José da Costa Coimbra

IOZÉ DA COSTA COIMBRA natural da Cidade do seu appellido, e muito perito em as noticias da Historia do nosso Reyno publicou.

Manifesto singular em que a felicidade dc Portugal se admira, e pela qual a todos consta a prodigiosa apariçaõ de Christo Crucificado ao Infante D. Affonso Henriques em o sempre celebre, e fecundissimo Campo de Ourique. Lisboa por Manoel Fernandes da Costa. 1736. 4.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

Leonis de Pina e Mendonça

LEONIZ DE PINA, E MENDOÇA Cavalleiro da Ordem de Christo, e Familiar do Santo Officio, filho de Pedro de Pina Osorio, e de Luiza Osorio da Fonceca sua Prima, Senhores da Casa de Remela naceo em a Cidade da Guarda Solar da sua nobre familia. Ainda contava poucos annos quando se vio orfaõ de seu Pay, e depois de estudar na Patria as letras humanas foy admetido a Collegial do Collegio da Madre de Deos em Evora como parente mais chegado do seu Fundador o Dezembargador Heytor de Pina Olival onde aprendeo Filosofia. Para argumento do seu valor acompanhou aos Governadores das nossas Armas em todas as invazoens que se fizerao em Castella quando se disputava a liberdade da nossa Monarchia, acudindo com igual ardor á Praça de Almeyda, que governava seu Cunhado Braz do Amaral Pimentel. Com a sua direçaõ, e dispendio fortificou os arrabaldes da Cidade da Guarda com grossas trincheiras que como mais expostos podiaõ padecer fataes hostilidades. O grande respeito que conciliara nesta Provincia junto com o parentesco que por si, e sua consorte tinha com alguns Cavalheros Castelhanos foraõ causa de ser pelos seus emulos capitulado de inconfidente, de cuja falsa calumnia sahio taõ purificada a sua innocencia que em premio do zelo, e fidelidade com que em todas as suas açoens se tinha havido declarou ElRey por huma Portaria de 16. de Mayo de 1668. ser hum vassalo da mayor confiança, e satisfaçaõ. Nas Cortes celebradas em 1669. em que foy  jurada herdeira desta Coroa a Serenissima Senhora D. Izabel assistio como Procurador da Guarda, Lugar que ja tinha exercitado nas Cortes de 1645. As grandes despezas que fizera em serviço delRey, e a quantia de sessenta mil cruzados, que pagara como fiador de diversos homens de negocio, o reduziraõ no fim da vida a summa pobreza de que se seguio retirar-se a sua quinta do Pombo junto da Cidade da Guarda onde viveo resignado com as disposiçoens da Divina Providencia até fallecer de hum Tuberculo deixando de suas virtudes louvavel exemplo. Jaz sepultado na Capella de N. Senhora da Conceiçaõ que edificara na sua quinta sem epitafio como tinha ordenado cuja disposiçaõ cumprio fielmente seu filho unico Luiz de Pina Osorio de Proença que teve de sua mulher Catherina de Carvalho filha mais velha de Affonso Fernando de Carvalho, e de sua Prima com Irmaã Izabel Lopes de Carvalho. Conservou continuo comercio com os homens mais eruditos de seu tempo, e foy alumno da sociedade Real de Londres. Em todas as Artes, e Sciencias fallava como professor consumado. A Poesia, e letras humanas foraõ o exercicio da mocidade, a Mathematica aplicaçaõ de toda a vida, e a liçaõ dos Santos Padres ocupaçaõ, e alivio da velhice. O dezengano lhe persuadio extinguir muitas obras suas, e o sequestro que por sua morte se fez em seus bens, ocultou outras dignas de perpetua memoria. De todas ellas sómente se publicou a seguinte.

Amuleto da alma composto dos antidotos, e epithemas, que os Santos Doutores, e outros pios, e doutos varoens recitaraõ ao contagio dos vicios. Lisboa por Joaõ da Costa 1670. 12. Na Dedicatoria a Nossa Senhora diz que premeditava escrever a Cronologia da sua purissima vida.

Das suas obras M. S. se salvaraõ as seguintes que claramente mostraõ como era versado em diversas Sciencias.

Poesias Lyricas. 4.

La divina Salamandra. Comedia

Emericiana. Novella em verso, e prosa

Tratado Cosmografico.

Varios Opusculos pertencentes á Theorica da Musica.

Tres Centurias de Problemas, e Theoremas Geometricos.

Da Quantidade commensuravel pratica. Desta obra a primeira parte que pertence aos numeros estava perfeitamente acabada.

Parafraze ao Officio de nossa Senhora Em verso Portuguez. Estava corrente com todas as licenças para se imprimir.

Enneados. Esta obra constava de Louvores de nossa Senhora na qual tinha aplicado grande estudo.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]

Lopo Serrão

LOPO SERRAÕ natural da Cidade de Evora insigne professor de Medecina pela qual mereceo ser Medico da Camara delRey D. Sebastiaõ. Naquellas horas vagas do exercicio desta Faculdade se aplicava á metrificaçaõ de versos elegiacos, em que se fez venerado por todos os Corifeos do Parnasso, imitando com taõ vivas cores a Musa de Ovidio, que se equivocava a copia com o Original. Morreo na sua Patria em idade muito provecta cujo Nome celebraõ Joaõ Soar. de Brito Theatr. Lusit. Litter. Lit. L. n. 50. Imbonato Bib. Lat. Rabbin. pag. 155. n. 579. D. Franc. Man. Carta dos AA. Portug. Nicol. Anton. Bib. Hisp. Tom. 2. pag. 65. col. 25. Fonseca Evora Glor. p. 413. Petr. Sanches Epist. ad Ignat. de Moraes.

Non procul hinc video Pindo duo flumina Sacro Nymphis, & Musis facili labenti ac ursu,

Serranum, Pyrrhumque meum, quos in arte medendi

Non superent docti Podalirius, atque Machaon: Ille canit numeros concinnos impare gressu, Quos tibi fortassis Getico de littore missos Á magno credas gelidi Sulmonis alumno; His docet ille graves de corpore pellere morbos,

Et levius duram vetulis perferre senectam.

P. Anton. dos Reys Enthus. Poet. n. 12.

………………. Stat proximus ille morosae Damma senectutis, qui carmine pinxit in urbe

Post regni primam nullli pietate secundà

Ut pote quam docuit fidei documenta Beatus

Mansius in terris, qui Christum audiverat ipsum.

Compoz

De Senectute, & aliis utriusque sexus aetatibus & moribus libri XIV. Olyssipone apud Antonium Riberium. 1579. 8. No fim.

Deploratio populi Israelitici juxta flumina Babilonis, & ejusdem exitus de terra Aegypti. Esta obra consta de versos elegiacos, e esta marginada de doutissimas Notas. Sahio novamente impressa no Tom. 4. do Corpus Illustr. Poet. Lusit. qui Latine scripserunt Lisbonae Typ. Regalibus Sylvianis, & Regiae Acad. 1745. 4. grande desde pagin. 19. até 292.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]

Lourenço Mourão Homem

LOURENÇO MOURAÕ HOMEM filho de Martim Mouraõ e Brites Nunes Homem naceo em a Cidade de Lamego onde instruido com as letras humanas passou a Coimbra para ser ornato da sua celebre Universidade em a qual recebendo as insignias Doutoraes em Direito Pontificio dictou com igual clareza, que profundidade na Cadeira de Clementinas a que foy assumpto a 6. de Dezembro de 1575. as Postilas de Foro competenti. Ao Titul. de sententia Excomunicationis e ao Tit. in Clementis. Foy das primeiras bazes em que se edificou o Real Collegio de S. Paulo servindo-lhe de glorioso ornato o seu talento pelo qual mereceo possuir os lugares mais distintos de huma, e outra Jerarchia sendo Protonotario Apostolico, Deputado da Inquisiçaõ de Coimbra, Arcediago da Sé de Lisboa, Deputado da Mesa da Conciencia, Dezembargador da Casa da Suplicaçaõ, e Aggravos, e do Paço, Assistente ao Cardial Alberto quando governou este Reyno, e ultimamente Prior de Villaverde. Falleceo de parlesia em Lisboa a 10. de Novembro de 1608. e foy sepultado na Igreja de Santo Eloy dos Conegos Seculares do Evangelista aos quaes deixou a sua selecta livraria, que foy avaliada em cinco mil cruzados. Deste Convento foraõ tresladados os seus ossos para o de Santa Cruz de Lamego habitado pelos mesmos Conegos Seculares, que elle edificara com igual dispendio, que piedade, e na parede da Capella mor do lado do Evangelho está embebida a sua sepultura com este elegante epitafio.

Jura dabam dum vita comes, nunc borrida mortis.

Jura fero parvo coriditus in tumulo.

Delle fazem honorifica memoria Cabbed. de Patron. Reg. Cap. 48. Franc. de Santa Maria Chron. dos Coneg. Secul. liv. 2. cap. 12. Pessoa de grandes letras, e authoridade neste Reyno. D. Nic. de Santa Maria Chron. dos Coneg. Reg. liv. 10. cap. 15. §. 9. Barboza Mem. do Coll. Real de S. Paulo p. 81. e no Archiath. Lusit. p. 14.

Tempore quo Lysium regali munere sceptrum.

Diriget Albertus Sacri pars clara Senatùs,

En jubet ille potens gentis dominator Iberae,

Mouranam in partem curarum adhbere peritum.

Possit ut afflictis socio sucurrere rebus.

Unanimi, & regni nutantem flectere clavum.

Praescia, Mourani prudentia nota Philippo.

Sic erit Hispano regnantùm jure Catoni!

Saxéa quae surgit moles ad sydera ligno.

Et sacrata pio quo vita pependit Jesu.

Incola cujus erit proles generosa Joannis.

Proferet aeterno pietatis tempore famam. Compoz.

Parecer em que prova poderem uzar os Geraes da Congregaçaõ de Santa Cruz de Coimbra de Mitra, e fazerem Pontificaes. Sahio impresso na Chron. dos Coneg. Reg. composta por D. Nicolao de Santa Maria liv. 10. cap. 17. §. 15.

Tratado da Jurisdiçaõ secular delRey que se encontra com a Jurisdiçaõ Ecclesiastica. Esta obra logo que sahio desagradou ao Summo Pontifice, porém examinada com atençaõ, mereceo que lhe passasse hum Breve em seu louvor.

Tratado dos Padroados, e Aprezentaçoens dos Regulares para Benefcios da  sua apresentaçaõ. fol. Conservava esta obra o Doutor Ioaõ Rodrigues de Moura Chantre e Vigario Geral de Lamego.

Parecer sobre os poderes do Conservador Apostolico de Salamanca a respeito da jurisdiçaõ Real.

Pareceres sobre a Vigairaria da Sella dos Coutos de Acobaça se a podia prover o Arecbispado, ou o Legado vagando em mez reservado. Hum foy escrito em Latim, e outro em Portuguez por ordem do Cardeal Alberto.

Determinaçoens de Direito sobre casos em que foy consultado pelos Governadores do Reyno. fol.

Vida de Santa Izabel. Desta obra o faz author o Licenciado Jorge Cardozo nos M. S. para a Bib. Portug.

Vida de S. Gonçalo de Amarante. Foy composta por ordem delRey quando pertendia no anno de 1598. a Canonizaçaõ deste Santo.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]

Frei Lúcio de São Paulo

Fr. LUCIO DE S. PAULO natural da Villa da Pesqueira do Bispado de Lamego, ou no Lugar do Vidigal distante huma legoa desta Villa. Foy bautizado a 7. de Novembro de 1591. e tanto que chegou á idade competente de abraçar instituto Religioso elegeo o da Sagrada Ordem Terceira da Penitencia de S. Francisco professando no Convento de S. Joaõ da Pesqueira a 16. de Novembro de 1611. Estudou Artes, e Theologia no Collegio de S. Pedro de Coimbra em que sahio bastantemente instruido. Pelo exercicio das Virtudes Religiosas mereceo ser Mestre dos Noviços do Convento de Caria, Ministro do Convento de N. Senhora da Esperança, e de N. Senhora de Jesus em Lisboa, Secretario da Provincia, e ultimamente Ministro Provincial eleito a 17. de Fevereiro de 1636. Acabado o governo como anhelasse o seu espirito a vida contemplativa se retirou ao Convento de N. Senhora do Desterro fundado na Serra de Monchique cujo sitio solitario convida a contemplaçaõ dos bens eternos, e desprezo dos caducos, e nelle macerou o corpo com diversas penitencias, até que conhecendo ser chegada a ultima hora pedio os Sacramentos que recebidos com grande ternura, e invocando repetidamente os Santissimos Nomes de JESUS, e Maria espirou placidamente a 20. de Abril de 1646. quando contava 55. annos de idade e 35. de Religiaõ. Delle se lembra Cardozo Agiol. Lusit. Tom. 2. p. 650. e no Comment de 20. de Abril Letr. G. Compoz.

Obitus, seu Depositiones Fratum defunctorum nostri Sacri Tertij Ordinis de  Paenitentia quorum memoria agitur per anni circulum finita Prima in Choro. Olyssipone apud Georgium Rodrigues 1638. 4.

Estatutos dos Religiosos da Terceira Ordem de S. Francisco comfirmados pelo Santissimo Padre Clemente VIII. Lisboa por Jorge Rodrigues 1638. 4.

Principio da Santa Provincia da Terceira Ordem. fol. M. S.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]

D. Luís

D. LUIZ Infante de Portugal, Duque de Beja, Fronteiro mór da Comarca de entre Tejo, e Guadiana, Condestavel de Portugal, Senhor de Salvaterra, Covilhaã, Serpa, Almada, e da Cidade de Ceuta, Prior mor do Crato nasceo em a Villa de Abrantes a 3. de Março de 1506. para immortal brazaõ de seus augustissimos pays os Serenissimos Monarchas D. Manoel e D. Maria o qual sendo pela ordem da natureza quarta produçaõ de taõ soberano Thalamo foy digno pelas heroicas virtudes, de que se ornou o seu espirito de ser a primeira. Foy educado por Ruy Telles de Menezes Quarto Senhor de Unhaõ destinado Guarda mór, e Camareiro mór da sua pessoa, e da escola de taõ authorizado Cavalhero sahio instruido em maximas igualmente moraes, e politicas. Aprendeo as disciplinas Mathematicas com o oraculo dellas Pedro Nunes conciliando ao seu nome mayor fama com tal discipulo, que pela sublimidade do engenho, e viveza da comprehensaõ era gloriosa emulaçaõ da profundidade do Mestre. Estimulado de marciaes espiritos naõ podendo tolerar o ocio como injurioso ao seu valor, se resolveo com mayor zelo da Religiaõ, que ambiçaõ de gloria destruir em Africa, e Asia os torpes sequazes de Mafoma. Para conseguir este heroico intento suplicou repitidas vezes a seu irmaõ D. Ioaõ o III. faculdade, que lhe foy negada sobejando para eterna recomendaçaõ da sua heroicidade o ardente dezejo com que anhelava rubricar com o proprio sangue as suas mil;tares façanhas. Ao tempo que se lhe dificultava exercitar a valentia herdada de seus augustos Ascendentes, lhe ofereceo a fortuna huma façaõ que lhe adquerio gloriosa fama estabelecida sobre os louros de duas celebres vitorias. Aggravado o Cezar Austriaco dos repetidos insultos com que infestava os mares, e devastava as terras dos seus dominios de Italia o atrevido Cossario Heredim Barbaroxa, se resolveo escrever a seu cunhado D. Ioaõ o III. para que com as suas auxiliares armas concorresse a debellar hum vil pirata, que com especioso titulo de Rey exercitava barbaras hostilidades contra os professores do Evangelho privando a huns da vida, e a outros da liberdade. Condescendeo promptamente D. Ioaõ o III. a taõ justificada suplica mandando preparar huma formidavel armada assim pelo numero dos soldados, como dos Navios entre os quaes se distinguio o Galeaõ S. Ioaõ Bauptista que como Mongibello nadante vomitava trezentos, e sessenta, e seis rayos de tantas pessas de bronze. Certificado o Infante D. Luiz deste apparato militar para que o preceito de seu irmaõ lhe naõ roubasse a gloria de vencedor sahio ocultamente de noute da Cidade de Evora resoluto a naõ voltar para o Reyno sem o aplauzo de alguma façanha heroica. Tanto que se divulgou na Corte a auzencia do Infante partiraõ sem permissaõ delRey para seus companheiros o Duque de Bragança D. Theodosio, Luiz Alvares de Tavora Senhor do Mogadouro, Ruy Lourenço de Tavora seu irmaõ, D. Affonso de Portugal filho herdeiro do primeiro Conde do Vimioso, e Tristaõ de Mendoça. ElRey D. Ioaõ o III. ainda que sentido da honrada fugida de seu irmaõ estava satisfeito da animoza resoluçaõ com que desprezando os perigos se offerecia voluntariamente a huma empreza taõ gloriosa. Depois de ter aportado o Infante em Barcelona foy recebido pelo Emperador na escada do Palacio com aquellas significaçoens dignas do esplendor do sangue, uniaõ do parentesco, e caracter da pessoa louvando-lhe a animozidade com que primeiramente vencera os perigos da jornada para depois triunfar dos inimigos da Christandade. Embarcou-se o Infante em 30. de Mayo de 1535. em huma magnifica Galé que seguia a Armada, a qual constava de quatrocentos vazos entre grandes, e pequenos guarnecidos de vinte, e quatro mil Infantes, e mil, e quinhentos cavallos. Resolveu-se que fosse acometida a Praça da Goleta por mar, e terra, e como estivesse por industria de Barbaroxa defendida de huma grossa cadeya que impedia a passagem a todas as embarcaçoens, recorreo o Emperador ao Infante para que como outro Alexandre cortasse com o seu Galeaõ aquella cadeya mais indissoluvel que o Nó Gordiano. Empenhou-se o Infante nesta ardua empreza, e sendo baldado o primeiro impulso, repetio com segundo de cuja violenta impressaõ se despedaçou em varias partes o obstaculo que dificultava o rendimento da Praça cauzando este sucesso aos barbaros tal assombro, e terror, que foy gloriosa consequencia a entrega da Goleta onde deixaraõ por despojos trezentas peças de bronze, outenta e sete navios de remo entre os quaes se contavaõ quarenta Gales Reaes. Nesta empreza obrou o Infante açoens dictadas pela sua militar disciplina, e intrepido coraçaõ assistindo sempre ao lado do Emperador para o defender como soldado, e acautelar como prudente os mayores perigos. Restituido á Corte depois de ter tolerado no mar varias tempestades o recebeo ElRey com afectuosas demonstraçoens naõ se lembrando da desobediencia, que o motivo fez licita, e o sucesso gloriosa. Como o talento do Infante era igualmente activo na campanha, que no Gabinete naõ determinava ElRey negocio que cedesse em gloria do Reyno que primeiramente o naõ consultasse com elle achando no seu voto prudente madureza, e judiciosa liberdade. A sua inculca deve a Azia ser governada pelo famozo D. Ioaõ de Castro cujas virtudes practicadas na adolescencia conhecia o Infante como criado na mesma Escola em que ouviraõ ao celebre Pedro Nunes, sendo o Infante a causa motora de que hum taõ grande Vassallo passasse de benemerito a Heroe. Em obsequio das conveniencias da Patria duas vezes passou a Espanha sendo o motivo da primeira ajustar com o Emperador seu cunhado o expediente que se havia tomar sobre as dependencias das Coroas de Portugal, e de França que injustamente pertencia a liberdade do comercio em as nossas Conquistas, donde se originavaõ aquellas violencias, que executa o poder colligado com a ambiçaõ; e a segunda para ser Mediador da paz entre o mesmo Emperador, e ElRey de França resultando da discordia destas duas grandes Potencias gravissimos damnos á Igreja. Merecendo o Infante distinta gloria pelas açoens politicas, e militares, ainda fez mais memoravel o seu nome na posteridade pelo exercicio das moraes, e Catholicas. Frequentava os Sacramentos da Penitencia, e Eucharistia huma vez cada semana com manifestos sinaes de verdadeira compunçaõ. Orava fervorosamente pedindo a Deos auxilio contra as tentaçoens, e perseverança para as virtudes. Dispendia largas esmolas em beneficio dos orfaõs, amparo das Donzellas, e socorro das viuvas. Fortalecia o espirito com a abstinencia do jejum, e o rigor do cilicio. A practica de virtudes taõ heroicas lhe inspirou preferir o silencio do Claustro ao tumulto da Corte querendo vestir a roupeta da Companhia de JESUS de cuja sagrada resoluçaõ o dissuadiraõ Santo Ignacio de Loyola, e S. Francisco de Borja por ser mais grato a Deos o edificar a Corte, e felicitar o Reyno com o exemplo das suas virtudes, e direçaõ dos seus Conselhos. A mayor excesso subio o desprezo que fazia do mundo procurando anciozamente professar o austero instituto da Serafica Provincia da Arrabida para a qual fundou no anno de 1542. hum Convento situado entre as Villas de Benavente, e Salvaterra das quaes era Senhor, porém naõ consentio a Nobreza de Portugal, que practicasse este ultimo esforço do seu desengano, considerando quasi extincta a linha da sucessaõ Real. Foy decimo setimo Prior do Crato, cuja dignidade exercitou com grande vigilancia presidindo a todas as Assembleas da Ordem, e edificando na Villa de Estremoz hum Mosteiro de Religiosas deste illustre habito que he o único em Portugal ao qual dotou com renda opulenta. Por alta disposiçaõ da Providencia, se conservou no celibato frustando-se a conclusaõ de cinco cazamentos, em que eraõ interessadas as Coroas de Escocia, Polonia, França, Inglaterra, e Portugal. De Violante Gomes, a quem liberal a natureza concedeo os dotes de fermosa, e discreta, que raramente se unem, teve ao Senhor D. Antonio taõ memoravel na posteridade por ser filho de taõ grande pay, como pela injustiça com que a fortuna lhe negou a Coroa de seus Mayores violentamente uzurpada por Filippe Prudente. Foy profundamente versado em todo o genero de erudiçaõ como testemunharaõ seus Mestres Pedro Nunes, e Lourenço de Caceres; o primeiro no Tratado da Esfera que lhe dedicou, e o segundo na Instruçaõ que lhe deu para se aperfeiçoar nas sciencias. Practicou com engenho a armonica Faculdade da Musica, e na Arte da Cavallaria como no jogo das armas foy destro, e robusto. Compoz versos com elegancia, e facilidade. Ao ornato do corpo correspondia a eloquencia da fraze. Teve huma numerosa Livraria composta dos Authores de todas as Faculdades, onde passava grande parte do tempo consultando aquelles mudos oraculos para directores das suas açoens moraes, e politicas. Foy declarado Protector dos Sabios pela semelhança que com elles tinha. A sua Casa competia com a Real na magnificencia, e numero de criados que chegavaõ a seiscentos e trinta entre os quaes se distinguiaõ vinte e sete Fidalgos Cavalleiros, doze Fidalgos escudeiros, vinte e dous moços Fidalgos, trinta e dous escudeiros Fidalgos, e duzentos e treze moços da Camara. Chegado o termo de alcançar o premio das suas religiosas acçoens, recebidos com grande ternura os Sacramentos, voou o seu espirito a 27. de Novembro de 1555. a coroarse no Impirio quando contava a idade de 49. annos. Jaz sepultado no Templo de Belem augusta fundaçaõ de seu heroico pay e sobre o Mausoleo se lhe gravou o seguinte epitafio.

Magnus Consiliis Infans Ludovicus, & armis.

Hoc silet augusto, morte jubente, loco.

Recitou a Oraçaõ funebre em a Universidade de Coimbra o eloquentissimo Ioaõ Pedro Perpeniano da Companhia de Jesus, cuja elegancia ainda que excellente naõ pode suavizar o penetrante golpe que experimentou o nosso Reyno com a falta de taõ esclarecido Principe. A sua vida escreveo o Illustrissimo, e Excellentissimo Conde de Vimioso D. Jozeph Miguel Ioaõ de Portugal hoje III. Marquez de Valença ornada de taõ discretas expressoens, que compete a sublimidade da sua penna com a soberania do Heroe que elegeo para argumento da sua Historia o qual foy, e será dos mais celebres Escritores exaltando as suas virtudes com merecidos encomios. Damiaõ de Goes Chron. delRey D. Man. Part. 1. cap. 101. Foy taõ ornado de virtudes que para natureza de todo comprir com os dotes que lhe deu, lhe houvera de conceder ocasiaõ para poder conquistar mores Reynos, e Senhorios de que o fez a Alexandre porque para a execuçaõ disso lhe sobejou o animo, e para o fazer lhe naõ faltou mais que naõ nascer Rey. Andrade Chron. delRey D. Ioaõ o III. Part. 4. cap. 115. As raras virtudes, e dotes da natureza desse raro, e valeroso Principe alem de estarem ainda agora taõ vivas na memoria de todos os homens dos antigos que o inda alcançaraõ vivo, pelo que viraõ nelle, e dos modernos pelo conhecimento que a fama, e o seu grande nome lhe deu delle, que todos parece que as tem prezentes. Faria Asia Portug. Tom. 2. Introd. á 2. Part. A quel soberano Principe el Infante D. Luiz porquien siempre lloraran las virtudes heroicas, todo entendido, todo zelozo, y al fin el puro amor, y la gioriosa delicia de la papria, que supo conocer los meritos, y solicitarle el lugar devido. No Coment. ás Rimas de Cam. cent. 3. Sonet. 31. Principe maravillozo como dotado de todas aquellas partes de que puede componerse un varon excellentissimo qual el lo fue en presencia, en valor, en letras, entendimiento, juisio, ingenio, humanidad, y magnificencia. Eduard. Non. Vera Reg. Portug. Geneal. p. 34. Excelluit Princeps hic inter altos sui temporis. Militaris disciplinae studio maxime deditus. Armorum, equitandi, venandi, ac Matheseos peritus. Artium etiam libero homine dignarum non expers. Religione in Deum, pietate in fratres, humanitate in omnes nulli secundus. Souza Vid. de Fr. Bart. dos Mart. liv. 5. c. 28. Sempre será no mundo com saudade de todo o bom espirito, e com queixa, e magoa de lhe naõ cahir nas maõs hum grande imperio. Ferd. Paez in Cap. Mis. Epist. Ded. ad Ant. D. Lud. filium. Doctis ac probis adeo favit, ut nec probus, nec doctus haberetur apud Lusitanos, qui ad illum veluti ad certissimum asylum non confugeret. Petr. Nunes de Crepusc. in Epist. ad Ioan. III. Magnanimo Infanti Ludovico fratri tuo litterarum studiosissimo quotidiana lectione Aristotelis libros expono. Nec enim satis & putavit ad expugnandum Tunetum munitissimam Africae urbem cum Carolo Imperatore transfretasse in omni belli expeditione, & praelii incursu strenuissimum se praebuisse, nisi intermissa studia revocasset Arithmeticam, Geometriam, Musicam, & Astrologiam mire percalluisset, & vero nunc reliquarum scientiarum ornamento animum excolere non cessat. Mariana de reb. Hisp. lib. 28. cap. 27. animi celsitudo praecipua, insignis animi pietas praesertim accedente aetate quae longa non fuit. Girard. Diar. Part. 3. Principe de gran bontà, y dotrina. Godinho de Abyssin. reb. lib. 2. c. 17. erat vir magnus, & aequatissimus virtutum aestimator. Telles Chron. da Comp. de Jes. De Portug. Part. 2. liv. 6. cap. 20. raro exemplo de Principes, e liv. 4. cap. 18. n. 9. unico no nome, e unico nas virtudes. Ioan. Soares de Brito Theatr. Lusit. Litter. Lit. L. n. 15. Princeps omnibus egregiis artibus, ac virtutibus ornatissimus. Maris Dial. de Var. Hist. Dial. 5. Princepe taõ adornado de virtudes, e excellencias, que naõ se poderá a dignidade dellas de outra maneira explicar se naõ como nas Taboas Geograficas se costuma onde a grandeza do Nilo se mostra por huma estreita linha, e a magestade de Roma por hum breve ponto. Sousa Hist. Geneal. da Casa Real Port. Tom. 3. liv. 4. p. 358. Hum dos mais famosos Principes, que sem Coroa conheceo Hespanha digno de a cingir em muitos Reynos. Hyer. Card. Epithal. Ser. Joan. Caroli V. filiae

………. Lysii spes altera Regni

Magnanimus Regis frater Ludovicus in armis,

Clarus, & egregius, cujus pavet Africa nomen,

Virtutemque viri: quod si vexilla tulisset

Obvia, & armatus lybicas penetraret in oras,

Próh quales victor titulos, qualesque triumphos

Gentibus ex domitis, captoque ex hoste referret!

Francisco de Sá e Miranda Ecloga 2. intitulada Celia que dedicou ao Infante D. Luiz.

Serenissimo Infante a quien se deve

Calor de Esmirna o Mantua,

A quien el mio

Quando mas arde es una fria nieve

Del siempre elado Boote &c.

Escreveo Duas Cartas ao Vice-Rey D. Ioaõ de Castro a primeira em 26. de Março de 1547. e a segunda em 22. de Outubro do mesmo anno. Sahiraõ na Vida deste Heroe escrita por Jacinto Freyre de Andrade liv. 3. §. 4. e liv. 4. §. 97. e na Vida do Infante D. Luiz composta pelo Excellentissimo Conde de Vimioso pag. 70., e 81.

Carta escrita em Almeirim a 20. de Fevereiro de 1549. ao Prior Geral de Santa Cruz de Coimbra D. Filipe Pegado. Impressa na Chron. dos Coneg. Reg. composta por D. Nicolao de Santa Maria liv. 10. cap. 8. n. 5 .

Carta escrita ao Provincial dos Frades Jeronimos a 20. de Fevereiro de 1550. Impressa na Chron. de Prov. de Arrab. Part. 1. liv. 2. cap. 11.

Carta escrita em Almeirim a 4. de Junho de 1551. ao Prior Geral de Santa Cruz. D. Francisco de Mendanha. Sahio na Chron. dos Con. Reg. liv. 10. cap. 9. n. 8.

Carta escrita em Almeirim a 13. de Julho de 1551. a S. Francisco de Borja havendo renunciado o Ducado de Gandia. Impressa na Chron. da Companhia de Jesus da Prov. de Port. composta pelo Padre Balthezar Telles Part. 2. liv. 4. cap. 17. n. 5.

Carta escrita de Lisboa a 24. de Outubro de 1552. a D. Affonso de Portugal Conde do Vimioso. Sahio na Vida do Infante D. Luiz composta pelo Excellentissimo Conde do Vimioso D. Miguel Joseph Ioaõ de Portugal pag. 89.

Carta escrita de Lisboa a 13. de Março de 1555. a Pedro Mascarenhas Vice-Rey da India Impressa na 2. part. da Chron. da Companhia de JESUS da Prov. de Portug. liv. 6. cap. 10. n. 12.

Tratado dos modos, proporçoens, e medidas M. S.

Tratado da Quadratura do Circulo. M. S.

Auto de D. Duardos. Sahio impresso com o nome de Gil Vicente celebre Poeta Comico.

Destas tres obras fazem mençaõ o Excellentissimo Conde de Vimioso na Vid. do Infant. D. Luiz pag. 141., e D. Antonio Caetano de Souza Hist. Gen. da Caza Real Portug. Tom. 3. liv. 4. pag. 362., e da ultima Manoel de Faria, e Souza Comment. as Rim. de Camoens Cent. 3. Sonet. 31. dizendo que está llena de illustres politicas, y maravillosos afectos. Do mesmo Infante quer o referido Faria ser o Soneto 31. da Cent. 3. de Camoens que começa.

Imagens vans me imprime a Fantezia.

Como a seguinte Copla.

Muito vence o que fe vence;

Muito diz quem naõ diz tudo:

Porque a hum discreto pertence.

A tempos fazerse mudo.

Outro Soneto que principiava.

Imprime a fantesia imagens novas

Discursos grandes brota o entendimento &c.

Outro Soneto que começa.

Horas breves do meu contentamento.

Sahio impresso com o seu nome no 3. Tomo da Feniz renacida, ou obras Poeticas dos melhores engenhos Portuguezes. Lisboa por Joze Lopez Ferreira 1618. a pag. 252. Este Soneto glosou Balthezar Estaço cuja Glossa está a pag. 94. Dos seus Sonetos, Cançoens, e Glossas.

Explicaçaõ do Psalmo Benedicam Domino in omni tempore. M. S.

Explicaçaõ do Psalmo. Quemadmodum desiderat servus ad fontes aquarum S.

Estas duas obras se conservaõ na Livraria do Illustrissimo e Excellentissimo Duque de Lafoens que foy do Emminentissimo Cardeal de Souza.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]