D. Garcia de Meneses

D. GARCIA DE MENESES Naceo em a celebre Villa de Santarem, e teve por Progenitores a D. Duarte de Menezes terceiro Conde de Viana Capitaõ de Alcacer Seguer, Alferes mór dos Reys D. Duarte, e D. Affonso V. e D. Izabel de Castro sua segunda mulher filha de D. Fernando de Castro. A vivacidade do engenho de que liberalmente o ornara a natureza, se admirou na veloz comprehensaõ da lingua Latina, e letras humanas em que foy egregiamente instruido donde passando aos estudos mais severos excedeo a todos os engenhos da sua idade assim na profundidade do talento, como felicidade da memoria. Cheyo de tantos dotes scientificos, que se augmentavaõ com o esplendor do seu nacimento foy nomeado Bispo de Evora por ser promovido seu Antecessor D. Alvaro Paes à Cadeira primacial de Braga. Naõ lhe entibiou a benevolencia de Pastor com que governava o seu rebanho, aquelle ardor militar que herdara de seus Mayores alimentado entre as palmas, e louros de Alcacer Seguer, e Ceuta onde se achara com seu heroico Pay, sendo hum dos gloriosos instrumentos de se alcançar a memoravel batalha de Toro no anno de 1476. onde deposto o bago, e empunhada a espada triunfou em obsequio do seu Principe do exercito Castelhano. Igual gloria conseguio quando acompanhado de seu Irmaõ D. Joaõ de Menezes primeiro Conde de Tarouca, e Prior do Crato derrotou a D. Affonso de Cardenas Mestre de S. Tiago nas margens do rio Odigebe. Provada a valentia de seu animo, e prudencia da sua direçaõ nestas belicozas emprezas, o nomeou ElRey D. Affonso V. Commandante da Armada que no anno de 1480 expedio em socorro de D. Fernando Rey de Napoles para reprimir a violenta impressaõ dos Turcos com que tinhaõ Conquista do a Cidade de Otranto, e invadido a toda a Calabria, cuja incumbencia aceitou com gosto por ceder em gloria da Religiaõ, e ruina de seus Antegonistas. Tanto que aportou a armada em Italia passou D. Garcia a Roma com o Caracter de Embaxador, e na prezença de Xisto IV. e de todo o Consistorio que estava publico na Basilica de S. Paulo in via Ostiensi recitou em 31. de Agosto de 1481. Huma Oraçaõ Latina na qual com a mais pura fraze, elegante facundia, e vehemente expressaõ reprehendeo a cupavel inercia de muitos Principes Catholicos, e a escandalosa vida de alguns Prelados Ecclesiasticos exhortando ao Summo Pastor a que aplicasse toda a vigilancia contra os progressos do inimigo comum, e reformasse os abuzos que insensivelmente se tinhaõ introduzido na Igreja. Entre o grave auditorio, que estava pendente da boca do Orador assistia Pomponeo Leto celebre Filologo, e Rhetorico daquella idade, que admirado da sublime eloquencia com que se explicava D. Garcia, rompeo nestas palavras. Pater Sancte quis est iste barbarus, qui tam diserte loquitur? em cujo aplauzo lhe dedicou huma Musa Romana o seguinte Dysticho.

Eloquium dominá quod jam Tagus hausit ab urbe,

Hauriat Hesperij Tibris ab amne Tagi.

Para sinal do afecto com que o Summo Pontifice estimara o seu talento o nomeou Assistente do Solio Pontificio, e o fez prepetuo administrador do Bispado da Guarda em 5. de Setembro de 1481. conservando sempre a Mitra de Evora. Restituido a Portugal no anno de 1482. coroado de trofeos sem desembainhar a espada, e aplaudido na cabeça de todo o mundo pela sua eloquencia, e capacidade, achou muito propensa a vontade delRey D. Joaõ o segundo para sua pessoa, porem como D. Garcia estivesse mais custumado a mandar, de que obedecer no reinado delRey D. Affonso V. naõ pode tolerar a severidade com que aquelle Principe governava, e interpretando esta independencia por violaçaõ dos Privilegios da Nobreza persuadio ao Duque de Viseu, e outros Cavalheros quizessem opporse a esta violencia. Certificado D. Joaõ o II. desta conjuraçaõ depois de castigados com pena capital os seus authores o mandou encerrar na cisterna seca do Castello de Palmella onde preocupado de taõ penetrante disgosto acabou brevemente a vida no anno de 1484. digna certamente de fim menos infausto. O Caracter da sua pessoa recopilou nestes Versos Garcia de Resende Miscellan.

Vi o Bispo D. Garcia

Bispo de taes dous Bispados Que honra que gran valia

Que grandes merces fazia

A parentes, e chegados.

Nas guerras Fronteiro moor

Nas letras gran sabedor;

Que caza, que conversar:

Como foy triste acabar

Com tanta tristeza, e door.

Nicol. Ant. Bib. Hisp. vet. lib. 10. cap. 12. §. 703. Garcias Menesius amplissimae hujus familiae ornatissima proles. Macedo Lusit. Inful. pag. 207. belli, pacisques artibus clarus. D. Agostinho Manoel Vid. de D. Joan. II. pag. 149. Tenia muchas partes de Soldado y en las ocasiones aventejó a los de mayor opinion y nó le faltava ingenio y agudeza porque era Letrado y singular Humanista &c. Sampayo Vida del Princip. perfet. pag. 39. Vers. Prelado de grandes letras, y calidad. Souza Hist. de S. Domingos da Prov. de Portug. Part. 2. liv. 5. cap. 5. dotado de singular eloquencia de que até a nossa idade chegaraõ vestigios. Fr. Luiz dos Anjos Jardim de Portug. cap. 107. resplandecia em virtude, prudencia, e zelo do bem commum. Medeiros Perfeito Soldado pag. 28. D. Luiz de Salazar Hist. Geneal. da Caza de Sylva. Part. 2. liv. 6. cap. 4. e 13. Fonceca Evor. glorios. p. 293. foy hum dos mais eloquentes, e eruditos heroes do seu seculo. Resende Chron. de D. Joaõ o II. cap. 51. Telles de rebus gestis Joannis II. pag. mihi 112. e 124. Lipenio Bib. Real. Philosoph. pag. 175. Joan. Soar. de Brit. Theatr. Lusit. Litter. lit. G. n. 8. Joan. Hallevord. pag. 97. Sylva Leal Cathalog. dos Bisp. da Guard. §. 27. A Oraçaõ que recitou na presença do Summo Pontifice Xisto IV. em o anno de 1481. Sahio impressa no mesmo anno em Roma da qual vimos hum exemplar na selectissima Livraria do Doutor Nicolao Francisco Xavier da Sylva Academico do numero da Academia Real, a que tinha o titulo seguinte com esta orthografia.

Garsias Menesius Eborenis presul quom Lusytaniae regis iclyti legatus, et regiae classis adversus turcos idrunte in apullia presidio tenentes profectus ad urbem accederet in teplo divi pauli publice exceptus apud Xistum IIII. pont. max. Et apud sacrum Cardinalium senatum hujuscemodi orationem habuit. 4. No fim tem estas palavras. Habita hec est oratio pridie Kalendas Septembris salutis Anno Millessimo quadringentissimo octuagesimo primo: pontificatús vero Xisti IIII. Anno XI. & eodem Rome impressa.

Sendo mandado a Roma pelo Cardial D. Henrique Gaspar Barreiros de quem brevemente faremos larga memoria para gratificar da parte deste Principe a Paulo III. o Capello Cardinalicio que lhe mandara, contrahio taõ estreita amizade com o Cardial Jacobo Sadoleto, que lhe deu como precioso donativo esta Oraçaõ, que conservava na sua Bibliotheca qual remeteo o mesmo Gaspar Barreiros com huma elegante carta escrita a seu cordial amigo Jorge Coelho taõ grande Orador, como Poeta Latino, e nella lhe diz fallando da mesma Oraçaõ.

Nam quae species, quae dignitas, qui orationis splendor, et ornatus? Quam concinna verborum collocatio, et quam propriorum conformatio? Quam uberes, & acutae sententiae? Quantus usus, & quanta rei militaris disciplina? Quam perfecta maritimarum, et terrestrium regionum scientia, & quam completa historiarum, caeterarumque rerum cognitio apparet? In qua tu oratione Coeli deprehendes nervos, succum, & sanguinem, non jejunam, & exilem, vel ineptam quamdam eloquentiam multa inanium verborum congerie fidentem tamquam innumeris, & garrulis perstrepentem vocibus, non rebus uti nonnullis usu venire videmus, qui cum ingenii, & inventionis inopia premantur miseram chartarum aream plurimis verborum velut palearam, & culmorum manipulis, non autem laeta frumenti ubertate inferciunt. Quantus insurgit adversus Christianorum Regum illius aetatis imbellem socordiam, & negligentiam? Quantùm invehitur in depravatos, & corruptos Antistitum mores? Quo animo, bone Deus, erigit, & inflamat ipsum Pontificem, & sacrum Cardinalium senatum ab bellum contra Turcas suscipiendum? Quo ardore mentis etiam Reges, & caeteros Christianos Principes ad id quoque bellum eisdem barbaris inferendum sollicitat? &c. Sahio esta Oraçaõ reimpressa Conimbricae apud Joannem Alvares Acad. Typ. 1561. juntamente com a Corografia, e outras obras de Gaspar Barreiros que se fizeraõ publicas por deligencia de seu Irmaõ o Doutor Lopo de Barros. Compoz mais D. Garcia de Menezes.

Historia Belli Hydruntini Conimbricae. 1560. 8.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. II]

António Ciro Pinto Osório

ANTONIO CYRO PINTO OSORIO, Bacharel em Leis pela Univ. do Coimbra, formado segundo credo em 1826. – N. na villa e praça de Chaves nos primeiros annos d’este seculo, e consta que morrera ha pouco tempo no Porto, onde exercia a profissão do Advogado. Não posso attingir o que deu causa á equivocação do sr. Castilho, que no seu Almanach de Lembranças para 1856 attribuiu a este auctor a qualidade de brasileiro, que de certo não teve. – E.

586) Ode ao Ill.mo Sr. Manuel Fernandes Thomás, Membro da Junta Provisoria do Governo Supremo do Reino. – Sahiu a pag. 93 do n.º I do Cidadão Litterato, periodico de Politica e Litteratura. Coimbra, na Imp. da Univ. 1821. 4.º.

587) Ode e Canção recitadas na salla grande da Universidade de Coimbra no dia 26 de Fevereiro de 1823. – Sahiu na Collecção de Poesias recitadas na mesma occasião, Coimbra, na Imp. da Univ. 1823. 4.º.

588) Ode ao Ill.mo e Ex.mo Sr. Manuel da Silveira Pinto da Fonseca segundo Conde d’Amarante. Porto, na Typ. da Viuva Alvares Ribeiro & Filhos. 1823. 4.º de 8 pag.

É muito para notar, confrontando entre si estas poesias, a immensa modificação porque passaram as crenças politicas do auctor no curto intervallo que mediou entre a publicação da segunda e a da terceira!

589) Duas Odes Anacreonticas insertas na Chronica Litteraria da Nova Acad. Dram. de Coimbra, tomo I a pag. 14, e 170.

É tudo quanto conheço impresso d’este auctor. Poderá ser que mais alguma cousa o fosse, avulsamente, ou incorporado em alguns jornaes. Diz‑se porém que compozera, e conservava ineditas grande numero de poesias, que a julgarmos pelo pouco que d’elle temos visto, devem ser de merecimento, e é para sentir que se não publicassem.

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]

António Honorato de Caria e Moura

ANTONIO HONORATO DE CARIA E MOURA, Doutor e Lente da faculdade de Mathematica na Univ. de Coimbra, Bibliothecario da mesma Univ., e collaborador e revisor das Ephemerides por ella publicadas. (V. Ephemerides Astronomicas etc.)

Foi mandado riscar do serviço publico pela carta regia de 15 de Julho de 1834 (V. Angelo Ferreira Diniz) mas depois reintegrado em parte, por decreto de 12 de Janeiro de 1837. – M. a 16 de Novembro de 1843.

Ácerca dos seus trabalhos universitarios e de outras noticias curiosas que lhe dizem respeito, póde consultar‑se a Memoria Hist. e descriptiva da Bibl. da Univ. pelo Dr. F. M. Barreto Feio, de pag. 71 em diante. Ahi se lhe attribuem além de outras obras ainda ineditas, varias Memorias sobre diversos pontos de geometria, analyse, e mechanica; uma Geometria Synthetica, umas Taboas para abbreviar o calculo das ascenções rectas, etc. «tudo trabalhos primorosos e dignos de se estamparem.»

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]

 

António José Viale

ANTONIO JOSÉ VIALE, do Conselho de S. Magestade, Commendador da Ordem de Christo, Official da Bibl. Publ. de Lisboa, Mestre de grego d’Elrei o Sr. D. Pedro V, e de seus Augustos Irmãos, Socio da Acad. R. das Sc. de Lisboa, do Conservatorio Real, etc. etc.-N. em Lisboa, em 1807. -E

938) David Triumphante: Poema heroico offerecido ao Ill.mo e Ex.mo Sr. D. Vicente de Sousa Coutinho, Conde d’Alva etc. Lisboa, na Imp. Reg. 1819. 4.º de VIII‑23 pag.-Consta de dous cantos em outava rima. Producção publicada pelo auctor aos doze annos de sua edade.

939) Bosquejo Historico‑poetico dos acontecimentos mais importantes occorridos em Portugal até á morte do Senhor Rei D. João VI. Lisboa, na Typ. da Revista Universal 1856. 8.º de VI‑94 pag.-É dividido em dous cantos, em outava rima. O auctor declara tel‑o composto com o fim de que servisse aos estudantes de Humanidades para melhor gravarem na memoria os principaes successos da historia patria.

940) Novo Epitome da Historia de Portugal para uso da Real Eschola Primaria estabelecida por Sua Magestade ElRei no palacio de Mafra. Lisboa, na Typ. de Castro & Irmão 1856. 8.º de 207‑VIII pag.-Este compendio, que serve de complemento e commentario ao antecedente, não traz expresso o nome do seu auctor.

941) O sexto canto da Iliada, e os dous primeiros cantos do Inferno de Dante, traduzidos das linguas originaes. Lisboa, na Typ. da Acad. Real das Sciencias 1855. 4.º gr.-E no tomo I parte II das Memorias da Acad., Nova Serie, Classe 2.ª

942) O canto V do Inferno de Dante.-Nos Annaes das Sciencias e Letras, publicados sob os auspicios da Acad., Classe 2.ª, tomo I pag. 185 e seguintes.

943) Fragmento do canto primeiro da Odysséa, traduzido em verso solto. -Na Revista Universal Lisbonense vol. IV, 1845, pag. 471. No mesmo vol. a pag. 32 diz o sr. Castilho (Antonio) «ter tido em seu poder o referido primeiro canto já concluido, com que o traductor o regalara, todo no estylo e phrase tão repassado da sincera naturalidade antiga, e não obstante a sua fidelidade ao original, tão claro, tão fluente, e pare os bons ouvidos tão aprasivel, que todos os muitos amigos do senhor Viale deviam empenhar‑se com elle para que não levantasse mão d’aquella ardua empreza antes de a concluir inteiramente.»

Collaborou com João da Cunha Neves Carvalho Portugal na redacção do Jornal da Sociedade Catholica em 1844 – e foi depois principal redactor do Catholico, que passou de suas mãos para as de José Barbosa Canaes de Figueiredo Castello Banco. Outros mais trabalhos litterarios se lhe attribuem, de que não estou ainda habilitado a dar noticia circumstanciada e exacta.

 

[Diccionario bibliographico portuguez, tomo 1]

Padre Alexandre Cabral

P. ALEXANDRE CABRAL, natural da Villa de Pinhel da Provincia da Beira, e alumno da sagrada Companhia de Jesus, em que se alistou em o Noviciado de Evora a 20 de Agosto de 1725. Falleceo na Casa professa de S. Roque a 4 de Mayo de 1756. Publicou

Sermaõ nas sumptuosas exequias do Reverendo Doutor Manoel de Matos Botelho, Abbade de duas Igrejas, Vigario Geral, e Governador do Bispado de Miranda, prégado na Igreja da Misericordia da Cidade da Bahia aos 24 de Julho de 1744. Lisboa, na Regia Officina Silviana, 1745. 4.

 

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. IV]

Padre Aleixo Coelho

P. ALEIXO COELHO, natural da Villa de Arrayolos da Provincia Transtagana, alumno da sagrada Companhia de Jesus, cuja roupeta vestio no Collegio de Evora a 7 de Fevereiro de 1572. Compoz

Das cinco Maximas da Eternidade. M. S.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. IV]