São João de Deus

S. IOAÕ DE DEOS Patriarcha da Hospitalidade, Sagrado Abrahaõ da Ley da Graça, e Primogenito da charidade mais ardente para remedio dos enfermos teve por berço a Villa de Monte-mór o novo em a Provincia Transtagana a 8 de Março de 1495. e por Pay a Andre Cidade, Varaõ mais ornado dos dotes da graça, que dos bens da fortuna. Foy celebrado o seu nacimento pelas vozes dos sinos da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bispo, que sem impulso humano deraõ festivos anuncios do novo Astro, que rayava no seu emisferio. Na pueril idade de outo annos deixando a Caza paterna passou à Cidade de Oropeza onde havendo exercitado o innocente Officio de pastor como se sentisse igualmente crecido em brios, do que annos se alistou nas Tropas, que se mandavaõ para Fuenterabia ocupada pelas armas Francezas. Depois de evadir de dous graves perigos a que esteve condenada a sua vida deixou o exercicio militar pelo pastoril, que segunda vez practicou em Oropeza, e Sevilha. Passando à Praça de Ceuta sustentou com o proprio trabalho a D. Luiz de Almeyda Cavalheiro Portuguez com toda a sua familia reduzida à ultima miseria donde depois de escapar de huma horrivel tormenta, que quazi o teve sumergido no Estreito de Gibraltar entrou em Granada, theatro, que lhe destinou para a sua mortificada vida o Principe da gloria aparecendo-lhe disfarçado em a innocente forma de menino. Sucedeo, que pregando em o suburbio desta Cidade o Ven. Ioaõ de Avila Apostolo de Andaluzia fosse seu ouvinte, e como o argumento do Sermaõ eraõ as setas que trespassaraõ o corpo do invicto Martyr S. Sebastiaõ, e mostrasse o Orador Evangelico quanto mais penetrantes eraõ as que disparava o Amor Divino para atrahir a si os Coraçoens humanos, se acendeo com tal excesso o seu peito ferido da vehemente energia daquellas vozes que sahio da Igreja confessando publicamente os seus pecados sendo manifestos indicios da sua conversaõ a copia de lagrimas, e de suspiros que sahiaõ incessantemente da sua boca, e olhos. Para mais clara demonstraçaõ do seu arrependimento discorria pela Cidade como frenetico ferindo o peito com pedras, e manchando o rosto com o lodo das ruas, cujas açoens como fossem interpretadas pelo povo por efeitos de loucura, foy recluzo no Hospital onde pelo espaço de quarenta dias tolerou com heroica paciencia sinco mil açoutes para remedio da sua afectada demencia. Obedecendo ao preceito do Mestre Avila seu espiritual director de ser já tempo de deixar a aparente loucura pela qual tinha padecido a multiplicidade de tantos golpes em satisfaçaõ das suas culpas se restituhio ao juizo que sempre conservou perfeito, e sahindo do Hospital visitou o celebre Sanctuario de Guadalupe onde recebeo de Maria Santissima particulares favores. Voltando a Granada como o seu Coraçaõ se abrazasse em o charitativo socorro dos infermos fundou em humas cazas alugadas a 8 de Novembro de 1537. quando contava 42 annos de idade hum Hospital para onde conduzia sobre seus hombros todas as pessoas que padeciaõ infirmidades incuraveis, e contagiosas, sendo este edificio o primeiro desenho da Sagrada Religiaõ, que instituhio para universal beneficio da pobreza aflicta com diversas doenças, a qual com tanta gloria de Deos, como remedio dos infermos se tem dilatado pelas quatro partes do mundo. Recebida a forma do habito de que havia uzar, da maõ de D. Sebastiaõ Ramires de Fuenreal Bispo de Tuy, e Presidente da Chancellaria de Granada ordenandolhe que mudasse o sobrenome de pecador com que se intitulava por humildade em o de Deos, continuou com mayor disvelo assistir aos infermos procurando incessantemente de noute, e dia esmolas por todo o Reyno de Andaluzia com que podessem ser socorridos. O mais heroico testemunho da sua ardente charidade para com os infermos se admirou quando sem temor às vorazes chamas em que ardia o Hospital real de Granada salvou de taõ horrivel incendio a todos os doentes com os leitos em que jaziaõ sendo mais activo o incendio que lhe abrazava o peito do que aquelle que devastava, e consumia taõ nobre edificio. Ornado o seu grande espirito de Fé heroica, Esperança firme, Charidade excessiva, paciencia invicta, humildade profunda, mortificaçaõ rigorosa, e oraçaõ continua triumfou das astucias diabolicas, previo sucessos futuros, e recebeo celestiaes favores. Certificado pelo Archanjo S. Rafael que muitas vezes fora seu companheiro no ministerio da Hospitalidade, de ser chegada a hora do seu feliz transito lhe ministrou o Sagrado Viatico D. Pedro Guerreiro Arcebispo de Granada a quem recomendou os seus pobres como os mais preciosos legados. Depois de exhortar aos seus religiosos ao exercicio da charidade para com os infermos pedio que o deixassem só, e levantandose da Cama vestido com o habito, e posto de joolhos com Christo Crucificado entre os braços lhe entregou placidamente o espirito a 8 de Março de 1550 quando contava 55 de idade. Nesta admiravel postura, esteve o espaço de seis horas o sagrado corpo sustentandose contra os forosda natureza como se estivera vivo, porem a indiscreta piedade dos assistentes o extendeo para ser collocado no feretro. Tanto que os sinos deraõ sem impulso humano funestos sinaes da sua morte concorreu tumultuariamente o povo a venerar o seu Cadaver explicando com sentidas vozes, e lastimosos clamores a falta do seu universal Bemfeitor. Foy levado aos hombros do Marquez de Tarifa Adiantado mayor de Andaluzia, D. Inigo Lopes de Mendoça Marquez de Mondejar, e Conde de Tendilha Capitaõ General do Reyno de Granada; D. Rodrigo Pacheco Marquez de Cerraluo, D. Pedro Granada Viegas Senhor de Campo Tejar que hoje he Marquezado; D. Pedro de Bovadilha, e D. Ioaõ de Guevara ao Convento de N. Senhora da Vitoria dos Minimos de S. Francisco de Paula donde passados cento e quatorze annos precedendo repetidas suplicas de seus religiosos filhos foy tresladado a 28 de Novembro de 1664. para o Hospital de Granada primeiro solar da sua Sagrada Familia. Havendo corrido o largo espaço de 37 annos depois da morte do Santo, como estivesse dilatada a sua Religiaõ em muitos Conventos lhe concedeo faculdade Xisto V. para que se eximisse do Ordinario, e elegesse hum Geral que a governasse. O instituto foy aprovado por S. Pio V. com grandes elogios em o primeiro de Ianeiro de 1571. assinando a forma do habito, e declarando ser verdadeira Religiaõ com profissaõ de tres votos solemnes acrecentando o quarto da Hospitalidade como fundamental base do seu Instituto. A multiplicidade de estupendos milagres com que a divina Omnipotencia se empenhou a manifestar a fama deste seu grande servo moveo à Santidade de Urbano VIII. para que o Beatificasse a 28 de Setembro de 1630. E passados 60 annos foy collocado entre o numero dos Santos Confessores pelo Summo Pontifice Alexandre VIII. a 16 de Outubro de 1690. e como sucedesse logo a morte deste Papa expedio a Bulla da Canonizaçaõ Innocencio XII. a 15 de Iulho de 1691. Escreveo a sua vida o Mestre Francisco de Castro Administrador do Hospital de Granada a qual sahio traduzida em Frances pelo Arcebispo de Ruaõ Francisco de Harlay, em Italiano por Ioaõ Francisco Bardin Arcebispo de Avinhaõ, e em Latim por Antonio de Raisse Conego da Cathedral de Dovay, e mais fielmente pelo P. Heschenio Act. Sanct. ad diem 8. Martii. Na lingua Castelhana a escreveo D. Fr. Antonio de Gouvea Bispo de Cirene varias vezes impressa, e mais difusamente Fr. Ioaõ dos Santos Chronol. Hospital. Part. 1. liv. 2. cap. 1. até 85. e na Franceza Ioaõ de Loyac Conselheiro, Esmoler, e Pregador ordinario delRey Christianissimo, e Abbade de N. Senhora de Gondon, e Monsiur Gerard de Ville Thierry em o anno de 1691. e Monsiur Adriaõ Baillet Vies des Saints Tom. 1. pag. mihi 91. P. Heliot Hist. des Ordres Monastiq. Tom. 4. cap. 18. Em a Portugueza o Licenciado Iorge Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 2. p. 106. e no Comment. de 8 de Março Letr. B. e em Outavas Portuguezas o Licenciado Francisco Barreto de Landim. Escreveo

Cartas a differentes personas impressas a la instancia de Fr. Domingo da Mendoça Dominico. Madrid por Iuan. de la Cuesta. 1623. 4.

Sinco Cartas escritas a 1. e 2. à Excellentissima Duqueza de Sesa D. Maria de los Covos, y Mendoça; a 3. e 4. a Gutierre Lasso; e a 5. a Iuan Baptista morador na Cidade de Gaen. Sahiraõ impressas no fim da Vida do mesmo Santo escrita pelo Bispo de Cirene D. Fr. Antonio de Gouvea Madrid por Thomas Iunti 1624. 4. Desde fol. 195. até 215. Estas mesmas Cartas foraõ reimpressas na Chronolog. Hospital. ou Resumen Histor. de la Sagrad. Relig. de S. Iuan. de Dios Tom. 1. liv. 2. cap. 71. 81. 82. e liv. 3. cap. 25. e 26.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

Suzana Guimarães Farias

Suzana Guimarães Farias

Suzana Guimarães Farias nasceu na cidade do Recife (Pernambuco, Brasil). Começou a escrever, aos oito anos de idade, poesias e histórias infantis.
Participou de vários concursos literários, tendo os seus trabalhos selecionados, a exemplo do VIII Concurso Raimundo Correa de Poesia e do 12º Festival Maranhense de Poesia Falada. Foram publicadas , em coletânea, pela Shogun Arte – Rio de Janeiro (RJ), Poesia em preto e branco, no livro Antologia poética das cidades brasileiras (1988) e As rosas não nascem só na primavera, em Poetas Brasileiros de Hoje (1989).
Cursou o bacharelado e o mestrado em Matemática Pura pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde lecionou como auxiliar de ensino e pesquisa.
Possui diversos textos premiados pela Academia Brasileira de  Letras (ABL), a saber: A vida da palavra (2003), A palavra na era da imagem (2005), A importância do livro no Brasil do século XXI (2006) e A importância de Machado de Assis um século depois de sua morte (2008). Esse último concorreu com mais de 37.000 (trinta e sete mil) redações em todo o Brasil e, com esse texto, a escritora foi a única recifense premiada.Também atuou como professora no Departamento de Matemática da Universidade Católica de Pernambuco. A referida escritora tem vários livros inéditos prontos para publicação e escreve, também, em língua inglesa e espanhola. O livro escrito em língua espanhola contém textos, poemas e uma novela em homenagem a Cervantes.
O texto premiado pela Academia Brasileira de Letras em 2008 (A importância de Machado de Assis um século depois de sua morte) está incluído no livro A Janela.

D. Salvado

D. SALVADO, Conego Regrante dos setenta e dous que admitio ao Convento de Santa Cruz de Coimbra seu primeiro Prior S. Theotonio em 24 de Fevereiro de 1132. Foy Varaõ igualmente insigne em virtude, e sciencia. Escreveo com gentil estilo, e acertado disccurso, como diz Fr. Antonio Brandaõ Mon. Lusit. Part. 3. liv. 9. cap. 22. a Vida do B. Martinho Conego Regrante, Prior da Igreja de Soure restaurada no anno de 1124 da irrupçaõ que nella fizeraõ os Arabes no anno de 1117, cuja vida se conserva no livro dos Testamentos fol. 46. que está no Cartorio de S. Cruz de Coimbra com o seguinte titulo.

B. Martini Sauriensis Presbiteri vita.

O insigne André de Resende de Antiq. Lusitan. lib. 1. tratando de Tapiaco Monte, escreve que intentava publicar esta vida, o que executaraõ os Collectores do Acta Sanctorum em o Tom. 2. ad diem 31. Januarii. Do Author, e da obra fazem memoria Nicol. Ant. Bib. Vet. Hisp. lib. 7. cap. 4. §. 78. e 79. D. Nicol. de S. Maria Chron. dos Coneg. Reg. liv. 7. cap. 25. n. 12. e o Licenciado Jorge Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 2. p. 344. no Comento de 28 de Março letr. A. onde transcreve algumas clausulas da dita Vida.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]

Frei Salvador de São Bento

Fr. SALVADOR DE S. BENTO, natural da Villa de Serpa em a Provincia Transtagana, e filho de Luiz Bayaõ, e Brites Ribeiro. Professou o Serafico instituto da Provincia dos Algarves a 8 de Fevereiro de 1674. Exercitou o ministerio do Pulpito, e de Confessor das Religiosas dos Mosteiros de Alcacere, e Moura. Compoz

Funiculus Triplex. Esta obra sendo aprovada pelos Superiores naõ chegou a lograr da luz publica, como escreve o P. Fr. Jeronymo de Belem na Chron. da Prov. dos Algarves. Tom. 1. na Introd. pag. 268.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]

Frei Salvador Correia de Sá

Fr. SALVADOR CORREA DE SÁ, Naceo em Lisboa, onde teve por Prognitores a Diogo Correa de Sá II. Visconde de Asseca, e D. Ignez de Alencastre, filha de Luiz Cesar de Menezes Alferes mór do Reino, e de D. Marianna de Lancastre filha de D. Rodrigo de Lancastre Comendador de Coruche. Com heroica resoluçaõ abraçou o instituto do Doutor Maximo S. Jeronymo professando solemnemente em o Real Convento de Santa MARIA de Belem a 25 de Agosto de 1717, onde estudadas as sciencias escolasticas com disvelo, as dictou aos seus domesticos com tanto aplauso que mereceo ser laureado Doutor em Theologia pela Universidade de Coimbra, e depois Qualificador do Santo Officio, Examinador Synodal do Patriarcado de Lisboa, e das Tres Ordens Militares, Consultor da Bulla, e Academico da Academia Real. O mesmo genio, que lhe concedeo a natureza para as sciencias severas, exercitou felizmente nas amenas, sendo eloquente Orador, e elegante Poeta. Tendo administrado com satisfaçaõ dos subditos o lugar de Reitor de Coimbra subio ao de Geral da sua Congregaçaõ a 16 de Abril de 1742, no qual se admiraraõ em perfeito equilibrio a prudencia do seu talento, e a candura do seu coraçaõ. Publicou

Glossa ao Soneto, que seu Pay o Visconde de Asseca fez á morte da Serenissima Senhora D. Francisca Infanta de Portugal que começa.

Aqui se oculta nesta sombra escura, &c.

Sahio nos Accentos Saudosos das Musas Portuguezas. Part. 2. Lisboa por Antonio Isidoro da Fonseca. 1736. 4.

Sermaõ na solemnidade com que tomou o veo de professa a Madre Maria Gracia do Sacramento religiosa no Convento das Carmelitas Descalsas de Santo Alberto da Cidade de Lisboa, filha dos Viscondes de Asseca assistindo áquelle acto a Rainha N. S. e a Serenissima Princeza do Brasil. Lisboa, por Miguel Rodrigues Impressor do Eminentissimo Senhor Patriarcha 1738. 4.

Soneto á morte delRey D. Joaõ V. Sahio na Collec. dos Acad. Ocult. a pag. 14. Lisboa por Manoel Soares Vivas 1750. 4.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]

Salvador do Couto de Sampaio

SALVADOR DO COUTO DE SAMPAYO, natural de Coimbra, e Promotor da Justiça Ecclesiastica no Bispado da dita Cidade igualmente perito na Jurisprudencia Pontificia, como no estylo historico, escrevendo elegantemente.

Relaxaõ dos sucessos victoriosos que na barra de Goa ouve dos Olandezes Antonio Telles de Menezes Capitaõ Geral do mar da India nos annos de 1637, e 1638. Coimbra por Lourenço Crasbeeck 1639. fol.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]