O luto de uma nação: “Choriro”, de Ungulani Ba Ka Khosa

Choriro, de Ungulani Ba Ka Khosa, foi publicado em Maio de 2015 pela Sextante Editora.

Apesar de muito pouco falado em Portugal, Ungulani (antes Francisco) Ba Ka Khosa é, de entre os escritores moçambicanos, o mais reconhecido da sua geração e integra a lista dos cem melhores autores africanos do século XX. A sua primeira obra, Ualalapi (1987), obteve o Grande Prémio de Ficção Moçambicana em 1990, e Os sobreviventes da Noite (2007) o prémio José Craveirinha de Literatura em 2007. Todavia, a não ser por Ualalapi, publicado pela Caminho, e Choriro, obra originalmente publicada no ano de 2009 em Moçambique e agora publicada pela Sextante numa edição revista, é praticamente impossível encontrar as suas obras em Portugal. As restantes obras são, aliás, colectâneas de contos.

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Uma Furtiva Lágrima, de Nélida Piñon

Se o nome causa alguma estranheza é por causa da sua herança galega, pois os seus avós galegos emigraram para o Brasil. A escritora brasileira Nélida Piñon nasceu em 1937 no Rio de Janeiro. Formou-se em Jornalismo em 1956 na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Colaborou em vários jornais e revistas literários e foi correspondente no Brasil da revista Mundo Nuevo, de Paris. Publicou o seu primeiro romance, Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, em 1961.

Nélida Piñon foi homenageada na edição deste ano do Correntes d’Escritas e recebeu, no passado dia 1 de Março, o Prémio Literário Vergílio Ferreira 2019, atribuído pela Universidade de Évora.

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Ernesto Rodrigues, UM PASSADO IMPREVISÍVEL, Gradiva, 2018

Depois do romance Uma Bondade Perfeita, que lhe valeu o Prémio PEN Clube Português – Novelística, Ernesto Rodrigues publica um volume de memórias, Um passado imprevisível. Em três partes, o escritor,
ensaísta e prof. universitário, atual diretor do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa, recorda lugares, personagens e acontecimentos que marcaram a sua vida. Dois fios sobressaem: os anos passados junto ao Danúbio, em Budapeste, onde foi leitor de Português, e uma visita a Moçambique. “Voltar aos lugares onde fomos felizes torna-nos lentos”, escreve a páginas tantas Ernesto Rodrigues. “Sobretudo, quando perdemos vozes. Não podemos recompor os passos do corredor, a saudação de um rosto que amámos – como seria agora, se o reencontrássemos? -, a gentileza de um funcionário. ”

 

[[texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 24 de Outubro de 2018]

De um outro existencialismo e de um mundo de sombras

É simples: não há história sequencial. Cada novo texto revê o anterior. Cada noite a da véspera. Assim, tudo, para ele era borrão, excepto o último.

Ernesto Rodrigues, Um Passado Imprevisível

 

Da vasta obra de Ernesto Rodrigues, que inclui ensaio, poesia e ficção, retenho com especial interesse os seus romances Passos Perdidos (2014) e Uma Bondade Perfeita (2016), este que viria a vencer o Prémio Pen Clube Português no ano seguinte. Acabo agora de ler a sua mais recente peça de ficção, Um Passado Imprevisível, cujo título já contém em si essa ironia de nunca nos conhecermos por completo, muito menos os outros e os relacionamentos mais marcantes das suas e nossas vidas. (mais…)

Nenhum homem é uma ilha

Por este mundo acima é um livro  peculiar de uma autora que, como tantos outros nomes que inundam os escaparates das livrarias, é também jornalista. No entanto, a sua escrita é de uma sensibilidade apurada e toca temas de forma alegórica enquanto outros insistem em mastigar e deglutir a mensagem por inteiro. Patrícia Reis nasceu em 1970, estudou História de Arte e Comunicação, tendo passado por diversos órgãos de comunicação, como o ExpressoMarie Claire e, mais recentemente, dirige a revista Egoísta. No final do ano passado lançou dois livros, o romance Contracorpo, e uma entrevista em jeito de conversa com Simone de Oliveira, intitulada Força de viver. É ainda autora juvenil, tendo escrito uma interessante coleção que apresenta, através do Micas, diversos museus e instituições culturais. (mais…)

A promessa de um instante

A noite das mulheres cantoras, o último romance de Lídia Jorge, foi publicado depois de um interregno de quatro anos, tendo sido atribuídos à autora o Prémio da Latinidade, de Escritora Galega Universal, e o Doutoramento Honoris Causa, pela Universidade do Algarve. A sua escrita reflecte acerca de diversos aspectos sociais, sempre centrada nos problemas da actualidade, sem perder o burilar lento e ritmado de uma linguagem poética, por oposição à arte que se consome fugazmente e não deixa sequelas.

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