Vasco de Lobeira

VASCO DE LOBEIRA, natural da Cidade do Porto igualmente insigne pelo judicioso talento de que beneficamente o ornou a natureza, como pelas açoens militares com que adquerio fama ao seu nome sendo armado Cavalleiro pelas reaes maõs do nosso invencivel Monarcha D. Joaõ I. ao tempo que estava para dar batalha aos Castelhanos no campo de Aljubarrota com que segurou a sua Coroa. A mayor parte da sua vida assistio na Cidade de Elvas, onde instituio hum morgado que depois veyo aos Abreos de Alcarapinha. Falleceo no anno de 1403. Foy o primeiro que escreveo com engenhoso artificio livros de Historias fabulosas intituladas Cavallarias das quaes teve muitos sequazes. A principal que escreveo foy

Historia de Amadiz de Gaula dividida em 4 livros. fol. Nella fórma huma Republica mais estimavel que a de Plataõ, onde imitando aos Longobardos quer que todo o direito se decida pelas armas. O original se conservava em Casa dos Excellentissimos Duques de Aveiro. Os Castelhanos a traduziraõ no seu idioma sem declarar o Author, como foraõ Garci Gutierres de Montalto, e Garci Gordones de Montalto. Sevilha por Juan Cromberger 1539. fol. e Salamanca por Pedro Lasso 1576. fol. Alcala por los herederos de Juan Garvi 1588. fol. Salamanca com o titulo Libro delRey Amadiz de Gaula 1510. fol.

Celebraõ a esta obra grandes Escritores, como saõ Possevino Bib. Select. lib. 1. p. 25. D. Miguel de Cervantes Vid. de D. Quixot. Part. 1. liv. 6. Sousa Exccell. de Portug. cap. 8. excel. 9. Faria Fuent. de Aganip. Part. 1. Disc. dos Sonet. n. 8. e 10. Nic. Ant. Bib. Hisp. Vet. lib. 8. cap. 7. §. 291. Miguel Leitaõ Ferreira na Pref. das obras Poet. de seu Pay o Doutor Antonio Ferreira. O Doutor Joaõ de Barros Descripc. de Entre Douro e Minho. cap. 8. Fez os 4 livros de Amadiz, obra certamente sutil, e graciosa, e aprovada de todos os galantes, mas como estas cousas se secaõ em nossas maõs, os Castelhanos lhe mudaraõ a linguagem, e atribuiraõ a obra a si, mas com tudo naõ falta entre elles quem a restitua a seu verdadeiro dono, e entre elles o Arcebispo D. Antonio Agostinho Varaõ eruditissimo, e antiquario deligente nos Dialogos das Medalhas Romanas Dial. 2. fol. 16 diz que Amadiz de Gaula foy composto por Vasco de Lobeira Portuguez. As palavras do referido Arcebispo de Tarragona fallando deste Author saõ estas, como lemos no lugar allegado. Quarum fabularom primum fuisse auctorem Vascum Loberam Lusitani jactant. O eruditissimo D. Gregorio Mayans, y Siscar na Vida de Miguel de Cervantes que sahio impressa na obra que este insigne Espanhol compoz de D. Quixote de la Mancha em Haya por Pedro Gosse 1744. a pag. 20 fallando do nosso Vasco Lobeira diz, yo he observado que Amadiz de Gaula es anagrama puro de la Vida de Gama. De donde mis amigos los Portuguzes podran inferir otras muchas y muy provables conjecturas. Naõ he menor o elogio que a esta obra faz o insigne Torcato Tasso Disc. heroic. lib. 2. fol. 46. Qualecumque fosse colui che si discrisse Amadigi amante de Oriana merita maggior lode che alcuno degli Scritori Francezi perche piu nobilmente, e com maggior constanza sono scriti ali amori poeti Spagnoli, che di Francezi iquali favellegiarono nelle loro lingua materna, se riza obligo alcuno di rime, e con si poca ambicione che a pena e passato a la posterità il nome di alcuno. Assistindo o Pay de Torcato Tasso em Castella por criado do Principe de Salerno traduzio em verso por satisfazer os dezejos das pessoas principaes a Historia de Amadiz composto pelo nosso Lobeira; la quale (como escreve o mesmo Tasso Defens. de Gotofredo fol. 126.) per giudicio de molti, & mio particularmente è la piu bella chi se lega fra quelle di questo genere, e força la piagevole, per che nello affecto, e nel costume si lascia adietro tutte l’ altre, e nella varietà dell’ accidenti non cede a alcuna che da poi aprima fosse stato descrita. O Licenciado Jorge Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 1. pag. 410. se enganou dizendo, que Vasco de Lobeira, a quem intitula Pedro para em tudo se enganar, traduzira a Historia de Amadiz na lingoa Franceza por ordem do Infante D. Pedro filho delRey D. Joaõ I. Este lhe dedicou em seu aplauso hum Soneto, que se póde ler na Fuente de Aganipe de Manoel de Faria e Sousa P. I. no Disc. dos Sonet. num. 8. e no liv. 2. dos Sonet. do Doutor Antonio Ferreira a pag. 24.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]

Frei Vasco de Lucena

Fr. VASCO DE LUCENA, alumno da illustrissima Ordem dos Prégadores, cujo instituto professou no Real Convento de Lisboa no anno de 1570. Compoz no tempo que era morador no Real Convento de Bemfica em o anno de 1611.

Vita B. Aegidii. fol. M. S. Esta obra vio o P. Fr. Pedro Monteiro, como escreve no Claust. Domin. Tom. 3. p. 320.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]

 

D. Vasco Martins

D. VASCO MARTINS, filho de Martim Domingues irmaõ de D. Giraldo Domingues Bispo do Porto, Placencia, e Evora, naceo no lugar de Medello pouco distante da Cidade de Lamego. Foy educado por seu Tio D. Giraldo, em cuja escola fez taes progressos em letras, e virtudes, que de Prior de Almacava da Diocese de Lamego foy eleito ao tempo que assistia na Cidade de Avinhaõ pela Santidade de Joaõ XXII. Bispo do Porto a 15 de Dezembro do anno de Christo de 1327. Em observancia da ordem do Pontifice de que os Bispos residissem nos seus Bispados passou de Avinhaõ para o Porto, onde a primeira acçaõ que fez em defensa do rebanho que lhe fora cometido, foy oporse alentadamente com D. Gonçalo Pereira Arcebispo de Braga, e o Mestre da Ordem Militar de Christo D. Fr. Estevaõ Gonçalves acompanhados de mil e quatrocentos homens de pé, e cavallo á violenta invasaõ de D. Fernando Rodrigues de Castro, e seu irmaõ D. Joaõ de Castro principaes Senhores do Reino de Galiza feita por ordem de Affonso XI. de Castella em as terras de Entre Douro, e Minho, sendo tal a resistencia que experimentaraõ, que cahindo morto D. Joaõ de Castro salvou a vida seu irmaõ com a velocidade do cavallo em que estava montado. Castigou com interdicto o sacrilego insulto, com que os moradores do Porto pertenderaõ affrontar a sua pessoa sahindo da Cidade em que nunca mais assistio. Sucedendo na Cadeira de S. Pedro Clemente VI. por morte de Benedicto XII. o proveo no Bispado de Lisboa a 26 de Agosto de 1342 que administrou com zelo pastoral atè fallecer no anno de 1344. Delle faz larga mençaõ o Illustrissimo Cunha Cathal. dos Bisp. do Porto. Part. 2. cap. 18. e na Hist. Ecclesiast. de Braga. Part. 2. cap. 88. e 90.

Compoz

Livro da Roda. M. S.

Conserva-se no Archivo da Cathedral de Lisboa taõ celebre nesta Sé, o intitula o mesmo Cunha no Cap. 90. da Part. 2. da Hist. Eccles. de Lisboa.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]

Frei Vasco Martins

Fr. VASCO MARTINS. Monge Benedictino, e muito versado nas sagradas memorias da sua augusta Religiaõ. Por instancia de Joaõ Vasques Reitor da Igreja Parochial de Santa Senhorinha de Basto, escreveo

Vita S. Severinae Virginis Benedictine. Acabada 7. Kal. Maii aerae 1441. Christi 1403. Conserva-se na mesma Igreja, como diz Jorge Cardoso Agiol. Lusit. Tom. 2. pag. 681. col. 2. no Coment. de 22 de Abril letr. C. O P. Francisco da Cruz Jesuita nas suas Miscellanias para a Bib. Lusit. affirma ter visto esta Vida na Livraria do Eminentissimo Cardeal de Sousa que hoje possue o Illustrissimo e Excellentissimo Duque de Lafoens, e que posto ter o titulo em Latim he escrita em Portuguez, e acabada 7 Maii MIIIIX. onde consta ser mandada tresladar por Antonio Martins Abbade da Igreja de Santa Senhorinha de Basto. Donde se colhe ser differente esta Vida que vio o P. Cruz, daquella de que dá noticia Jorge Cardoso, assim no anno, como na pessoa que a mandou compor.

 

[Bibliotheca Lusitana, vol. III]

Vasco Martins de Lucena

VASCO MARTINS DE LUCENA, de quem fazia muita estimaçaõ o Infante D. Pedro, filho delRey D. Joaõ I. pela profunda intelligencia que tinha das letras sagradas, e profanas. Por insinuaçaõ deste Principe traduzio para instruçaõ de D. Affonso V. quando era menino.

Instruçaõ de Principes. M. S.

O Original escrito em pergaminho conservava em seu poder D. Vicente Nogueira, de quem brevemente se fará mençaõ.

 

 [Bibliotheca Lusitana, vol. III]