Nos 23 anos da morte de David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira deixou expresso, no fragmento CVIII da segunda parte de , o seguinte desejo: «Gostaria de morrer de repente: / a meio de uma frase que nesse instante / estivesse a ler; ou a escrever.»

A terceira Parca – Atropos – a que tem por mister cortar o fio da vida, não atendeu o desejo do poeta, que lhe havia prestado a sua última homenagem no final da Obra Poética (1948- 1988) :  “ Só comigo me encontro enquanto me concentro / nas ancas de Afrodite ou nos olhos das Parcas / Mas sei que sou assim desde há imenso tempo / mal fora iniciada a secreta viagem.” (mais…)

NA MORTE DE AGUSTINA BESSA-LUÍS

Agustina Bessa-Luís (15 de Outubro de 1922), que lembramos na sua jamais temida morte (3 de Junho de 2019), mostrou como as mulheres da região Norte lutam contra os valores patriarcais, se define a arrogância de burgueses endinheirados, enquanto reflecte sobre o poder (O comum dos mortais, 1998) e não evita um olhar conservador sobre a emancipação feminina (Jóia de família, 2001). Gerações de estudantes conheceram-na em A Sibila (1954), mas, entre as dezenas de títulos desde 1948, salientaríamos O mosteiro (1980), em que se coroa a sua «agressividade de imaginação», incomum no meio português. (mais…)

Nada se compara com o meu cantinho

Ganhei o (estranho) hábito de me sentar em cantinhos bem iluminados. É fundamental que sejam bem iluminados, esses cantinhos, e a razão para essa exigência é muito simples: regra geral faço-me acompanhar de livros, artigos de revistas, fotocópias e apesar de ler bem sem óculos, a luz devida tem de acompanhar-nos.

A esse hábito acresce a sua motivação: é em cantinhos iluminados que as ideias se revelam e da escuridão – zona habitada pela profundidade – pode muito bem nascer a luz, como a sabedoria popular há muito dita.

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Há tanta ideia por pensar (quinta parte)

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

Volte-se então a essa simplicidade que opõe o mal ao bem. Os deuses aos demoníacos, os indiferentes aos imbecis que são piores do que os indiferentes. Ambos são de grande utilidade. Dão-nos a sentir, por vezes ao espelho, que estamos mais perto de nós do que queremos.

Os deuses precisam desesperadamente de nós.

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Há tanta ideia por pensar (quarta parte)

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

A arte pretendeu dar-nos um lado cromático e volumétrico, sensual do pensamento. Por vezes é a vida tal como a vida era ou pensava ser. Outras vezes, distorção. Mais tarde, a exaltação da fealdade. Hoje, a pele e as paredes são telas. A arte fica nelas. Alguns de nós ainda reparam nisso.

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Há tanta ideia por pensar (terceira parte)

Uma pequena homenagem a Vergílio Ferreira

 

O ato de nascer é uma impureza.

No momento inicial, somos seres muito próximos da natureza, é certo, pelo que nenhum ato cultural nos pode ser exigido como atividade consciente.

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