam nisso.

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Há tanta ideia por pensar (terceira parte)

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

O ato de nascer é uma impureza.

No momento inicial, somos seres muito próximos da natureza, é certo, pelo que nenhum ato cultural nos pode ser exigido como atividade consciente.

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Há tanta ideia por pensar (segunda parte)

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

Um andorinhão intui. O homem pensa. Ou será o contrário, neste tempo, o de agora, em que nos inquietamos tanto e, paradoxo!, nos aquietamos demasiado.

É um risco trazer nomes para um local onde o pensamento se quer resistente, acima de qualquer protagonista. Mas é irresistível. Por exemplo, Heidegger e Deleuze. Não importa nem biografá-los nem fazer-lhes a louvação. Limitemo-nos a explicar porque os requisitamos: não sendo parecidos no modo como pensam, ambos nos advertem de um problema impensável: nós não pensamos, asseguram.

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Há tanta ideia por pensar

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

Só uma filosofia do impuro interpreta o impensável

 

O que seria de uma vida inteira se, vivendo-a, não pensássemos? Algum estranho equilíbrio nos levaria de uma à outra ponta, do nascer ao partir, enchendo parte de nós com a vã impossibilidade de sermos nós. Pensar, mesmo assim, não seria suficiente. Seria exigível a importância de saber como fazê-lo. E ao sedimento de todos os dias a que chamamos memória e que mais não é do que a soma do que mais se evidencia no que acumulamos, qualquer coisa teria de juntar-se para fazer algum sentido.          Não tendo memórias não temos visões nem alucinações. Ou ambições. E desprovidos dessas transcendências não temos importância diante de nós. Aquele nada que se movimenta no reflexo do espelho é este nada que se movimenta sem saber o que é um espelho, ou o movimento, um reflexo, um corpo, um fato completo, uma maquilhagem, um esgar.     Não há angústia mais cavada do que essa: perdermos a importância diante de nós mesmos.

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O sorriso do filósofo

Estou em acreditar que o filósofo René Descartes faria hoje um episódico sorrisinho ao ver a sociedade ocidental atrapalhada na ideia de que a expressão “Eu penso” é uma aquisição de todos e de cada um.

Não há dúvida de que temos todos essa ilusão, eu penso, e (para ser ainda mais próximo do filósofo), é por pensar que vamos existindo.

Eu penso, logo existo é dessas frases quase publicitárias que se tornaram um clássico no mundo da cultura.

O filósofo René Descartes, no entanto, deixaria murchar o sorrisinho, passaria a exibir uma ruga preocupada na sua testa aparentemente robusta e de homem inteligente, ao constatar que o que ele pretendia afirmar era um Eu penso todas as certezas mas…relacionando a verdade unicamente com as ideias claras do espírito.

Ora isso implicava mostrar que o método de pensar é a iniciativa fundamental da inteligência e que só a razão determina a ordem da matéria.

Nos dias de hoje, tal pensamento debate-se entre algumas verdade e uma produção desmesurada de inverdades. E deixa-nos às voltas com o que é realmente isso da razão, sabendo que outras coisas que não a são nem a comportam  – à razão, entenda-se – nos algemam e nos tolhem, sob o ponto de vista cultural, social, político e económico, apresentando-nos um mundo ilusório de não razão, como patamar de vida.

Perdeu-se, por assim dizer, no pensamento contemporâneo essa autoconfiança, que era quase ilimitada, no poder da sua atuação: a ideia precede as coisas ao ritmo do conhecimento.

Pelo menos este conceito estará tolhido: ao reduzirmos a produção de ideias, ao confundirmos o que é conhecimento com o caudal imenso da informação avulsa que nos invade e esmaga, estamos muito longe do que nos fará bem conhecer.

Ao trocarmos razão (no sentido mais profundo) pela convicção, andamos muitos séculos para trás. E traímos o sorriso de Descartes. Alexandre Honrado