ACTAS DA MAIANGA… DIZER DAS GUERRAS, EM ANGOLA…

RUY DUARTE DE CARVALHO

 

Dizer da guerra a quem? E para dizer o quê?

Esperam, da guerra, aí, é que se diga o quê? Retratos dela para ilustrar [para confirmar] o horror? Tem saída e colhe: por vir também nutrir razões, confirmações de quem [fora de Angola e fora da guerra], porque “previu” o horror [e por isso fugiu, ou se alheou ou se manteve ainda assim atento mas a olhar de lado], adrega agora até achar comprazimento na desgraça provada, e consumada. E na perpetuação, na reprodução e na confirmação do horror. O que quer ler e lê, antes do mais, é o que sustem a maldição: a obstrução de qualquer hipótese de redenção, presente ou à vista, liquidada que foi, afinal pela história, a hipótese perdida [colonial e burra], de um horror mais brando [paternalista e esconso], tido como legítimo pela razão serôdia de um certo tempo [colonial, salazarista, marcelista e mesmo abrilista], pela ordem dita natural [“racionalista”, “iluminista”] das coisas, e a favor do abuso do corpo e o sufoco da voz do “outro”, o mesmo, exacto, que mata e morre, agora, na decorrência ainda de um tal passado assim.   Pag. 22/23

Sempre  a fugir para a frente [sempre de fora, pois], dizer do horror pela guerra fora, [sempre] a favor do curso de um senso comum marcado pela perca, quiçá pelo despeito? É que a evidência do horror, proposta assim a assinalar, apenas, a acção directa dos actores em cena, na cena do horror, oculta talvez mais do que revela a cadeia do horror de que resulta  guerra, e a gera, e a inscreve num circuito em que até se inserem, com benefício a haver [para a tal cadeia de que resulta a guerra e há-de de novo conduzir à guerra], o aplauso e o acolhimento da denúncia da guerra como é dada a ver. Coitados deles, coitados, assim tão pretos, todos, perdoai-lhes Senhor…   Pag. 23

O que estou a tentar dizer é que em meu parecer não dá para tratar, nem para entender, comentar ou julgar, a guerra de Angola, e com ela os Angolanos a quem são corrente e levianamente imputadas todas as responsabilidades e culpas [uns e outros, e todos afinal, os que morrem e os que matam no terreno, e são exactos os mesmos], sem situar a guerra de Angola no quadro de uma implicação global de interesses e de actuações que accionam e mantêm, e reproduzem, a guerra. Não para poupar os primeiros, os Angolanos de facto responsáveis por ela.   Pag. 24/25

Dizer da guerra de Angola, da guerra em Angola e de Angola na guerra, como parece que ela exige ser tratada, convidaria, pois, em meu entender, à convocação de todos os dados que a situassem no espectro das razões e das implicações que a situam, a explicam, a admitem, a accionam, a aproveitam, a sustentam, a mantêm e lhe conferem um macabro sentido e uma, mais que oculta, ocultada função no âmbito das relações internacionais [não mencionada mas politicamente reconhecida, medida e integrada por todas as partes]. Pag. 25

Estado a Estado ou no concerto de uma ordem global entre Estados e poderes que ditam e estruturam a dinâmica e o equilíbrio possível de interesses e de oportunidades no exacto tempo – político, geo-político, económico, financeiro, cultural e ideológico – que marca o tempo de hoje de uma guerra, a de Angola, perpetuada na medida exacta da sua renovada instrumentalização pelas lógicas globais que a situam e a excedem.   Pag.25/26

Sobre a guerra em Angola, aliás, também não me parece possível justificar, validar ou garantir seja o que for sem entendê-la, à partida, como uma expressão, entre outras, de uma crise de fundo que não é apenas a de Angola. Ela envolve toda a África sub-sahariana, e já é restringir, e em Angola apenas revela, para todos afinal, tanto para os Angolanos que a vivem como para aqueles que de fora olham Angola como a jóia perdida de uma coroa caída ou como uma lamentada e lamentável ex-colónia, os sinais de uma especificidade, de uma particularidade e de uma caricaturalidade mais chocante e evidente, e única, talvez apenas só porque mais próxima, marcada precisamente pelas especificidades da colonização portuguesa, mais as do processo de descolonização, mais as implicações e das dinâmicas da interacção e da relação de forças, em suma as de um país hipotecado durante décadas ao comércio das armas e ao benefício que daí houve, para uns e para outros e tanto dentro como fora, a fazer o jogo dos que gerem a extracção do benefício tanto no campo “legal” como à margem da “lei”… Uns e outros, afinal, a trabalhar juntos, tanto com Governos como com cartéis. E Governos e cartéis, juntos, a trabalhar as pedras e o óleo dados à ganância não só local por uma presa assim, de um tal tamanho e abertura. Expressão local, nacional, então apenas, e talvez só, de uma crise muito mais dilatada, à escala do continente e do mundo.    Pag. 26/27

transitar a questão do enunciado de uma categoria analítica – Angola como Estado ou como país – para uma categoria empírica: Angola como referente semântico a querer dizer Angolanos.    Pag. 30

Expressões e substantividades de uma guerra que para os sujeitos nela directamente envolvidos deixa de corresponder aos contornos obrigatórios da sistematização em que os analistas a inscrevem, aos termos de relação, de adequação táctica e de decifração estratégica a que os políticos recorremde, e ao impressionismo emotivo com que o senso comum a encara… Inscrita antes numa “normalidade” sedimentada na mais cabal e chocante, sobretudo para quem está de fora, “anormalidade” funcional.   Pag. 30/31

Dizer da guerra em Angola? Ou dizer antes… de Angola na guerra?   Pag. 31

Melhor ainda, talvez:…Dizer da guerra, em Angola…com uma vírgula de permeio a querer dizer: a partir de Angola, de dentro de Angola, como é vivida em Angola?   Pag. 31

Não terão desarmado, por certo, como não desarmaram outros para quem em Angola só podem ter sobrado os tais corruptos e ineptos identificados com o mal. Uns e outros exactamente os mesmos para quem, em Angola, só mesmo a coberto do regime colonial, do benefício de uma situação que os colocava, implícita e explicitamente, em situação de privilégio rácico.   Pag. 54

Vivemos esta guerra até à exaustão. Alguém nos convidou, ou estimulou, entretanto, para pensar a “nossa” guerra na trama das suas implicações totais? E a maneira como agora nos convidam e estimulam para pensar a paz será mesmo aquela que convém às nossas precisas condições? Estamos e estaremos ainda por muito tempo, temo [e o processo das sucessivas plataformas de acerto

 

 

 

 

 

Lendo-se no ondular da sensação  ou Uma concepção proustiana de literatura

Lendo-se no ondular da sensação ou Uma concepção proustiana de literatura

Obra póstuma da autoria de Marcel Proust, Contre Sainte-Beuve parece, em boa verdade, ser um original manifesto literário. Por entre as várias páginas desse seu livro, o escritor expõe uma concepção pessoal de literatura, apresentando-a como expressão de um eu que, no âmago da solitude, em toda a sua poesia se desvela. Despojando-se desse outro eu frívolo que nas relações sociais superficialmente se exibe, o artista  trilha um caminho até ao mais íntimo de si mesmo, dando voz, nessa sua travessia, ao que de mais profundo em si repousa. Sibila-nos Proust, por entre o folhear de um dos seus cadernos: (mais…)

“O Pianista de Hotel”, de Rodrigo Guedes de Carvalho

“O Pianista de Hotel”, de Rodrigo Guedes de Carvalho

Rodrigo Guedes de Carvalho, nascido em 1963 no Porto, é uma presença assídua na vida de muitos portugueses, como apresentador do telejornal das 20 horas na SIC, mas é bom lembrar que já escrevia antes de se tornar conhecido como pivô e nos entrar pela casa dentro. Escreveu ainda argumentos cinematográficos, como Coisa Ruim, filme realizado pelo irmão Tiago Guedes, e um guião para teatro. Pertenceu à direcção de informação da SIC entre 2007 e 2016, interregno em que suspendeu a sua paixão pela escrita. Dez anos depois do seu anterior romance, Canário, Rodrigo Guedes de Carvalho regressa à ficção, com O Pianista de Hotel, o seu quinto romance, publicado em Maio de 2017 pela Dom Quixote, e que soma já várias edições.

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“Ponta Gea”: um bairro no coração da memória de João Paulo Borges Coelho

“Ponta Gea”: um bairro no coração da memória de João Paulo Borges Coelho

Ponta Gea é o mais recente livro de João Paulo Borges Coelho e provavelmente o mais corajoso, assumindo não somente uma narrativa feita na primeira pessoa como também uma perspectiva em que os acontecimentos narrados são filtrados a partir do espaço-memória de infância. O autor, muitas vezes enquanto criança, rememora os lugares que persistem, muitas vezes, apenas na memória e na imaginação de uma cidade inventada.

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“Os Loucos da Rua Mazur”, de João Pinto Coelho

“Os Loucos da Rua Mazur”, de João Pinto Coelho

O autor, nascido em Londres em 1967, arquitecto e professor de Artes Visuais, foi finalista do Prémio Leya em 2014 com Perguntem a Sarah Gross, livro que foi depois publicado pela Leya (como tem acontecido com as obras finalistas) e escolhido como Melhor Livro de Ficção Narrativa de 2015 pela Sociedade Portuguesa de Autores. Neste segundo romance, vencedor do Prémio Leya de 2017, João Pinto Coelho regressa à Polónia, país onde integrou já duas acções do Conselho da Europa em Auschwitz, trabalhou proximamente com vários investigadores do Holocausto e realizou intervenções públicas sobre essa matéria.

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“A Nossa Alegria Chegou”, de Alexandra Lucas Coelho

“A Nossa Alegria Chegou”, de Alexandra Lucas Coelho

A Nossa Alegria Chegou, o quarto romance de Alexandra Lucas Coelho e o seu décimo livro, publicado pela Companhia das Letras – que está a relançar as suas outras obras -, quebra diversas convenções e géneros, e instaura um território ficcional difícil de definir, sem a complexidade narrativa de deus-dará, onde sete narrativas se cruzam, em sete dias, num romance transgénero que liga passado e presente.

«Alguns mamíferos sabem que vão morrer. Estes três sabem que podem morrer hoje.» (p. 17) (mais…)